revista bula
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:42 PM

Horácio Quiroga

publicado em

Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja

Prezado Leitor:

A partir deste momento começaremos uma viagem ao âmbito do conto. Especificamente do conto latino-americano. Iniciaremos pelo conto praticado no fim do continente, na Argentina, onde tudo começa, e terminaremos no conto mexicano, dando uma rápida olhada ao conto norte-americano.

Nosso propósito não é formar escritores. Disso já se ocupam as oficinas literárias, embora no Brasil elas sejam bem poucas. Mas tentaremos dar uma visão crítica e abrangente do conto praticado nos vários países que compõem a América Latina, abrindo espaço para alguns contistas norte-americanos, para que o leitor se situe no espaço e no tempo dessa narrativa que é tão difícil, uma curva entre o poema e o romance, de complicada e exigente feitura, pois é o gênero narrativo mais exigente: nada nele sobra, se perde, tudo se contém, como numa esfera, numa feliz definição de Júlio Cortazar.

Não daremos ênfase ao conto brasileiro, não por preconceito, desse já se ocupam os professores de ensino médio. Tentaremos abordar (e dele nutrir o leitor sedento) o conto praticado nos outros países, sempre que possível trazendo à luz um conto e algo teórico sobre o mesmo.

Nesse primeiro número, escolhemos o autor de origem uruguaia Horácio Quiroga. Selecionamos o conto À deriva, pela contundência e imediatamente anexamos seu famoso Decálogo do perfeito contista, como crítica anexa. Acreditamos capazes de oferecer uma visão priasmática da literatura curta praticada em nosso continente. Se puderem, imprimam e guardem os números das revistas. Acreditamos que lhes serão de grande valia no futuro.

Boa viagem!
 

À Deriva
Horácio Quiroga


Tradução: Jádson Barros Neves 
 
           
O homem pisou algo brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro ataque.
           
O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras.
           
O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até seu rancho.
           
A dor no pé aumentava, e de repente, o homem sentiu dois ou três fulgurantes pontadas que como relâmpagos haviam-se irradiado da ferida, até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade; uma sede metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, arrancou-lhe outro palavrão.
           
Chegou finalmente ao rancho, e abraçou a roda do moinho. O dois pontinhos violeta desapareciam agora na monstruosa inchação do pé inteiro. Parecia-lhe enfraquecida, e a ponto de ceder, de tão tensa. O homem quis chamar sua mulher, mas sua voz se quebrou num grunhido rouco de garganta ressecada. A sede o devorava.
           
__ Dorotea! – conseguiu lançar um grito. – Me dá cachaça!
           
Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem sorveu de três tragos. Porém não havia sentido gosto algum.
           
 __ Te pedi cachaça, não água! – rugiu de novo. – Quero cachaça!     
__ Mas é cachaça, Paulino! – protestou a mulher, espantada.  
__ Não, me deste água! Quero cachaça, te digo!
           
A mulher correu outra vez, voltando com o garrafão. O homem bebeu um atrás do outro três copos, porém não sentiu nada na garganta.
           
__ Bom, isto está feio... – murmurou então, olhando seu pé lívido e já com um brilho gangrenoso. Sobre a intensa atadura do lenço, a carne transbordava como uma pavorosa morcela.
           
As dores fulgurantes sucediam-se em relâmpagos contínuos, e chegavam agora à virilha. Além disso, a atroz sequidão da garganta que o esforço parecia esquentar mais, aumentava. Quando pretendia encorpar-se, um fulminante vômito manteve-o meio minuto com a testa apoiada na roda de madeira.
           
Mas o homem não queria morrer, e descendo à costa, subiu em sua canoa. Sentou-se na popa e começou a remar até o centro do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre por seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
           
O homem, com fatigada energia, pode efetivamente chegar até o meio do rio; no entanto, ali suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa, e por causa de um novo vômito – de sangue esta vez -, dirigiu um olhar ao sol que transpunha a montanha.
           
A perna inteira, até metade da coxa, era já um pedaço disforme e duríssimo que rompia a roupa. O homem cortou a ligadura e abriu a calça com a faca: a parte inferior desbordou inchada, com grandes manchas lívidas e terrivelmente dolorosas. O homem pensou que não poderia jamais chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, embora fizesse muito tempo estivessem intrigados um com o outro.

A correnteza do rio precipitava-se agora para a costa brasileira, e o homem pode facilmente atracar. Arrastou-se pela picada costa acima, porém a vinte metros, exausto, ficou estendido de costas.

__
Alves! – gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
__
Compadre Alves! Não me negue este favor! – clamou de novo, levantando a cabeça do solo.

No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.

O Paraná corre ali no fundo de uma imensa depressão, cujas paredes, com altura para lá de cem metros, estreitam funebremente o rio. Desde as margens cercadas de negros blocos de basalto eleva-se o bosque, negro também. Adiante, às costas, sempre a eterna muralha lúgrube, em cujo fundo o rio afunilado se precipita em incessantes erupções de água lodosa. A paisagem é agressiva, contudo, sua beleza sombria e calma cobra uma majestade única.

O sol havia já havia caído, quando o homem, estendido no fundo da canoa, teve um violento calafrio. E, de repente, com assombro, pôs na vertical pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. Somente a perna lhe doía, a sede apagava-se, e seu peito, livre já, abria-se em lenta inspiração.

O veneno começar a ir-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem, e embora não tivesse forças para mover a mão, contava com a vinda do orvalho para repor-se todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.

O bem-estar progredia e, com ele, uma letargia cheia de recordações. Não sentia mais nada na perna nem no ventre. Viveria ainda seu compadre Gaona em Tacurú-Pucú? Por acaso veria também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado de obras?

Chegaria repentinamente? O céu, a poente, abria-se agora num resplendor de sangue, e o rio se havia avermelhado também. Da costa paraguaia, já em trevas, a montanha deixava cair sobre o rio sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou o céu muito alto e em silêncio até o Paraguai.

Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando de tempos em tempos sobre si mesma, ante a erupção de um remoinho. O homem que ia nela se sentia cada vez melhor, e pensava no tempo justo em que havia passado sem ver seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isso sim, certamente.

De repente, sentiu que estava gelado até o peito. Que seria? E a respiração...

Ao madeireiro de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, havia conhecido em Puerto. Esperança em Sexta-feira Santa...Sexta-feira? Sim, ou quinta-feira...

O homem estendeu lentamente os dedos da mão.

__
Uma quinta-feira...

E parou de respirar.            


Horacio Quiroga (1878 – 1937), nasceu em Salto, no Uruguai, foi poeta, romancista, diplomata e dramaturgo. Sua vida foi marcada por acontecimentos trágicos — a morte violenta do pai, o suicídio do padrasto, o falecimento de dois de seus irmãos, o suicídio da primeira esposa e, posteriormente à sua morte, também por suicídio ao saber que sofria de um câncer gástrico, seus três filhos se suicidaram. Conviveu em Paris com Rúben Darío, foi professor de castelhano em Buenos Aires – Argentina, trabalhou como fotógrafo em uma expedição às ruínas jesuíticas de Misiones, onde morou. Algumas de suas obras: Los arrecifes de coral (1901 – Os recifes de coral), Cuentos de amor, de locura y de muerte (1917 – Contos de amor, de loucura e de morte), Cuentos de la selva (1918 – Contos da selva), Los desterrados (1926 – Os desterrados), e Más Allá (1935 – Mais além), última obra do autor.
 
(O conto acima foi extraído do livro "Cuentos de amor, de locura y de muerte", constante na obra TODOS LOS CUENTOS, da Editora ALLCAXX/SCIPIONE CULTURAL.)  
 

REFUTAÇÃO DO “DECÁLOGO DO PERFEITO CONTISTA”
Por: Silvina Bullrich 

Em seu conhecido artigo “A retórica do conto”, Horácio Quiroga se refere em tom festivo (e talvez imitativo) com o qual concebeu textos como o “Manual do perfeito contista”. Muito provavelmente, isto pode ser aplicado também a seu “Decálogo”. Não obstante, este foi reproduzido e manipulado até a saciedade como uma espécie de receituário para contistas iniciantes. Neste caso, a escritora Argentina Silvina Bullrich retoma o Decálogo quiroguiano para fazer um estudo, uma série de observações que intentam refutar cada um dos “conselhos” expressados pelo autor uruguaio. O fragmento aqui reproduzido foi tirado do livro da autora intitulado CARTA A UM JOVEM CONTISTA (Buenos Aires, Santiago Rueda – Editor. 1968)

Nada me parece mais acertado para um estudo sobre o conto do que comentar ou discutir o Decálogo do Perfeito Contista, de Horacio Quiroga. 


