revista bula
POR EM 09/03/2009 ÀS 06:43 PM

Os sósias de Stálin

publicado em

Depois de 50 anos oculto, Dadaev apareceu e, segundo “El Mundo”, mantém a adoração pelo “paizinho Stálin”. Ele admitiu ao jornal russo que, 55 anos depois da morte de Stálin, ainda “conserva intacto o medo que sentiu durante aqueles anos” (os de Stálin no poder). Ele disse que o círculo íntimo de Stálin e seus sósias, como Dadaev, tinham muito medo da paranóia do ditador

Não é nova a história de que o soviético Stálin usava sósias para se proteger, para descansar das infatigáveis recepções ou mesmo para parecer onipresente. O correspondente do jornal “El Mundo” em Moscou, Daniel Utrilla, baseado em informações da imprensa russa, sugere que há provas de que o ditador usou pelo menos dois sósias. Na verdade, não se sabe exatamente quantas pessoas foram usadas como dublês.

Stalin sentia prazer ao ver que Molotov e Beria despachavam com seus sósias sem perceberem que não estavam conversando com o chefe supremo da União Soviética. A “duplicidade” era tratada como uma questão de Estado, portanto altamente secreta. Um dos mais célebres casos é o de Felix (ex-Gazavat) Dudaev, ex-bailarino, escritor satírico, malabarista, mágico e renomado militar do Exército Vermelho.

Dudaev contou que foi usado por Stálin para representá-lo em encontros com delegações e líderes estrangeiros (Luiz Carlos Prestes, por exemplo, pode ter conversado com Dadaev ou outro sósia) e para leitura de informes tediosos. Em 1945, na recepção a atletas, ele representou o líder georgiano. Ao mesmo tempo, em momentos complicados da história russa, o sósia era levado em carros em que as pessoas achavam que estava Stalin, até para provar que o ditador não tinha medo de nada. Ele, na verdade, estava escondido traçando estratégias de guerra contra seus muitos inimigos. Stálin, o verdadeiro, raramente aparecia em público, pois tinha medo de ser assassinado.

O curioso é que Dadaev era muito mais novo do que Stálin, mas eles eram parecidos. O artista e o ditador tinham o mesmo nariz imperial, imponentes sobrancelhas caucásicas (os dois eram do Cáucaso) e uma robusta papada. “Tínhamos quase a mesma altura [Stálin tinha 1,72m e Dadaev, 1,70m], voz e nariz”, contou Dadaev ao “Komsomolskaya Pravda”, o diário russo que escolheu para revelar sua história (que traduzo do espanhol). Eles tinham, porém, orelhas diferentes, mas raramente as pessoas chegavam perto de Stálin e, por isso, não sabiam que Dadaev tinha os lóbulos das orelhas colados à cabeça e o chefe bolchevique não. Stálin não gostava que o encarassem. Os amigos de juventude de Dadaev notaram cedo que era parecido com Stálin. “Eu ficava descontente, mas, no fundo de minha alma, me sentia orgulhoso por ser parecido com o grande pai dos povos.”

Dadaev e Stalin se encontraram apenas uma vez, durante cinco minutos. Um olhou no olho do outro. Stálin queria verificar se o sósia era mesmo parecido com ele e ficou satisfeito com o que viu. Dadaev disse, em georgiano, língua de ambos: “Obrigado, muito obrigado”. Stálin ficou calado. Depois de 50 anos oculto, Dadaev apareceu e, segundo “El Mundo”, mantém a adoração pelo “paizinho Stálin”. Ele admitiu ao jornal russo que, 55 anos depois da morte de Stálin, ainda “conserva intacto o medo que sentiu durante aqueles anos” (os de Stálin no poder). Ele disse que o círculo íntimo de Stálin e seus sósias, como Dadaev, tinham muito medo da paranóia do ditador.

A metamorfose de Dadaev em Stálin foi engenhosa. Depois de pesquisar rostos parecidos, a NKVD (depois, KGB e hoje FSB) descobriu Dudaev, em 1943, e o levou para uma dacha (casa de campo), nas proximidades de Moscou. O artista foi bem alimentado e, depois que engordou 11 quilos, ficou a cara de Stálin. Num primeiro momento, a NKVD pensou em fazer roupas iguais às do ditador, mas depois decidiu vesti-lo com roupas do próprio líder soviético. Maquiaram o rosto de Dadaev, para ficar ainda mais parecido com Stálin, que tinha as faces sulcadas pela varíola. A mulher de Dadaev, Nina Igorevna, não sabia que o marido levava vida dupla.

Em 1943, “quanto Stálin se encontrou em Teerã com o britânico Winston Churchill e o americano Franklin D. Roosevelt”, Dadaev representou Stálin numa missão delicada. “Enquanto o verdadeiro Stálin já estava no Irã, coube a Dadaev aparecer publicamente e sair do Kremlin num automóvel em direção ao aeroporto.”

Por que Dadaev sobreviveu aos expurgos? Nem ele sabe. Talvez Stálin gostasse dele. Outro sósia, o contador ucraniano Yevsei Lubitski, de origem judaica (tal como Hitler, o ditador soviético detestava judeus e matou milhares), foi encaminhado aos campos de trabalho forçado, depois de ter atuado 15 anos como sósia do poderoso chefão. Antecessor de Dadaev, Lubitski foi submetido a várias cirurgias plásticas para ficar parecido com Stálin. “Depois, todos os participantes daquela metamorfose (inclusive cabeleireiros e maquiadores) foram fuzilados”, relata “El Mundo”.

Ao ser escolhido para sósia de Stálin, Dadaev firmou um pacto de silêncio com a mortífera NKVD. Em 1996, com a abertura dos arquivos soviéticos, surgiram a história dos dublês e fotografias, inclusive de Dadaev. O sósia preferiu calar-se. “Não posso decidir”, disse. “Meio século depois da morte de Stálin, seu coração segue guardando segredos inconfessáveis.” Os arquivos devem conter mais histórias.
 

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2021 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio