revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 10:19 PM

Você é escritor? Eu também!

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Em resumo, todo mundo tem uma história e todo mundo quer contá-la. Menos pessoas podem estar lendo, mas pra todo lado que se olha, tem alguém publicando algo  
 

O artigo abaixo saiu na edição do The New York Times Book Review de 27 de abril de 2008. O título original é “You´re an author? Me too!”.   Há poucas e pequenas observações minhas [entre colchetes] no meio da tradução. Agradeço correções significativas.  (Flávio Paranhos)   

Rachel Donadio
(escritora e editora do
NYT Books Review)

Já está bem estabelecido que os americanos estão lendo menos do que liam. Um relatório recente do National Endowment for the Arts (NEA) reportou que 53% dos americanos não leram nenhum livro no ano passado – um dado que deixou alertas todos aqueles que têm afeição por (ou interesse comercial em) livros. Mas mesmo que mais pessoas escolham a fantasmagoria das telas no lugar dos prazeres contemplativos das páginas, há um fenômeno paralelo espalhado pelo país: a grafomania coletiva.

Em 2007, a impressionante quantidade de 400.000 livros foi publicada nos EUA, cem mil a mais do que em 2006, de acordo com o rastreador dessa indústria, Bowker, que atribui o significativo aumento ao número de livros impressos “por demanda” e reimpressões de títulos esgotados. Cursos universitários de escrita criativa estão prosperando, assim como conferências de escritores, oferecendo aos autores aspirantes uma chance de discutir seu trabalho. O rastreador de blog Technorati estima que 175.000 novos blogs são criados a cada dia no mundo (com alguns poucos blogueiros sortudos conseguindo contratos para publicar seus livros). E o relatório do NEA encontrou que 7% dos adultos pesquisados – 15 milhões de pessoas – faziam algum tipo de escrita criativa para “engrandecimento pessoal”.
           
Em resumo, todo mundo tem uma história e todo mundo quer contá-la. Menos pessoas podem estar lendo, mas pra todo lado que se olha, tem algum americano publicando algo.
           
“Como publicar tem se tornado menos caro, o desejo de escrever tem se materializado na oportunidade de publicar”, disse Gabriel Zaid, um crítico mexicano e autor de “So many books: Reading and publishing in na age of abundance”, uma reflexão sobre a vida literária num mundo cheio de livros. Hoje, acrescenta ele, “todo mundo pode se dar o luxo de pregar no deserto”.
           
Aqui no NYT Book Review, dúzias de livros com edição do próprio autor nos chegam a cada semana – poesia, coleções, livros infantis, memórias, manuais de auto-ajuda, títulos religiosos. “The Chronicles of a Hip Hop Legend: Paths of Grand Wizardry” é um dos que recebemos recentemente, assim como uma monografia técnica sobre a morte de Napoleão, completa com quadros sobre o possível envenenamento por arsênico; um guia ilustrado religioso, “Hell: For Those Dying to Get There”; e “Disney Your Way”, que sugere itinerários para passear pela Disney. Há memórias de sobreviventes do Holocausto, pessoas lutando contra distúrbios alimentares e novelas como “September Sun”, na qual “persuadido pelo poder afrodisíaco do sexo, Michael aprende amargamente que a Lei de Murphy sempre vigora”.
           
E os números sugerem que virão por aí mais livros. IUniverse, uma companhia que publica edições custeadas pelo autor, fundada em 1999, cresceu 30% ao ano nos últimos anos. Produz atualmente 500 títulos por mês e tem 36.000 títulos em seu catálogo [PQP!!!], informa a vice-presidente da Authors Solutions (que comprou a iUniverse), Susan Driscoll. Enquanto alguns são meros livros de distribuição em palestras, a maioria são de cidadãos comuns que querem ver seu trabalho impresso. Tais pessoas costumam pertencer a ambos os extremos dos limites de idade. “À medida que envelhecem, essas pessoas têm mais tempo e dinheiro e algo a dizer”, diz Driscoll, enquanto seus netos são impulsionados pela “necessidade de fama”. “Podem não ser ávidos leitores, mas certamente são ávidos escritores”, ela completa. Não que alguém esteja prestando atenção. Driscoll informa que a maioria dos autores que usa a iUniverse vende menos do que 200 livros.
           
