revista bula
POR EM 02/03/2009 ÀS 08:06 PM

Correspondência de Flaubert

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Lendo algumas dessas cartas, é possível perceber que esses mitos flaubertianos fazem sentido. O que não se costuma dizer por aí é o quanto alguns deles têm de ridículo. Não de forma pejorativa, estúpida, mas cômica. Flaubert era sim um grande chorão, um homem mimado, resmungão, voltado apenas para si

A imagem artística que legamos de Flaubert, como se sabe, provém basicamente de sua correspondência. Estabeleceu-se ali a persona do esteta torturado, que passava madrugadas inteiras em busca de uma única frase – ou mesmo uma palavra, "le mot juste". Lamentava, após seis semanas de trabalho, ter escrito menos de dez páginas, de modo que a feitura de seus romances perdurava por anos. Ao escrever para os amigos, Flaubert fazia questão de ressaltar a importância da carpintaria estilística. "O estilo é a manifestação de uma dor mais profunda", escreveu ele à sua amada Louise Colet em 1853, período em que se debruçava sobre “Madame Bovary”. "Sem o amor da forma", afirma em outra ocasião, "talvez eu me tornasse um grande místico". Isolado em um pequeno vilarejo da Normandia, o francês trabalhava como louco por sua obra; via na solidão a única maneira de triunfar, de alcançar a Grande Arte. Nesse sentido, não havia o que ganhar com uma vida social ativa.

Lendo algumas dessas cartas, é possível perceber que esses mitos flaubertianos fazem sentido. O que não se costuma dizer por aí é o quanto alguns deles têm de ridículo. Não de forma pejorativa, estúpida, mas cômica. Flaubert era sim um grande chorão, um homem mimado, resmungão, voltado apenas para si. Reclama a todos os amigos da dificuldade de escrever, do quanto aquilo o consome, da raiva que lhe dá ter que ir até o fim de um romance. Há momentos em que desdenha a publicação, diz que só o faria "por imitação, por obediência, e sem qualquer iniciativa de minha parte". Outra vez, brada a Louise Colet: "Você acredita que eu amo muito o estudo e a arte porque me ocupo deles. Se eu me sondasse bem, talvez eu não descobrisse nisso nada além do hábito". Os rompantes de ódio e desprezo contra a arte contrapõem-se, às vezes em uma mesma missiva, a declarações apaixonadas a essa musa combatida. Dedica-se à arte para evitar a vida: "o único modo de suportar a existência é precipitar-se na literatura como em uma orgia perpétua" (essa frase deu título àquele belo ensaio de Mario Vargas Llosa).

O fato é que Flaubert parece um bocado ressentido com a absoluta ausência de traquejo social, embora se orgulhe da misantropia. Faz sentido? Ora, e deveria? É evidente que vivia para seus livros; parece apenas desejar menos sofrimento, mais inspiração – coisa em que proclamava não acreditar. Se a inspiração existe, é incompatível com a perfeição estilística buscada por Flaubert, portanto seu gênio sempre esteve no esforço – daí a importância de ler suas cartas. De resto, é sempre um prazer deparar com os pensamentos pertinentes sobre seu ganha-pão. Por exemplo:

"O autor, em sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda parte, e visível em parte nenhuma. A Arte sendo uma segunda natureza, o criador dessa natureza deve agir com o procedimento análogo. Que se sinta em todos os átomos, em todos os aspectos, uma impassibilidade escondida e infinita. O efeito, para o espectador, deve ser uma espécie de assombro. Como tudo isso foi feito? é o que se deve dizer, e sentir-se esmagado sem saber por quê. A arte grega residia nesse princípio e para chegar a ele mais rápido, escolhia seus personagens em condições sociais excepcionais, reis, deuses, semideuses. Não fazia com que você viesse a se interessar por você mesmo; o divino era o fim".

"Um bom assunto para romance é o que vem como uma peça inteira, de um só jato. É uma ideia-mãe de onde todas as outras decorrem. Não se é livre para escrever esta ou aquela coisa. Não se escolhe seu tema. Eis o que o público e os críticos não compreendem. O segredo das obras-primas está aí, na concordância entre o assunto e o temperamento do autor".

Texto publicado originalmente no blog: gymnopedies.blogspot.com 

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