revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 11:20 PM

Rebate de pares 1980

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Em setembro de 1980, o departamento de teoria literária da Unicamp, reuniu um grupo de poetas para fazer o balanço da década anterior. Em pauta, a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal. O Encontro foi chamado de Rebate de Pares. Partes das gravações do encontro são transcritas nesta edição

Os anos oitenta foram retratados pelo pop-rock. Setembro de 1980. Unicamp. Mesa redonda no departamento de teoria literária. Em pauta a poesia. E não poderia ser outra, senão a marginal. Os anos setenta foram retratados na poesia marginal.

Tinha inicio uma nova década. A anterior vivera o aparecimento de experimentações poéticas as mais diversas e latentes. A poesia encabeçou as manifestações de cunho políticas que mapearam a segunda fase da ditadura militar brasileira, revelando-se um caleidoscópio de possibilidades estéticas e semânticas.

Essas possibilidades exigiam do poeta um posicionamento de campo de batalha. E a poesia fazia-se presente nas universidades (não como elemento de estudo, mas como vanguarda), grafites, planfletos, cartazes, leituras coletivas e passeatas. Em decorrência desse posicionamento do poeta, nasciam grupos literários, formas de produção, edição e distribuição, imprensas marginais no contrafluxo independente ao mercado editorial, que também, implementou bastante no tocante à editoração de poesias em livros, revistas, coletâneas e jornais. Uma das grandes heranças que os poetas atuantes dos anos 1970 deixaram foi o caminho aberto as grandes editoras. Tanto é que muitos deles foram, e continuam no caso de alguns, editados nos 1980 e 1990. Todavia, há hoje, um redargüir contrário aos novíssimos poetas.

Sensível às manifestações da poesia ao longo dos anos 1970, a Unicamp organizou uma mesa redonda de dois momentos. No primeiro, os poetas fundamentais (em todos os níveis) da geração 1970. No segundo, críticos ligados à universidade que analisaram (na medida do possível) a produção dos poetas.

A intenção do departamento de teoria literária da Unicamp em promover o rebate de pares, em setembro de 1980, era, começando uma nova década, fazer o balanço da anterior. Recortar e registrar a última vanguarda brasileira: A Poesia Marginal.

São mais de vinte horas de gravação (possuo as fitas), onde os poetas — (Glauco Mattoso, Roberto Piva, Régis Bonvicino, Cláudio Willer, Lúcia Villares, Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Alcides Villaça, Ulisses Tavares) — apresentam-se, falam de suas poesias e discutem vanguarda. Por sua vez os críticos — (Alfredo Bosi, Benedito Nunes, Boris Schnaiderman, João Alexandre Barbosa) — abordam a poesia desde a "República de Platão" no século V a.c à "Inventário de Cicatrizes" de Alex Polari de Alverga, poeta que esteve preso durante muitos anos e que foi condenado duas vezes à prisão perpetua. "Inventário de Cicatrizes" foi publicado em 1980, quando o poeta ainda estava preso.

Transcrever mais de vinte horas de gravação seria impossível. Não ouso sequer cogitar a façanha. Intenciono mostrar alguns trechos das gravações dos poetas. Poetas que, por uma feliz coincidência de compreensão, são os que acredito verdadeiramente percussores da geração atual.

Glauco Mattoso: Então, eu poderia estar fazendo palavras cruzadas ou montando quebra-cabeça, preferi mexer com poesias. Mas mexer com poesia de maneira pouco ortodoxa, porque acho que se é possível dizer que a propriedade é um roubo, a propriedade intelectual seria um roubo, e então, a expropriação é um legítimo direito. Eu parto do princípio de que sou um plagiário, e que não respeito a propriedade intelectual de ninguém. Esse é o meu ponto de partida. Como plagiário, eu mexo com coisas minhas e dos outros. Pouco importa se a idéia é minha ou de outrem. Eu ponho o meu nome em baixo de coisas que não são minhas e ponho o nome de outras pessoas em coisas que são minhas. Então, partindo disso, comecei a fazer um jornalzinho. Quando me referi a palavras cruzadas e quebra-cabeças, estava falando sobre diversão, passatempo. É assim que eu encaro a poesia: uma maneira de passar o tempo e me ocupar. Não que eu tenha tantas horas vagas assim. Mas, eu sento na máquina de escrever, coloco uma folha bem maior do que essa, e vou batendo à máquina. O alfabeto para os cabeçalhos é composto de pontinhos feitos com a letra o minúscula da máquina de escrever. Então, a partir de uma informação que vem desde o dadaísmo, surrealismo, movimento modernista, poesia concreta - uma coisa bastante antropofágica - eu vou mexendo com idéias que não são minhas. O resultado é esse aqui. Um jornalzinho em que todos os números são números 1. Composto só de frente e verso, a frente chama-se sempre "Jornal Dobrábil". Inclusive eu não respeito o sistema ortográfico. Pratico a ortografia anterior à reforma de 43. Então, no verso, alternadamente, em cada número, sai o Jornal Dadarte ou Galeria Alegria ou o Zero la da Esquerda. O Zero la da Esquerda seria uma brincadeira política ou politizada e Galeria Alegria seria gay. Tudo mexendo um com o outro. Quer dizer, eu fico meio em desvantagem se for o caso de ler poema, porque nem todos os poemas são legíveis. Alguns são visuais, outros, concreto. Eu poderia ler um que está neste número e que eu já declamei num concurso de poesia falada na "Revista Escrita". Não sei por que, deram o primeiro lugar. Fala em merda do começo ao fim. Talvez seja por isso.