Outras companhias que publicam livros independents relatam crescimento semelhante. Xlibris, que imprime por demanda, tem 20.000 títulos, por mais de 18.000 autores [PQP!!!], diz Noel Flowers, porta-voz da companhia. Ela é “não-seletiva” ao escolher os manuscritos, embora faça uma filtragem para “conteúdo ofensivo ou inapropriado”. Os mais vendidos da Xlibris incluem “Demonstrating to Win!”, um manual de computação (15.600 cópias vendidas, não incluídas as compradas pelo próprio autor) e “The Morning Comes and Also the Night”, listado na categoria “religião/Bíblia/profecias” (10.500 cópias vendidas).
           
De maneira geral, as grandes livrarias não gostam muito de ter em seus catálogos livros independentes. Mas estão de olho nesse mercado. iUniverse tem uma “aliança estratégica” com a Barnes & Noble, que de vez em quando considera estocar títulos independentes para algumas filiais, informa Driscoll. A Amazon.com tem o BookSurge, uma operação de impressão por demanda, que produz e distribui livros por tão pouco quanto U$3,50 por cópia.

A [rede de livrarias] Borders recentemente abriu um programa de impressão por demanda, a companhia Lulu. Autores aspirantes podem pagar 299 dólares pela formatação, impressão e um código ISBN, podem optar pelo pacote “Premium”, pelo qual um editor avaliará a estrutura, esquema e documentação, além de gramática básica, pontuação e grafia. O site da Borders informa que autores independentes podem até ter leituras de suas obras em filiais de suas lojas, mas o principal ainda não é possível. “Não é possível comprar um espaço nas estantes mesmo hoje”, diz um porta-voz da Borders.

A lista do programa de livros independentes da Borders encontra-se sob a rubrica “Borders Lifestyles”, como se escrever fosse um hobby, como golfe, em vez de um dom ou habilidade. Mas para aqueles à procura de um treinamento formal, há centenas de programas de escrita criativa, oferecendo o título de Master of Fine Arts (M.F.A.) ou outras credenciais. A Association of Writers and Writing Programs representava 13 programas quando foi fundada em 1967. Agora inclui 465 cursos completos, e aulas de escrita criativa são oferecidas na maioria dos 2.400 Departamentos de Inglês das universidades americanas.

Desde os anos 60 os programas de escrita criativa têm ajudado a “democratizar” o pool de talentos, promovendo “o encorajamento de mulheres e várias pessoas de diferentes classes sociais e raças a contar suas histórias e escrever seus poemas”, diz David Fenza, o diretor executivo da organização. Ele discorda daqueles que pensam que uma super-oferta de livros esteja afastando os leitores. “Alguns têm dito que toda essa nova atividade literária está substituindo as grandes obras e portanto afastando seus potenciais leitores”, diz Fenza. “Programas de escrita criativa têm suas falhas, mas eles ainda funcionam como advogados da leitura”.

Mark McGurl, um professor associado de inglês na Universidade da Califórnia em Los Angeles e autor de um livro a ser publicado em breve sobre o impacto dos programas de escrita criativa na literatura americana pós-guerra, concorda que tais programas têm ajudado a expandir o universo literário. “A literatura americana nunca foi tão profunda e forte quanto agora”, diz McGurl. Apesar disso, ele acrescenta, “pode-se colocar a questão de forma mais pessimista: dadas as muitas distrações da vida moderna, temos agora mais grandes escritores trabalhando nos EUA do que temos a inclinação ou tempo para lê-los.”

Companhias de livros independentes podem até produzir livros por menos de cinco dólares, mas quanto toda essa produção custa aos leitores? Em “So Many Books” Zaid escreve que “se um livro custa dez dólares e leva duas horas pra ser lido, para um trabalhador com salário mínimo o tempo gasto custa tanto quanto o livro”. Mas para alguém que recebe entre 50 e 500 dólares por hora, “o custo de comprar e ler um livro fica entre 100 e 1000 dólares”, isso sem contar o tempo gasto em achar o livro. [Raciocínio idiota, sinto cheiro de enxofre Stanley-fishiano aqui]

No fim das contas, entretanto, Zaid não está preocupado com a proliferação dos livros, embora ele não pense que todos deveriam se arriscar a escrever. “Sobre escritores aspirantes, André Gide costumava dizer: ‘Découragez! Découragez!’” (desencoragem-se!), lembra Zaid. “A implicação disso é que os escritores com real vocação não seriam desencorajados, e os outros poupariam seu tempo. Claro, alguns medíocres nunca ficam desencorajados, e alguns escritores em potencial seriam perdidos. Mas há tanto talento por aí que podemos nos dar o luxo de perder alguns”.

Certamente. Há muito barulho por aí. E, no meio disso, alguma música.   


 
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