revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 10:45 PM

Abelardo Castillo: A mãe de Ernesto

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Se Ernesto se deu conta de que ela tinha voltado (como havia voltado), eu nunca o soube, porém o fato é que pouco depois foi viver em El Tala, e, durante todo aquele verão, só voltamos a vê-lo uma ou duas vezes. Dava trabalho encará-lo. Era com se a idéia que Júlio nos havia metido na cabeça – porque a idéia foi dele, de Júlio, e era uma idéia rara, perturbadora: suja – nos fez sentir culpados. Não que ninguém fosse puritano, não. Nessa idade, e num lugar como aquele, ninguém era puritano. Porém justamente por isso, porque não o éramos, porque não tínhamos nada de puros ou piedosos e no final das contas nos parecíamos bastante com quase todo o mundo, é que a idéia tinha algo que turvava.

Certa coisa inconfessável, cruel. Atrativa. Sobretudo, atrativa.

Foi há muito tempo. Ainda havia o Alabama, aquela estação de serviço que haviam construído na saída da cidade, ao lado da rodovia. O Alabama era uma espécie de restaurante inofensivo, inofensivo de dia, pelo menos, mas que ao redor da meia-noite se transformava em algo assim como um rudimentar clube noturno. Deixou de ser rudimentar quando ao turco se lhe ocorreu acrescentar uns quartos no primeiro piso e trazer mulheres. Uma mulher ele trouxe.

    __ Não!
    __ Sim. Uma mulher.
    __ De onde a trouxe?

Júlio assumiu essa atitude misteriosa, que tão bem conhecíamos – porque ele tinha um particular virtuosismo de gestos, palavras, inflexões, que o faziam raramente notório, e invejável –, e logo, em voz baixa, perguntou:

    __ Por onde anda Ernesto?
    __ No campo, eu disse. Nos verões Ernesto ia passar umas semanas em El Tala, e isto vinha acontecendo desde que seu pai, por causa daquilo que aconteceu com a mulher, já não quis regressar ao povoado. Eu disse que no campo e depois perguntei:

    __ Que você quer com o Ernesto?

Júlio puxou um cigarro. Sorria.

    __ Sabem quem é a mulher que o turco trouxe?

Aníbal e eu nos olhamos. Eu me recordava agora da mãe de Ernesto. Ninguém falou. Tinha-se ido fazia quatro anos, com uma dessas companhias teatrais que percorrem os povoados: libertina, disse dessa vez minha avó. Era uma mulher linda. Morena e ampla: eu me recordava.

    __ Sem-vergonha, não?

Houve um silêncio e foi então quando Júlio nos cravou aquela idéia entre os olhos. Ou, melhor dito, já a tínhamos.

    __ Se não fosse a mãe...

Não disse mais que isso.

Quem sabe. Talvez Ernesto se tenha dado conta, pois durante aquele verão só o vimos uma ou duas vezes (mais tarde, segundo dizem, o pai vendeu tudo e ninguém voltou a falar deles) e, nas poucas vezes que o vimos, dava trabalho encará-lo.

    __ Culpados de quê? Afinal das contas e uma mulher da vida, e faz três meses que está no Alabama.

E se esperamos até o turco trazer outra, vamos morrer de velhos.

Depois, ele, Júlio, acrescentava que era somente necessário conseguir um carro, ir, pagar e depois lhe contássemos, e que se não nos animávamos a acompanhá-lo pois buscava algum que não fosse tão lascivo, e Aníbal e eu não íamos deixar que nos dissesse isso.

    __ Porém é a mãe.
    __ A mãe. O que chama de mãe vocês? Uma porca também pare porquinhos.
    __ E os come.
    __ E o que isso tem a ver? Ernesto se criou conosco.