Decálogo do Perfeito Contista
Horacio Quiroga   
         
Tradução:
Jádson Barros Neves

I – “Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus mesmo.” Cabe perguntar-se até que altura da vida supõe Quiroga que devemos aceitar influências estranhas e quando é o direito de nos sentirmos mestres por nossa vez, embora sejamos somente mestres de nós mesmos. Nenhum artista pode aceitar este conselho sem se rebelar um pouco, pois sua ambição é voar com asas próprias. Por outra parte, em que mestre acreditou Quiroga? Tenho a impressão de que em vários. Pois bem, em seus contos missioneiros transparecem alguma influência de Kipling ou de Poe, em outros, como em “Os Perseguidos”, por exemplo, vemos surgir um Maupassant, porém não o perfeito contista de “Bola de Sebo”, respeitoso do tempo do leitor, resolvido a captar e a despertar sua emoção, ao mesmo tempo que a surpresa, senão ao de seus contos menores como “A Cavalo”, “A Cama”, “O Louco”, etc.

II – “Crê que tua arte é um cume inacessível, não sonhes dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.” Este segundo mandamento não se presta a maiores comentários, pois é uma redundância do primeiro, embora menos admissível. Ninguém escreveria uma linha se não pensasse que tem algo a dizer distinto (e sem dúvida superior) de seus mestres. Toda pessoa com personalidade se sente singular, quanto mais aquele que tem vocação criadora. Por mais forte que seja a vocação de escrever, acredito que todos terminaríamos por dominá-la se não soubéssemos que uma página, uma frase, pode trazer algo ao panorama cultural do mundo, de nosso país ou de nossa cidade.

III – “Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência”. Temo que este terceiro mandamento contradiga os demais, embora ao mesmo tempo os resuma e os justifique.

IV – “Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração”. É por acaso o triunfo o mais importante em uma obra literária? Não conhecemos fracassos mais gloriosos que muitos êxitos e não costuma o escritor envergonhar-se um pouco da popularidade quando esta se converte (resultado inevitável) em um manuseio de sua obra? Pessoalmente me agrada mais a estrofe de Almafuerte: “Contudo também creio que a derrota – merece seus lauréis e arcos triunfais – qualquer dor que seja sempre sufocante – sobre a alma futura dos mortais”. A vida de Quiroga foi inteira uma derrota e por isso sua obra lhe cobrou força e perduração.

E agora chegamos ao quinto mandamento, o único verdadeiramente essencial a meu ver para guiar um jovem contista:

V – “Não comeces a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”. O fator surpreendente do final costuma ser a grande jogada de muitos contistas. Poderíamos dizer que os contos mais perfeitos são o que conduzem o leitor, em meio a uma confortável desorientação, até o final previsto pelo autor. E existe aqui, talvez, a diferença fundamental entre a técnica do conto e a do romance. O conto não pode deixar o final jogado à casualidade, pelo contrário, depende totalmente dele. O romance pode permitir-se infinitas liberdades, a de ter um desenlace equívoco, a de não ter nenhum, ou deixá-lo ao gosto do leitor e inclusive a de ir tecendo seu final como o destino, cegamente, à sorte de sua construção.

No entanto, sigamos com o decálogo do perfeito contista.

VI – “Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si”. Talvez seja este o mais caprichoso e mais discutível dos mandamentos, pois não se tergiversaria muito na realidade pondo “gelado” em vez de frio e evitando-se assim uma rima que não pode fatigar Quiroga, porém sim o leitor, e talvez os críticos. Não me parece um excesso de severidade recomendar aos jovens que evitem este tipo de consonâncias; não esqueçamos que o homem busca por natureza o caminho mais fácil e que é preferível lhe dar normas rígidas embora tergiverse sem cometer pecados mortais, que lhe dar leis elásticas que são largamente as culpáveis pelos estilos caídos em desgraça.

