revista bula
POR EM 02/11/2008 ÀS 10:37 PM

Horácio Quiroga: A almofada de penas

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Perdeu logo a noção das coisas. Nos dias finais delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama
 

Sua lua-de-mel foi um longo calafrio. Loira, angelical e tímida, o estilo duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, embora às vezes sentisse um ligeiro estremecimento quando, voltando de noite juntos pela rua, lançava um olhar furtivo ao alto Jordão, mudo já fazia uma hora. Ele, de sua parte, amava-a profundamente, sem deixá-la saber.
   
Durante três meses – haviam-se casado em abril -, viveram uma felicidade especial. Sem dúvida ela havia desejado menos severidade nesse rígido céu de amor; mais expansiva e incauta ternura; porém o impassível semblante de seu marido a continha sempre.
  
A casa que habitavam influía um pouco em seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso – frisos, colunas e estátuas de mármore – produzia uma outonal impressão de palácio encantado.

Dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve risco nas altas paredes, reforçava aquela sensação de frio desagradável. Ao cruzar de um cômodo a outro, os passos ecoavam em toda a casa, como se um longo abandono houvesse sensibilizado sua ressonância.

Nesse singular ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Tinha escolhido, porém, por jogar um véu sobre seus antigos sonhos, e ainda estava dormindo na casa hostil sem querer pensar em nada até que chegava seu marido.
  
Não é raro que emagrecesse. Teve um ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dia após dia;  Alicia não se recuperava nunca. Ao fim de uma tarde, conseguiu sair ao jardim apoiada ao braço do marido. Olhava indiferente a um e outro lado. De repente Jordão, com funda ternura, passou-lhe muito lentamente a mão pela cabeça, e Alicia rompeu em seguida em soluços, e o abraçou. Chorou longamente, todo seu espanto calado, redobrando o pranto à mais leve carícia de Jordão. Logo os soluços foram se acalmando, mas ainda ficou escondida no seu ombro, sem mover-se nem pronunciar uma palavra.

Foi esse o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão examinou-a com profunda atenção, ordenando-lhe calma e descanso absolutos.

    - Não sei – disse a Jordão na porta da rua. – Tem uma grande debilidade que não sei explicar. E sem vômitos, sem nada... Se amanhã acordar como hoje, me chame em seguida.

No dia seguinte, Alicia amanheceu pior. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não sofreu mais desmaios, porém ia visivelmente andando para a morte. Todo o dia o quarto ficou com as luzes acesas e em pleno silêncio. Passavam-se as horas sem que se ouvisse o menor ruído.  Alicia cochilava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com a luz acesa. Andava sem parar de um extremo a outro, com incansável obstinação. O tapete afogava o ruído de seus passos. De vez em quando entrava no quarto e prosseguia seu mudo vaivém ao longo da cama, detendo-se um momento em cada extremo para olhar sua mulher.

De repente, Alicia começou a ter alucinações, confusas e flutuantes a princípio, e que desceram depois até o chão. A jovem, com os olhos muito abertos, nada fazia senão olhar o tapete de um a outro lado da cama. Uma noite ficou com os olhos muito fixos. Um instante abriu a boca para gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.

    - Jordão! Jordão! – exclamou, rígida de espanto, sem deixar de olhar o tapete.

Jordão correu para o quarto e, ao vê-lo aparecer, Alicia lançou um brado de horror.

    - Sou  eu, Alicia, sou eu.

Alicia o contemplou com o olhar extraviado, olhou o tapete, voltou a olhá-lo, e depois de um longo tempo de estupefata confrontação, voltou a si. Sorriu e tomou entre as suas a mão de seu marido, acariciando-a por meia hora, tremendo.

Entre suas alucinações mais teimosas, houve um antropóide apoiado no tapete sobre os dedos, que tinha fixado nela os olhos.

Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali diante deles uma vida que se acabava, esvaindo-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente o porquê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles lhe tomavam o pulso, passando um a outro a munheca inerte. Observaram-na um longo tempo em silêncio e foram para a sala.

     - Pst ... – encolheu-se de ombros desalentado o médico da cabeceira. – É um caso inexplicável... Pouco há para se fazer...

    - Só isso que me faltava! – resmungou Jordão, tamborilando bruscamente sobre a mesa.

Alicia foi se extinguindo no delírio da anemia, agravado de tarde, porém atenuado ao amanhecer.

Durante o dia sua enfermidade não avançava, porém a cada manhã amanhecia mais lívida, quase em síncope. Parecia que somente de noite a vida se lhe fugia em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de estar caída na cama com um milhão de quilos por cima. Desde o terceiro dia essa sensação de desmoronamento não a abandonou mais. Mal podia mover a cabeça. Não quis que tocassem na sua cama, nem que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançavam agora em forma de monstros que se arrastavam até a cama, e subiam com dificuldade pela colcha.

Perdeu logo a noção das coisas. Nos dias finais delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o surdo rumor dos eternos passos de Jordão.

Alicia morreu, finalmente. A empregada,  quando entrou depois para desfazer a cama, vazia já, olhou por um momento com estranheza para a almofada.

    - Senhor! – chamou Jordão com voz baixa. – Na almofada há manchas que parecem de sangue.

Jordão se aproximou rapidamente e curvou-se sobre a almofada. Efetivamente, sobre a fronha, em ambos os lados do côncavo que havia deixado a cabeça da Alicia, viam-se manchinhas escuras.

    - Parecem picadas – murmurou a empregada, depois de um tempo de imóvel observação.

    - Levante-a à luz – disse-lhe Jordão.

A empregada a ergueu; porém em seguida a deixou cair, e ficou observando-a, pálido e tremendo. Sem saber por quê, Jordão sentiu que os pêlos se lhe eriçavam.

    - Que aconteceu? – perguntou com a voz áspera.

    - Pesa muito – articulou a empregada, sem deixar de tremer.

Jordão levantou-a; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. A plumas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com toda a boca aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas aveludadas, havia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado, que mal aparecia sua boca.

Noite após noite, desde que Alicia havia caído de cama, ele havia aplicado sigilosamente sua boca – sua tromba, melhor dito – às têmporas dela, chupando-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento; porém desde que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, o monstro tinha esvaziado Alicia.

Estes parasitas de aves, pequenos em seu habitat, chegam a adquirir em certas condições proporções enormes. O sangue humano parece ser-lhes particularmente favorável, e não é raro encontrá-los em almofadas de penas.     


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