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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

Críticos discutem o o novo livro de Peter Gay

publicado em

Antonio Gonçalves Filho, Teixeira Coelho e Francisco Alembert, em textos publicados no jornal “O Estado de S. Paulo”, discutem o recente livro de Peter Gay, “Modernismo”

Peter Gay 

O modernismo segundo Peter Gay

Autor reacende debate ao defender em seu novo livro que o 'fascínio da heresia', e não a ideologia, uniu os modernistas

Antonio Gonçalves Filho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

O historiador judeu de origem alemã Peter Gay, hoje com 86 anos, tinha pouco mais de 10 quando escapou da Alemanha de Hitler, em 1933. Estabelecido nos Estados Unidos, dedicou sua vida a pesquisar a história que deixou para trás, produzindo estudos e biografias de personagens da cultura europeia, dos quais os mais célebres são um ensaio sobre o panorama artístico na República de Weimar e uma biografia de Freud. No entanto, seu mais recente livro, “Modernismo” (Companhia das Letras, tradução de Denise Bottman, 578 págs., R$ 64) dividiu os críticos, como atestam os textos do crítico e curador Teixeira Coelho e do historiador Francisco Alembert.

Acusado de eurocentrismo — por ter eleito apenas artistas, escritores, dramaturgos e músicos modernistas europeus, omitindo americanos e latinos — Gay defendeu-se antecipadamente das críticas que viria a receber escrevendo, no prefácio, que seu livro não é um estudo sobre o nascimento, crescimento e declínio do modernismo. Esta seria, segundo o historiador, tarefa impensável para um único volume —  daí a ausência de grandes romancistas como Faulkner e Saul Bellow ou pintores como Willem De Kooning e Francis Bacon.

Numa história geral, teria de acomodar todo mundo. Em sua história particular, ele buscou apenas os traços comuns aos modernistas, dissociando-se da ideologia de seus contemplados, sejam eles o Nobel de Literatura Knut Hamsun, simpatizante do fascismo, ou o dramaturgo antifeminista August Strindberg, passando pelo ultracatólico poeta T.S. Eliot e outros pilares do modernismo associados a regimes totalitários (o futurista Marinetti, por exemplo). Gay defende que o liberalismo é o princípio fundamental do modernismo e faz de sua lista uma declaração de princípios, provando que a modernidade não é a pátria da democracia. Ao contrário. É o paraíso de autocratas como Picasso, bancados pelos burgueses sobre os quais destilou seu ódio.

Embora diga que não se arriscou a oferecer uma leitura psicanalítica do modernismo, o historiador, ao falar de Kafka, vai além de Freud e transfere para a arena da psicanálise a discussão sobre a obra do escritor. Seu diagnóstico: o autor de “A Metamorfose” era um edipiano desajustado, vítima do desamparo moderno provocado pela tirania do pai - celestial ou biológico. O fato de Kafka ser judeu e de tantos outros criadores judeus terem influenciado o modernismo poderia, então, conduzir a outras interpretações igualmente polêmicas? Gay é mais cauteloso nesse terreno minado, lembrando que não existe tal coisa chamada de "gosto judeu". Judeus ricos compravam tanto os acadêmicos dos salões como Picassos e resistiram às inovações de Schoenberg quase tanto como evitavam a revolucionária arquitetura da Bauhaus.

A rebelião modernista, ainda segundo Gay, tampouco foi esquerdista, embora tenha sido uma resposta ao mundo burguês. Regimes totalitários, defende, foram sempre hostis ao modernismo, do nazista - e a exposição “Arte Degenerada”, de 1937, é prova incontestável - ao comunista. Com relação ao último, ele dá um jeito de contornar o incontornável, omitindo o nome do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Gay discorda do crítico, também marxista, Georg Lukács, que decretou 1848 o ano da morte da ideologia burguesa. Lukács disse que a burguesia francesa não mais desempenharia um papel na progressista peça da modernidade. Gay diz o contrário: a primeira qualidade dos modernos é o que chama de "fascínio pela heresia". Artistas de origem burguesa provocam outros burgueses escandalizáveis e são por eles financiados. Não haveria, segundo ele, uma única ideologia política capaz de bancar ou explicar o modernismo.

Seja como for, Gay admite o ano da publicação do “Manifesto Comunista” — 1848 —  como um marco, escalando o poeta francês Charles Baudelaire como o primeiro herói do modernismo. Alvo preferencial do ódio burguês, Baudelaire foi o herético encarregado de provocar a sociedade francesa, ao desprezar a poesia tradicional e expor suas taras sexuais em poemas profanos. O "subproduto degenerado" do modernismo, no entanto, teve ancestrais ilustres - o protomodernista Diderot, cita Gay, descartando a localização histórica do modernismo, que, segundo o mesmo, não acabou. Para provocar, ele diz que não sabe o que é pós-modernismo e conclui o livro chamando de "moderno" o "herético" arquiteto Frank Gehry. O que Bilbao pode fazer pelo modernismo? Nem Gay sabe. Diz que é historiador, não profeta —  mas não hesita em culpar Duchamp por ter destruído a ideia de modernismo, ao afirmar que tudo pode ser arte, sonho que a arte pop, segundo ele, converteu em realidade.

Para Gay, o declínio do modernismo começou quando o público aceitou a provocação dos artistas pop —  Warhol, em particular, por ter eleito tantos ícones do consumo como arte. Até então, a arte exigia uma sensibilidade mais "educada" (ou elitista), argumenta. Após Andy Warhol, vale tudo.


Entre erros, equívocos e omissões

Definição empregada na obra esbarra na fragilidade de teses que a justificam


Teixeira Coelho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

Certos livros levam o leitor a fazer uma pergunta cruel: por que foram escritos? Este é um deles. A pergunta nem sempre tem a resposta óbvia que parece sugerir; neste caso, tem.

Peter Gay nasceu em Berlim em 1923, numa família judaica; em 1939 saiu da Alemanha, e chegou aos EUA em 1941, onde mudou seu sobrenome Frohlich para o equivalente inglês "gay", alegre. Historiador das ideias, recebeu prêmios e reconhecimento intelectual em 1968 com um livro sobre a cultura de Weimar. Com o tempo, passou a interessar-se por Freud e a psicanálise, praticando o que alguns chamam de psicohistória. Seu nome não convoca opiniões unânimes nos EUA, onde é visto como quem quer se apresentar como "dono de Freud" além de autor de quase um livro por ano sobre temas tão distintos como o socialismo democrático, Voltaire, Freud, o ódio, Mozart e Schnitzler. Essa não unanimidade pode ter seu lado positivo. Mas, muitos acadêmicos americanos, defensores de um conhecimento na vertical, apontam em vários de seus livros uma quantidade anormal de ideias rasas e feitas.

É um pouco o que acontece neste caso. Dando como período de vida para o Modernismo o arco que vai de 1840 a 1960, Peter Gay discorre, em quase 600 páginas, sobre a vida moderna, os artistas de vanguarda, a poesia e a prosa, a música e a dança, arquitetura e design, teatro e cinema, os bárbaros e os excêntricos e Frank Gehry. É muita coisa para 600 páginas e grande demais o risco de deixar insatisfeitos a todos e cada um. Ele estava consciente do risco e mesmo assim o assumiu.

Peter Gay não aceita que existam distintos modernismos. Prefere dizer que o Modernismo é um só e que corresponde a uma "única época histórica", aquela da consolidação da cultura ocidental. E busca explicá-lo por meio de duas outras teses: o fascínio pela heresia, que leva ao confronto com as sensibilidades convencionais (o velho épater le bourgeois); e o princípio do "exame cerrado de si mesmo", ou questiona-te a ti mesmo (mais do que o conhece-te a ti mesmo) ou, ainda, como difundido por Anthony Giddens (que ele não cita), a reflexividade — que deu, exatamente, a modernidade reflexiva. Ao final do livro, numa nota de rodapé em que procura refutar a T.J.Clark, aparece sua quarta tese, implícita desde o começo: o modernismo não acabou.

Essas quatro teses, variadamente combinadas, devem poder explicar tudo que aconteceu no período: um poema de Rimbaud, uma composição de Satie, uma peça de Beckett, um quadro ("qualquer quadro", ele diz) de Picasso e Freud "com sua barba bem aparada".