VII – “Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo débil. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo”. O conselho é saudável, porém não infalível. Há estilos que descansam em grande parte sobre os adjetivos. O adjetivo imprevisto e contraditório de Borges, o adjetivo humilde e exato de Maupassant e o que ajuda Poe na obra de terror. Pois, que se quer dizer exatamente a expressão: sem necessidade? A necessidade de adjetivar é privativa de cada escritor; seria como querer regulamentar a necessidade de usar dois adjetivos em vez de um ou até de determinar a necessidade de escrever em si mesma. Por outro lado, os conselhos são mais fáceis de dar que de seguir. Tomo ao acaso um conto de Quiroga, “A Chama”, e leio um parágrafo: “Berenice teve no dia seguinte um de seus estranhos ataques e ante meus sérios temores por essa sensibilidade profundamente enfermiça, a mãe sacudiu a cabeça”. Em três frases há pelo menos dois adjetivos suprimíveis: teríamos compreendido o mesmo, uma vez que os ataques eram estranhos sem agregar o adjetivo e que os temores eram sérios.

VIII – “Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja”. Esta última frase surpreende em um escritor tão autêntico com Quiroga e debilita um importante conselho, talvez o mais importante do Decálogo. Pois ninguém pode discutir que não seja um achado levar o personagem e a história até o final. Assim o conto é, de certo modo, mais perfeito que o romance, pois admite aquiescências. È claro que estas receitas fazem do conto uma ocupação mais ou menos fácil ou difícil de aprender e que a mesma liberdade do romance (como toda liberdade) aumenta suas responsabilidades e obriga a buscar incessantemente um procedimento que também incessantemente se perde. É mais difícil perder-se num longo caminho que num caminho curto.

IX – “Não escrevas sob o império da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho”. Não creio que caiba a discussão ao redor deste nono mandamento. Por outro lado, é quase desumano escrever sob a influência de uma real e recente emoção. Nisto o conto e o romance se assemelham. Talvez só a poesia, a romântica, não a atual, possa ser a exceção.

X – “Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto”.  Hoje parece surpreendente que alguém possa pensar em seus amigos ao escrever: o mundo é tão vasto e o escritor tão ilhado, seus objetivos tão distantes no tempo e no espaço, que não acreditamos em encontrar numa barreira que nos impeça seguir este conselho ingênuo. 


Ao longo deste Decálogo a palavra ingênuo tem aparecido varias vezes em minha mente e várias vezes a tenho rechaçado, pois a obra e a vida de Quiroga nada têm de inocentes, são sólidas e brutalmente humanas, como o foi sua morte e são as mortes que demarcam sua passagem pela terra. Porém há algo por que se resignar a admitir que um certo candor se filtre em seu Decálogo. Talvez seja impossível querer encerrar o homem em dez mandamentos sem sentir a impossibilidade (leia-se ingenuidade) de consegui-la. O homem, contista ou não, desborda os limites das teorias rígidas.

Às vezes penso que Quiroga contemplou demasiadamente a natureza e à força de observar víboras, crocodilos, invasões de formigas, lagos, selvas e trepadeiras perdeu a noção da grandeza infinita dentro de sua infinita pequenez que é o homem.

Porém não devemos confundir o Quiroga contista com o autor relativamente feliz deste Decálogo onde, apesar de minha atitude crítica, encontro dois ou três conselhos indispensáveis para todo contista. Embora isto é verdade em matéria de conselho literário não foi superado o de Rainer Maria Rilke em Carta a um Jovem Poeta: “Se podes viver sem escrever, não escrevas”. Não se presta a discussão o feito de que somente uma necessidade iniludível possa manter preso um homem (emprego esta palavra genericamente) buscando em si mesmo idéias fugidias que aparecem apenas, torpemente, de seu cérebro e imprimi-las num papel, signos de um alfabeto ainda indecifrável para quem virá depois de nós.

 
(Do livro DEL CUENTO Y SUS ALREDEDORES, COMPILAÇÃO DE CARLOS PACHECO, LUIS BARRERA E LINARES) 


 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2021 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio