revista bula
POR EM 12/11/2008 ÀS 12:02 PM

Raso mergulho no mar profundo

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Um mar profundo, em cujas águas nem todos logram ir a fundo - complexa treliça de algas submersas -, Fernando Pessoa não se põe facilmente ao alcance de todos. Há que ter olhos de lince, de longo alcance ou abrangência; há que olhar/ler com a pinça da percepção; há que captar as cintilâncias de tanta beleza. Beleza de luz. Um tesouro nas profundezas, que se revela multiforme, encanta, seduz, suscitando outros e outros mergulhos. Não é por menos que muitos poetas, deslumbrados com o que reluz em profundidade, se vejam presas deste fascínio, subjacente nos versos que trazem à luz das influências.

Os exemplos, não carece muito esforço para se buscá-los, bastando as minudências que pontilham não só a poesia dos "principiantes", mas também a dos poetas de renome, como Cecília Meireles, que escreveu "Motivo", ao que parece, bebendo no poema XLVII de "O Guardador de Rebanhos", onde Pessoa usa o heterônimo Alberto Caeiro. A poeta escande o verso "não sou alegre nem sou triste", enquanto Caeiro já nos dera "não estou alegre nem triste".

Neide Arcanjo, no livro "Escavações", usou "no que me falha ou cinde", à semelhança de Pessoa: "o que me falha ou cinde". Carlos Osório (vivia em Brasília), em seu "Rebanho de Ventos", lembra o poeta português, notadamente a temática cristã de Alberto Caeiro - vide "O Guardador de Rebanhos". E assim em poetas mais recentes. E vamos por aí afora, "ontem, como hoje, como amanhã, como depois", como intitula-se um conto de Bernardo Elis. Com isso queremos dizer que os poetas não se livram das boas influências - nem das más, se delas não têm consciência -, essa "angústia fingidora", digamos assim, pois nem todos se angustiam deveras, nos moldes propostos por Harold Bloom. Já o próprio Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor. E poetas há, até, que adoram "influências", no sentido "espongiário" (chupão), como os denomino.

Poetas há que bebem da fonte e, a seu modo, são "continuadores", e não meros "repetidores", e muito menos "diluidores", para utilizar-se aqui a classificação de Ezra Pound. Além deste ponto, os que nada acrescentam são os medíocres e patéticos, incluídos os que não criam e se metem a críticos. Estes os mais ridículos, movidos por suas frustrações à falta de talento, e pela inveja, pelo despeito, se lhes sobeja pobreza de espírito. Bem poderiam um pouco mais conhecerem-se a si mesmos, começando pela leitura da obra clássica O Homem Medíocre, de José Ingenieros. Um banho de luz e de "descarrego" dos maus fluidos. Fora disso, só mesmo uma sessão espírita, de doutrinamento dos maus espíritos, ou uma dança de chapéus pretos num pacto com Mefisto, no redemoinho da encruzilhada e no meio da madrugada. Mas, para isso, hay que tener saquito.

Ler e reler Pessoa, tanto quanto mais, é mais e melhor conhecer e aproximar-se de Fernando em "Pessoa", e de suas pessoas, tantas quantas na soma de seus heterônimos. O homem homônimo de si mesmo na multidão de anônimos. E aí a solidão de Fernando Pessoa. Da pessoa de Fernando. E aí os mergulhos nas profundezas e sutilezas das palavras. Neste poeta, o desenraizamento dos lugares-comuns, condicionados na mentalidade humana, leva-nos a participar do questionamento desmi(s)tificador que propicia uma visão filosófica em relação á objetividade e à subjetividade das coisas.

"Falar em alma das pedras, das flores, dos rios / É falar de si própri o e dos seus falsos pensamentos. // Porque o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum. // As coisas não têm significação: têm existência. / As coisas são o único sentido oculto das coisas."

Isso é Pessoa. Momentos como esses, ricos e transformadores do mundo aos nossos olhos, revelando o que o mundo realmente é e nem todo mundo percebe ou quer saber (o mal de muitos é não querer); momentos assim abundam em Fernando Pessoa, e requerem do leitor a pausa da reflexão para o entendimento, se a tanto chegar. Um mar profundo, nem sempre acessível aos rasos mergulhos tão próprios do espírito contemporâneo.

No que me diz respeito - a mim, particularmente -, e do que pouco sei, o que sei, a fundo? "Só sei que nada sei" senão o que sei sobre Sócrates, que recomendou ao homem conhecer-se a si mesmo. Só sei que me procuro, bem aqui, que é onde realmente me encontro, nos sargaços de minhas serpentinas, sinuosas aliterações. Neste raso mergulho em mar profundo. 

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