Das quatro, a mais débil é a primeira. Velha, simplista e exagerada demais (os artistas podem exagerar uma ideia, dizia Gide; os historiadores das ideias deveriam contê-las). Dizer que os artistas e intelectuais do período eram contra o burguês e procuravam chocá-lo como modo de afirmar-se cultural e socialmente ("o fascínio da heresia") é dizer uma verdade surrada que não dá conta da realidade. E que por vezes é meia verdade, dadas as boas relações mercantis (pelo menos, monetárias) entre artistas e intelectuais (como o próprio Freud) e sua clientela de fornidas carteiras que sempre se abriram com abundância ao toque correto do contestador de vanguarda. Os artistas e intelectuais modernos foram em sua maioria, isso sim, contra a modernidade e quase tudo que ela continha e representava: as velhas ideias, o capitalismo, a arte anterior, a política, a organização social, o bom-mocismo, o materialismo, a própria vida urbana (do flâneur, das passagens e galerias de Paris) que no entanto ao mesmo tempo tanta fascinação sobre eles exerceu. Foram contra tudo, não só contra o burguês. A questão é, apenas, saber quem foi o que e quando, quem foi contra quem ou o que, quando. O surrealismo foi contra o capitalismo mas depois uma parte dele virou contra o comunismo. Baudelaire foi contra o burguês mas depois foi a favor do modo de vida burguês. Colocar tudo no mesmo saco - e no caso de Gay é tudo mesmo —  é um problema. Para fazer-lhe justiça, ao longo do livro ele faz correções a essa máxima sem no entanto reconhecer explicitamente que os modernos foram contra a modernidade, a não ser talvez numa breve passagem à página 384. Admite de modo expresso, apenas, o que é um pouco diferente, que algum modernos foram contra os modernos, como T.S.Eliot. Mas por que não adotar desde o início uma outra perspectiva e falar exatamente do que ele nega: dos modernismos, que são vários e nunca um só, formando não bem uma época mas um conjunto de épocas paralelas que dificilmente se comunicaram? Talvez porque, adepto do Iluminismo, Gay pense sempre por totalidades totalizantes. Ele diz que reconhece a diversidade na unidade - mas reafirma a unidade sobre a diversidade, quando deveria ser o contrário.

Ao lado disso, as impropriedades se acumulam. Dizer que Robbe-Grillet é um moderno é estranho e impróprio. Estranho porque páginas antes Gay afirma que o romance moderno se tornou o romance da consciência, como manifestação do principio da reflexividade. Impróprio porque, se há alguma coisa que Robbe-Grillet não faz é exame de consciência, psicologismo, psicanálise... O nouveau roman era exatamente contra isso, como ficou claro (ou obscuro?) em “Ano Passado em Marienbad”, de Resnais, com roteiro de Robbe-Grillet. E Beckett não cabe na mesma gaveta de Proust. E não se pode mencionar em meia linha a Godard e Truffaut e não explicar se são modernos ou...pós-modernos, expressão que aparece talvez uma única vez no livro.

Os motivos de insatisfação crescem: da América Latina, menciona García Márquez, que não é nem a ponta do iceberg, e nada diz de Borges ou Cortázar. Brasília, Niemeyer e Lúcio Costa não existem. Talvez porque ache que a America Latina nunca foi moderna. É uma tese. Talvez porque a América Latina, como classificava Samuel Huntington, não faça parte do ocidente —  e Gay é um historiador da cultura ocidental... Esse tipo de omissão e ignorância cansa. Não por nacionalismo: só porque Borges foi muito maior que Márquez e inúmeros outros americanos e europeus que ele cita.

Em suma, a tese da heresia é cobertor curto, a tese da reflexividade ele não sabe o que é (ou então nunca leu de fato Robbe-Grillet) e a ideia de que o modernismo continua é uma furada. O fecho do livro é sintomático. Ali ele fala de Frank Gehry e do Guggenheim-Bilbao. E tudo que encontra para dizer do arquiteto é que é anticonvencional e expressionista, muito pouco para quem é, abertamente, um dos grandes pós-modernos.

E volta a pergunta: para que este livro, espécie de “Reader's Digest” do modernismo? Nem para quem se inicia, nem para quem é iniciado. Acima de tudo, não para o leitor do século 21. Sempre se tira alguma coisa de um livro mas, desse, pouco. Livros devem ser como no jogo do bridge: se quem propõe um jogo não o faz, perde. Há ausências estridentes (o jazz), erros (quem mostra bichos em banho de formol não é um grupo de artistas, mas um só, Damien Hirst) e demasiada generalização. Pessoalmente, mesmo sem concordar sempre com ele, prefiro Hobsbawn: mais sintético e inspirado.


Sem medo, análise assume revisão subjetiva

Grande mérito do trabalho é ser símbolo da coerência intelectual do pesquisador, espécie de síntese de toda a sua produção

Francisco Alembert
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


Não é difícil elogiar o novo livro de Peter Gay. É mais fácil atacá-lo. O projeto de resumir e caracterizar o "modernismo" é simultaneamente ocioso (para muitos pós-modernos), frágil (para os megaespecialistas) e comercial (para os apressados).