Manifesto coprofágico

Mierda que te quiero mierda

Gárcia Loca

“a merda na latrina daquele bar da esquina tem cheiro de batina de botina de rotina de oficina gasolina sabatina e serpentina bosta com vitamina cocô com cocaína merda de mordomia de propina de hemorróida e purpurina merda de gente fina da rua francisca miquelina da vila leopoldinade teresina de santa catarina e da argentina merda comunitária cosmopolita e clandestina merda métrica palindrômica alexandrina ó merda com teu mar de urina com teu céu de fedentina tu és meu continente terra fecunda onde germina minha independência minha indisciplina és avessa foste cagada da vagina da américa latina”

Roberto Piva: Publiquei o "Paranóia", um livro editado pelo Wesley Duke Lee em 63, o "Piazza" em 64, depois só em 76, naquela Feira de Poesia e Arte no Teatro Municipal, o "Abra os Olhos e Diga: Ah!". Todos esses livros, inclusive "Coxas" de 79, estão esgotados. Vou ler para vocês algumas coisas recentes, e um poema do livro "Coxas".

Histeria Nº 1

“A confraria reacionária Unidos em Série promovedora de festivais de telenovelas nas fábricas jogou uma substância criadora de histeria CBK7 no reservatório de água de um colégio de freiras e as alunas peidaram 3 dias e 3 noites sem parar e depois se flagelaram e crucificaram.”

Lúcia Villares: Tenho alguns poemas em "Contramão" mais eu preferia ler outros poemas de meu novo livro, praticamente pronto, e que vai se chamar "Papos de Anjo". Eu queria ler o primeiro poema, que é bem antigo, 68, eu acho, e que se chama "Papo de Anjo".

Papo de anjo

“Aceita-me e acolhe-me
se pouca que sou
me quero dar.
Acalma teus olhos inquietos
e deixa-me contemplá-lo.
Quero perceber em ti
lascas da carne que te ofereço.
Guarda tua mão sobre meu corpo
para que teu calor penetre fundo
e envolva quente
meu sangue frio.
Sê homem cansado e triste
e aceita prá te acariciar
mãos trêmulas e frias
e deita entre meus seios
pobres e planos
que urgem em te cobrir de calor.
Deixe-me te dar
mesmo pouco e fugaz
o líquido amor que me preenche
o magro corpo que me envolve.”

Ulisses Tavares: Eu estava me lembrando, enquanto o pessoal lia poemas, de uma coisa que estava lendo no ônibus, quando estava vindo para cá. É assim uma reportagem de revista, um papo quase eufórico, em cima da linguagem das novelas. O pessoal agora está começando a dizer palavrão em novela, o Chico Buarque usando "bosta" na música, quer dizer, isso tudo está chegando; evidente que por um motivo político, pela censura que nós tivemos até agora. Mas eu queria registrar só a primazia da poesia em relação ao palavrão. Me parece que é um pioneirismo que não se tira da poesia, principalmente da poesia que se faz de uns 10 ou 15 anos para cá, no Brasil. Sempre que li poema de amigos meus, o palavrão estava lá, mesmo numa época em que o palavrão se refugiava dentro da casa das pessoas. O meu primeiro contato com a poesia tem haver com isso. Comecei a fazer poesia porque eu não sabia como colocar as contradições de minha vida. Até hoje não sei, então continuo fazendo poesia. Mas, naquela época (eu tinha 10, 11 anos de idade), eu fazia porque achava uma coisa, assim, bonita, achava uma coisa legal. Não sabia que poesia podia ser, inclusive, perigosa. Senti que ela podia ser perigosa quando saiu o primeiro poema meu e o editor do jornal foi mandado embora. Aquilo me assustou, na época, porque eu achava uma coisa assim tão normal, quer dizer, eu usava aquilo que aprendi em casa.

