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POR EM 27/07/2010 ÀS 07:21 PM

O transviado Dennis Hopper

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Dennis Hopper O nome de Dennis Hopper estará sempre associado ao filme “Sem Destino”, que ele dirigiu e protagonizou ao lado de Peter Fonda. Seu papel no filme, como um drogado agressivo e provocador, tem semelhança com seu jeito de ser na realidade. Essa confusão entre criador e criatura se repete em vários outros filmes. Ele quase sempre esteve envolvido com drogas, legais e ilegais. Na velhice, sem arrependimento, admitiu que poderia ter morrido umas dez vezes e que sobreviveu por milagre.

Sua estreia no cinema se deu em “Juventude Transviada” (1955), cujo título original, “Rebel Without a Cause”, significa “rebelde sem causa”. Já começou do lado do mal, integrando uma gangue de delinquentes. O título do filme não poderia ser mais adequado, porque, tanto no cinema quanto na vida, ele foi um rebelde sem causa.

Devido ao temperamento difícil, sua carreira no cinema quase nem principiou. Quando pedia emprego na MGM, o magnata Louis B. Mayer menosprezou seu interesse por papéis shakespearianos. Ele retrucou no mesmo tom e foi despachado na hora. Por sorte, a Warner Bros lhe deu uma oportunidade e ele não a desperdiçou. No clássico de George Stevens “Assim Caminha a Humanidade” (1956), ele faz o filho do casal Rock Hudson e Elizabeth Taylor. Não é do mal, uma exceção rara, aliás, mas se rebela contra o projeto do pai de tê-lo como seu sucessor na criação de gado. Prefere ser médico, casar-se com a filha de imigrantes mexicanos e brigar para defendê-la das ofensas de brancos preconceituosos. No cinema, foi a sua única causa nobre.

Hopper atuou em vários faroestes, sempre do lado contrário à lei. Assim foi em “Sem Lei e Sem Alma” (1957), “Os Filhos de Katie Elder” (1965), “A Marca da Forca” (1968) e “Bravura Indômita” (1969), e em todos teve morte violenta. Conta-se que durante as filmagens de “Bravura Indômita”, na Paramount, John Wayne perdeu as estribeiras com as suas provocações, pegou uma arma com balas de verdade e saiu à caça dele pelo estúdio. Ele se escondeu no camarim de um companheiro de elenco e lá permaneceu até Wayne se acalmar.

No ápice da carreira, com o sucesso de “Sem Destino” (1969), ele se envolveu com drogas pesadas, mergulhando na fase mais sombria de sua vida. O título do filme que dirigiu em seguida, um fracasso de público e de crítica, era meio profético: “The Last Movie” (O Último Filme). A partir daí Hollywood o ignorou por anos a fio, o que o levou a tentar a sorte na Europa. Participou de produções de vários países, mas o único filme do período que não merece ser esquecido é “O Amigo Americano” (1977), de Wim Wenders.

Sua carreira só voltou aos trilhos após “Apocalypse Now” (1979), obra-prima de Francis Ford Coppola, em que faz um fotógrafo drogado, outro papel que lhe calhou bem. Coincidentemente, foi quando resolveu pedir ajuda contra as drogas e internar-se para desintoxicação. Depois vieram as elogiadas atuações em “O Selvagem da Motocicleta” (1983) e “Veludo Azul” (1986), além de dois novos trabalhos de direção, “Anos de Rebeldia” (1980) e “Cores da Violência” (1988).

“O Selvagem da Motocicleta”, também de Coppola, recicla os filmes de gangues de jovens dos anos 1950, com altas doses de estilização, trocando a inocência de outrora por drogas e orgia. É a história de um jovem que idolatra o irmão mais velho, motoqueiro transformado em figura mítica. Mais uma vez escalado apropriadamente, Hopper é o pai alcoólico de ambos.

“Veludo Azul”, obra-prima de David Lynch, trata das perversões que se escondem sob a fachada da vida dita normal. Frank Booth, a personagem que Hopper interpreta, é a sua cara, conforme ele mesmo disse ao diretor, assim que leu o roteiro: “David, você tem de me deixar interpretar Frank, porque eu sou Frank”. Ele entendia mesmo de perversões, pois foi o papel que mais lhe rendeu reconhecimento.

Além de ator e diretor, Hopper era também pintor e fotógrafo. Seus quadros e fotografias foram expostos em galerias dentro e fora dos Estados Unidos. Chegou a publicar um livro de fotos nos anos 1980, que incluía cliques de várias estrelas de cinema. E era ainda colecionador de arte moderna, considerado um dos mais importantes do seu país.

Mesmo não tendo conquistado o status de estrela, em 1997 ele obteve o 87º lugar no ranking das cem maiores estrelas de cinema de todos os tempos da revista britânica “Empire”. E, recentemente, ganhou uma estrela na Calçada da Fama em Hollywood.

Hopper morreu no dia 29 de maio, aos 74 anos, deixando viúva a atriz Victoria Duffy. Casou-se cinco vezes e teve quatro filhos, entre eles o ator Henry Hopper e a atriz Ruthanna Hopper. Sua filmografia conta mais de 100 títulos como ator e oito como diretor.

Para fazer-lhe um julgamento justo, talvez seja conveniente separar o homem Dennis Hopper da sua obra. Como no clássico dilema entre o cantor e a canção, no seu caso o que importa é a canção, não o cantor. Como pessoa, não resta dúvida de que era uma encrenca ambulante. Como ator, porém, tinha inegável talento para representar tipos fora da lei.

Quanto à sua vida dissoluta, ele teve tempo de sobra, corroído por um câncer desde 2002, para se penitenciar dos pecados. Que sua alma possa, finalmente, ter paz.

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