O maior mérito do livro é não temer nada disso, além de valer também como uma síntese da obra do autor da conhecidíssima biografia de Freud, um dos mais importantes historiadores da cultura contemporânea. Isto porque boa parte das teses deste livro se relacionam com outras obras, como “Guerras do Prazer”, último trabalho de sua pesquisa publicada em cinco volumes —  “A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud”. Lá, como aqui, parte-se da ideia de que a burguesia vitoriana teria aberto o caminho para as experiências da vanguarda modernista, formada sobretudo por burgueses em crise com sua própria classe e, por isso mesmo, marcada por uma certa "burguesofobia". Assim, "modernismo" é um processo de autoquestionamento e crise contra a cultura estabelecida, em busca da renovação de si.

O ponto de vista é radicalmente subjetivista, rousseauniano e freudiano (ele é tão freudiano que chega a afirmar que Marinetti e Breton foram "os Freud de seus clãs"): o "fascínio da heresia" é resultado de "um exame cuidadoso de si mesmo". Gay compartilha essa visão otimista e positiva da subjetividade livre e contraditória do modernismo com boa parte da vertente crítica norte-americana (como, por exemplo, o historiador marxista Marshall Berman).

Por isso ele privilegia o expressionismo (assunto de outro livro clássico seu, sobre a cultura de Weimar) e seu subjetivismo radical ao racionalismo utópico da abstração construtiva —  e por isso também ele verá na arquitetura de Frank Gehry uma espécie de renascimento do expressionismo fantasista.

O impulso subjetivo, iconoclasta e autoexpressivo dos modernistas tem razão histórica: ele começa com o horror, o ódio de "família" (pois o modernismo aqui é tratado como uma família conflituosa) de Baudelaire e Flaubert à classe média (assunto também explorado no livro “O Século de Schnitzler”) e termina com a pop art e sua irônica e já bem posta apologia à cultura de massas. O obra é uma cartografia, um mapa, do surto herético-cultural, e de suas contradições, nos últimos 150 anos.

Isso é discutível? Não há dúvida (aliás, o que neste campo não é?). Mas essa visão permite a Gay ver coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista.

"É muito mais fácil exemplificar do que definir o modernismo." Esta é a primeira frase do estudo e é exemplar de seus impasses. Primeiro, por ser honesta. Segundo, por definir o livro-compêndio: ele exemplifica e, via Freud, tenta caracterizar o modernismo como um impulso (ou uma pulsão) da (anti)cultura, que forma um "estilo" (assunto este que o historiador explorou em um livro mais teórico, “O Estilo na História”). Pelo esquema de Gay, o pós-modernismo não é um conceito sério. Para ele, Damien Hirst ou Frank Gehry são modernistas (o que é muito questionável).

Esse "estilo" configura a pulsão da revolta. Por isso, ele pode resumir com precisão que "o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores da alta cultura". "Deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar —  ou, mais radicalmente, de derrubar —  os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução."

Estou de acordo (a não ser pela ideia de libertar os "consumidores da alta cultura", pois me parece que a força do modernismo foi justamente acabar com a ideia da "alta cultura" em favor da cultura da revolução). Embora destaque bastante a importância de Marx para o "clima modernista", ele acha que seu favorecimento maior veio de Nietzsche. Creio que isto acontece porque para nosso historiador o modernismo é uma criação da "classe média esclarecida".

Peter Gay é eurocêntrico. Não tem a menor ideia da importância do modernismo na periferia. Isso só lhe aparece no final, quando irá tratar, com fascínio, da obra de Gabriel García Márquez e seu "realismo original": um Kafka na periferia do capitalismo (uma definição que Gay rejeitaria). Mas esse difícil reconhecimento do modernismo periférico é um "defeito" da maioria dos pensadores do centro da "civilização ocidental", o que aliás apenas demonstra o quanto a derrota do cosmopolitismo modernista é grave. Na também monumental obra “Art Since 1900”, os únicos artistas brasileiros citados são Hélio Oiticica e Lygia Clark, que aparecem apenas na sessão "arte não ocidental". Pelo menos o modernismo, mesmo que tardio, ensinou a Peter Gay que os latino-americanos são parte do mundo que a modernidade criou. 


Antonio Gonçalves Filho é jornalista, repórter do "Estadão".
Teixeira Coelho é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Francisco Alambert é professor de História Social da Arte e História Contemporânea da USP.

 

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