Eu continuei praticando poesia, publicando, participei de uma porrada de movimentos que aconteceram por toda essa época. Agora, das coisas mais recente, o mais importante foi o jornal que fizemos em 77, de que participaram a Lúcia, o Cacaso, etc. Acredito que tenha sido a primeira experiência ampla no sentido de aglutinar todos os poetas, os poetas que faziam poesias independente, os poetas que estavam distribuindo poesias de mão em mão. O jornal se chamava "Poesias Populares", fazendo um jogo em cima do "Notícias Populares", quer dizer, um jornal sangrento, mas só com poesias. Um recurso para chamar atenção. Esse jornal começou com um livro meu, que saiu como edição extra, lançando a proposta. Continuamos por um bom tempo. Depois disso, montamos um núcleo, que é o núcleo Pindaíba, com quatro poetas, porque descobrimos que é quase impossível trabalhar com cem poetas juntos. Quer dizer, juntando dois já é muito difícil, que dirá com cem. A coisa se tornou totalmente inviável. Algumas experiências até foram engraçadas, algumas delas deram certo. Por exemplo, Iniciativa Privada: sete mil cartazes colados atrás das portas dos banheiros, então, o cara sentava lá, ficava numa boa, lendo o poema. Tinha um lugar para a participação do cara que esta lendo: Rabisque aqui o seu poema. Eu não tenho mais nada disso, porque um artista plástico levou, disse que ia fazer um trabalho e sumiu. Essa foi uma experiência que fizemos há 3 anos. Depois fiz um livro: dez mil exemplares, que foram vendidos de mão em mão.

Régis Bonvicino: Eu acho esse assunto muito confuso, porque, como já disse, a poesia não é uma forma socialmente privilegiada, ela não flui, não tem consumidores, fica restrita a pequenos grupos mesmo. Acho que falar sobre vanguarda, hoje em dia, não tem muito sentido. O que é vanguarda? Vanguarda é uma coisa muito relativa. Acho que o que tem sentido é fazer as coisas, se divertir, como disse o Glauco, e deixar que o tempo faça da sua cor, não é? Deixar que o tempo filtre. Essa coisa de vanguarda coloca muito em alta definição as coisas. Não estamos num momento de alta definição.

Público: Quando você fala em vanguarda, está contrapondo vanguarda a qualquer outra coisa?

Régis Bonvicino: Não, o que eu quero dizer é o seguinte: a idéia de vanguarda, de um grupo ou grupos sistematizarem propostas formais, conteudísticas, estéticas, etc., está falida, para mim. Acho que a gente tem que viver uma saudável anarquia em relação à poesia. Poesia e anarquia são filhas de Maria. Deixar ir para rua, deixar solto no ar, está tudo solto na plataforma do ar. Não vejo sentido em ficar querendo definir as coisas, arquivar manifestações que ainda nem foram consumidas, nem foram decodificadas.

Cláudio Willer: Eu não concordo! Acho que a gente tem que aprofundar o conceito de vanguarda e tentar entender bem o que é. Em poesia, acho que uma parte da rejeição ao conceito de vanguarda, entre o pessoal mais novo, é decorrente dos mal-entendidos entre vanguarda e modernidade. Numa dada altura dos acontecimentos, aqui no Brasil, começaram a se associar os dois conceitos: a poesia que fosse mais moderna que as outras ou que tivesse alguma característica de atualidade serie de vanguarda. O conceito de modernidade é um conceito característico da nossa civilização. Tem muito de capitalista. Uma poesia para ser de vanguarda, não precisa ser moderna. Octávio Paz faz umas considerações muito felizes a respeito disso num livro dele chamado "Los Hijos del Limo", que infelizmente ainda não foi traduzido para o português. Aí ele mostra que o que o poeta questiona em primeira instância é a própria noção de tempo, em nome de uma busca de um tempo primordial, ou de uma outra forma de sentir o tempo. Nesse sentido, o Romantismo, no século XIX, era vanguarda justamente por estar recuperando a Antigüidade, recuperando a idade média, recuperando ritmos e formas de poesia que não eram aquelas usadas naquele tempo. Então, ele, aparentemente, parece voltado para o passado, parece saudosista e, ao mesmo tempo, tem uma atuação progressita. O Surrealismo faz exatamente a mesma coisa. Então, a vanguarda é muito mais do que uma inovação em sí, mesmo porque, o novo, em si, dificilmente existe e ocorre em poesia: é uma recuperação do poético. Voltando a veicular a poesia após um longo período de silêncio, de 68 para cá, estamos exercendo uma atividade intrinsecamente vanguardística.