Eu disse algo sobre as vezes em que havíamos brincado juntos; depois fiquei pensando, e alguém, em voz alta, formulou exatamente o que eu estava pensando. Talvez tenha sido eu:

    __ Se recordam como era?

Claro que nos recordávamos. O argumento tinha a força de uma provocação, e também era uma provocação que ela houvesse voltado. E então, grosseiramente, tudo parecia mais fácil. Hoje acredito – quem sabe – que, se houvesse tratado de uma mulher qualquer, por acaso nem teríamos pensado seriamente em ir. Quem sabe. Dava um pouco de medo dizê-lo, porém, em segredo, ajudávamos a Júlio para que nos convencesse; porque o equívoco, o inconfessável, o monstruosamente atrativo em tudo isso, era, talvez, que se tratasse da mãe de um de nós.

    __ No digas imundícies – me disse Aníbal.

Uma semana mais tarde, Júlio assegurou que nessa mesma noite conseguiria o automóvel. Aníbal e eu o esperávamos no bulevar.

    __ Não o devem lhe haver emprestado. __ Aníbal tinha a voz estranha, voz de indiferença. __ Não o vou esperar toda a noite; se dentro de dez minutos não vem, eu me vou.

    __ Como estará agora?
    __ Quem....a fulana?

Esteve a ponto de dizer: a mãe. Notei em sua cara. Disse a fulana. Dez minutos são longos, e então dá trabalho esquecer-se de quando íamos brincar com Ernesto, e ela, a mulher morena e ampla, nos perguntava se queríamos tomar leite. A mulher morena. Ampla.

    __ Isto é uma asquerosidade.
    __Tens medo – eu disse.
    __ Medo não; outra coisa.

Encolhi-me os ombros.

    __ Em geral, todas têm filhos. Mãe de algum ia ser.
    __ Não é o mesmo. A Ernesto o conhecemos.
    __ Disse que isso não era o pior. Dez minutos. O pior era que ela nos conhecia, e que ia nos olhar.

Sim. Não sei por quê, porém eu estava convencido de uma coisa: quando ela nos olhasse ia acontecer alguma coisa.

Aníbal tinha cara de assustado agora, e dez minutos são longos. Perguntou:

    __ E se nos desprezar?

Ia responder-lhe quando se me fez um nó no estômago: pela rua principal vinha o estrondo de um carro com o escapamento livre.

    __ É Júlio – dizemos os dois.

O automóvel buscou uma curva prepotente. Tudo nele era prepotente: os pneus, o escapamento. Infundia ânimos. A garrafa que trouxe também infundia ânimos.

    __ Roubei de meu velho.

Brilhavam-lhe os olhos. A Aníbal e a mim, depois dos primeiros tragos, também nos brilhavam os olhos. Tomamos pela Calle de los Paraísos, em direção à estrada. A ela também lhe brilhava os olhos quando éramos crianças, ou, quem sabe, agora me parecia que os havia visto brilhar. E se pintava, se pintava muito. A boca, sobretudo.

    __ Fumava, te recordas?

Todos estávamos pensando o mesmo, pois isto último não o havia dito eu, senão Aníbal; o que eu o disse foi que sim, que me recordava, e acrescentei que por algo se começa.

    __ Quanto falta?
    __ Dez minutos.

E os dez minutos voltaram a serem longos; porém agora eram longos exatamente ao revés. Não sei. Acaso era porque eu me recordava, todos nos recordávamos, daquela tarde quando ela estava limpando o piso, e era verão, e o decote abriu-se ao agachar-se, e nós nos havíamos dado cotoveladas.

Júlio apertou o acelerador.

    __ No final das contas, é um castigo – tua voz, Aníbal, não era convincente - : uma vingança em nome de Ernesto, para que não seja vagabundo.
    __ Quê castigo, nem castigo!
  
 Alguém, creio que fui eu, disse uma obscenidade bestial. Claro que fui eu. Os três rimos às gargalhadas, e Júlio acelerou mais.

    __ E se nos impedem de entrar?
    __ Estão mal da cabeça, vocês! Enquanto se faz a amizade, eu falo com o turco, ou armo um escândalo que lhes fecham a bodega por desconsideração com a clientela.
    