Público: Pelo que você disse, toda recuperação ou toda oposição é vanguarda, nesse caso, fica fácil: tudo é vanguarda, até o Parnasianismo...

Régis Bonvicino: Só queria colocar uma coisa. O que o Willer falou a respeito de ditadura militar, concordo que foi uma coisa terrível, uma coisa que sufocou, que matou, que torturou, mas nem por isso as pessoas deixaram de fazer suas coisas. Eu acho que período ditatorial não significava necessariamente impotência poética ou impotência criativa, entende? Poderia dar milhares de exemplo na área da poesia, da música popular...

Público: Isso mesmo. De repente, a ditadura serve de desculpa para tudo: falta de criatividade, pobreza do imaginário... E agora que a mordaça parece está mais afrouxada, quais as novidades?

Régis Bonvicino: Então, essa recolocação da poesia no panorama, essa coisa de distribuir de mão em mão, já existia desde o modernismo. Veja-se Oswald de Andrade, com suas "Poesias Reunidas". Tirou trezentos exemplares e os distribuiu por aí. Octávio Paz tem uma colocação importante em relação a isso: "a poesia não tem existência real", quer dizer, não é uma coisa que existe na realidade. Diante do mundo industrial, do mundo eletrônico, do império, do deus-mercúrio, do comércio, a poesia fica fora, não é um valor de troca. Então, ela inexiste na realidade capitalista. E o papel dos poetas é resistir, e fazer aquilo que incomoda.

Ulisses Tavares: E, nessa medida, passa a ser vanguarda.

Régis Bonvicino: Mas o que eu quero dizer é que a idéia de vanguarda, como sistematização de princípios, como programa, é ultrapassada. É melhor deixar tudo solto. Um cara que assume a sua bissexualidade num país machista é vanguarda.

Ulisses Tavares: Exato, mas nesse sentido é que a poesia da resistência, mesmo, é o refúgio da vanguarda.

Régis Bonvicino: O cara que queima fumo na rua é vanguarda. Liberação é vanguarda de um modo geral, e poesia sempre foi liberação.

Ulisses Tavares: A diferença é que o poeta queima fumo e conta para todos. Essa me parece ser a diferença fundamental.

Régis Bonvicino: Mas é que poesia também não é só isso...

Ulisses Tavares: Evidente que não é só isso, mas isso é que é coisa viva.

Régis Bonvicino: Sim, mas a poesia também existe num plano sintático, semântico, pragmático, existe como forma, como conteúdo...

Ulisses Tavares: Ah, sim! Mas aí nesse plano, ninguém tem saco para discutir.

Régis Bonvicino: Não, acho que essa coisa de alta definição que você diz que ninguém tem saco para discutir, realmente não é o momento.

Lúcia Villares: Com relação a programa, acho que hoje há outras formas de assumi-lo: chamar o público, fazer recitais e, como por exemplo, o pessoal do "Nuvem Cigana", no Rio, montar aquelas artimanhas, aqueles espetáculos... Quer dizer, eu acho que o poeta, agora, tem que assumir não só escrever, quanto inventar maneiras dessa poesia sair. Eu não acho que a poesia não é real, ela só não é real enquanto o poeta não a fizer real. Hoje, para se conhecer um poema é quase necessário se conhecer o poeta também...

Régis Bonvicino: É, mas no mundo capitalista, a poesia não entra num sistema de trocas...

Lúcia Villares: Entra. O Ulisses vendeu não sei quantos "Pega-Gente". Entra! Estamos vivendo uma época em que escrever não é uma ato solitário. Para mim, foi uma descoberta saber que havia toda uma geração fazendo o mesmo trabalho que eu. Esta é a marca que se evidencia em nossos projetos conjuntos de distribuição de poesia.

Ulisses Tavares: É, nunca houve tantos fazendo tudo. Evidente que só pode ser de uma maneira caótica, anárquica, como é a própria vida... Me parece muito mais espontâneo, muito menos literário. Quer dizer, os poetas, os poetas estão, me parece que pela primeira vez, de corpo inteiro na vida. Se jogando mesmo.

Cláudio Willer: Eu acho o trabalho do Glauco seríssimo, porque de uma parte ele é filho de Lautréamont, já que sua obra é toda de plágios, paródia, criada em cima do texto dos outros. Coloca-se aqui ainda a questão da intertextualidade. Na verdade, o que o Glauco está fazendo é uma espécie de jogo aberto do que o poeta realmente faz. Quer dizer, nenhum poeta está escrevendo um texto realmente dele. Não existe uma autoria isolada do texto. A gente está sempre reescrevendo.

Ulisses Tavares: É, me parece que essa dicotomia vem sendo discutida ao longo dos tempos, e cada vez ela está ganhando mais corpo. Quer dizer, até que ponto somos pessoas jurídicas ou somos pessoas físicas? Até que ponto somos meramente autores de uma série de palavras que se alinham e que nós denominamos poesia, e que podem ser lidas de uma maneira e de outra? O que me parece indiscutível é que todo mundo que escreve, hoje, está tentando trazer mais para perto de si aquilo que esta fazendo. É uma mudança de postura não encarar simplesmente o nível da "elaboração literária", digamos assim, mas o nível muito mais amplo que é o da vida, da urgência da vida, seja em qualquer sistema, e principalmente no nosso. Isso é tão novo que eu não tenho reposta nenhuma para dar. É a primeira vez que eu vejo as pessoas tentando se aproximar tanto do que fazem. É a própria alquimia física do poeta no cotidiano.

Cláudio Willer: Não sei, não... A gente teve um período de valorização de um determinado tipo de espontaneísmo. O termo até já apareceu aqui. Uma poesia muito coloquial, muito voltada para o cotidiano, muito direta, aquele negócio do ouvido da rua, e tal. Agora, eu acho que a gente já está num segundo momento, o de pensar criticamente tudo isso. Quer dizer, não se pode aceitar o espontaneísmo como modelo do processo criativo, e nem sequer como uma tendência que a poesia esteja assumindo...

Cacaso: O que existe hoje, na poesia brasileira são as tendências acadêmicas e aquelas que se autodenominam vanguardas. Muitas coisas estão acontecendo. Mas o que interessa saber é quem tem força para criar. Às vezes, o que é inovado vem disfarçado com roupagens antigas. Roberto Schwarz num ensaio sobre o Paulo Emílio mostra que o que tem no autor de vanguarda, vem disfarçado em coisas arcaicas. Na música acontece o mesmo. O que agente costuma chamar de vanguarda é coisa de publicidade. Colocar de novo o tema é uma maneira de sustentar verbalmente um cadáver que não tem mais sentido, que os fatos superaram, que a dinâmica do processo social jogou para trás. O que interessa é ver quem tem força criadora. Eu gosto de ver coisa original, coisa que minha mãe não viu. País que passou por colonização tem que formular o original, ser arbitrário ao extremo e ter força criadora. É isso.

Régis Bonvicino: Eu concordo com o que ele disse, era mais ou menos o que queria dizer quando me referi à vanguarda: deixar que o tempo faça tudo de sua cor, não é? Agora eu queria lançar uma provocação: acho poesia escrita, na nossa geração, ou de dez, quinze anos atrás, uma coisa careta, uma coisa chata. O quente está na música popular mesmo: Caetano, Gil, Walter Franco, Cartola, Nelson Cavaquinho, eu acho que isso é o quente. Poesia é uma coisa careta. Eu sinto assim. Não dá mais tesão, não dá mais nem muita vontade de fazer, entendeu?

Ulisses Tavares: Acho que essa sua posição é consumista. Não só colonizada, como com a cabeça feita pelos meios de comunicação, que você renega. Isso é altamente reacionário. Você está dando razão ao Cacaso, porque ouve o rádio, a TV. Aquilo que se faz como antigamente, contra o sistema você acha uma chatice. Quer dizer, - você não consegue nem mais captar que a vida explode de todos os lados.

Régis Bonvicino: Talvez você tenha razão, e eu tenha coração.

Roberto Piva: Voltando a questão da vanguarda, quero lembrar aqui uma passagem de William Blake em "Casamento do Céu e do Inferno" que diz mais ou menos: assim como o lagarto escolhe, para pôr seus ovos, as folhas mais verdes, o padre coloca suas maldições nas nossas mais belas alegrias. Até hoje é vanguarda, porque continuam vivas as forças que oprimem, que amaldiçoam as nossas mais belas alegrias. Não só os padres, como todo o sistema de repressão vigente.

Régis Bonvicino: Homero também é vanguarda...

Público: Esse negócio de vanguarda está uma cartola de mágico. Cada hora sai uma diferente. E tudo vira vanguarda. Só falta dizer que a Bíblia é vanguarda também.

Alguns trechos do material publicado nesta edição saíram originalmente no jornal “Diário de Fortaleza”, em 2002.

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