Nessa hora não havia muita gente no bar: algum viajante ou dois ou três caminhoneiros. Do povoado, ninguém. E, vá-se saber por quê, isso por último fez-me sentir audaz. Impune. Pisquei o olho à loirinha que estava atrás do balcão; Júlio, enquanto isso, falava com o turco. O turco nos olhou como se nos estudasse, e pela cara desafiante que mostrou Aníbal me dei conta de que ele também se sentia audaz. O turco disse então à lourinha:

    __ Leva-os para cima.
    
A loirinha subindo as escadas: me recordo de suas pernas. E de como movia as cadeiras ao subir. Também me recordo de que lhe disse uma indecência, e que a garota me contestou com outra coisa que (talvez pelo conhaque que tomamos no carro, ou pela genebra do balcão) nos causou muito riso. Depois estávamos numa sala pulcra, impessoal, quase reclusa, na qual havia uma mesa pequena: a salinha de espera de um dentista. Pensei acreditar que iam nos tirar um canino. Disse isso aos outros.
    
__  Acreditei estar aqui para nos arrancar um canino.

Era impossível conter o riso, porém tratávamos de não fazer ruído. As coisas eram ditas em voz muito baixa.

    __ Como na missa – disse Júlio, e a todos voltou a parecer-nos notavelmente divertido; no entanto, nada foi tão gracioso quando Aníbal, tapando-se a boca e com uma espécie riso contido, acrescentou:
    __ Pensa só se de um desses quartos sai o padre!
    
Doía-me o estômago e eu tinha a garganta seca. De tanto rir, creio eu. Porém de repente ficamos todos sérios. O que estava dentro saiu. Era um homem baixo, rechonchudo; tinha um aspecto de porquinho. Um porquinho jubiloso. Mostrando com a cabeça o quarto, fez um gesto: mordeu os lábios e pôs os olhos em branco.
    
Depois, enquanto ouvíamos os passos do homem que descia, Júlio perguntou:

    __ Que aconteceu?

Nos encaramos. Até esse momento não se me havia ocorrido, ou não havia deixado que me ocorresse, que íamos ficar sós, separados – isto: separados – diante dela. Encolhi os ombros.
  
 __ Que sei eu. Qualquer um.
    
Pela porta meio aberta se ouvia o ruído da água saindo de uma torneira. Banheiro. Depois, um silêncio e uma luz que nos deu na cara; a porta acabava de abrir-se toda. Aí estava ela. Nós ficamos contemplando-a, fascinados. O déshabillé entreaberto e a tarde daquele verão, antes, quando ainda era a mãe de Ernesto e o vestido se separou de seu corpo e nos perguntava se queríamos tomar leite. Só que a mulher era loira agora. Loira e ampla. Sorria com um sorriso profissional; um sorriso vagamente infame.

    __ Bem?
  
Sua voz, inesperada, me sobressaltou: era a mesma. Algo, no entanto, havia mudado nela, na voz. A mulher voltou a sorrir e repetiu “bem”, e era como uma ordem; uma ordem pegajosa e quente. Talvez foi por isso que, os três juntos, nos pusemos de pé. Seu déshabillé, me recordo, era quase translúcido.
  
   __ Vou eu – murmurou Júlio, e se adiantou, resoluto.
    
Conseguiu dar dois passos: nada mais que dois. Porque ela então nos olhou de cheio, e ele, golpeado, se deteve. Deteve-se quem sabe por quê: de medo, ou de vergonha talvez, ou de asco. E aí terminou tudo. Porque ela nos contemplava e eu sabia que, quando nos olhasse, iria acontecer algo. Os três havíamos ficado imóveis, cravados no piso; e ao ver-nos assim, titubeantes, vá-se saber com que aspecto, o rosto dela foi-se transfigurando lenta, gradualmente, até adquirir uma expressão estranha e terrível. Sim. Porque a princípio, durante alguns segundo, foi perplexidade ou incompreensão. Depois nada. Depois pereceu ter entendido obscuramente algo, e nos olhou com medo, desgarrada, interrogante. Então o disse. Disse que havia acontecido algo a ele, a Ernesto.
    
Fechando o déshabillé o disse.        


Extraído de CUENTO COMPLETOS
EDITORA ALFAGUARA

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