revista bula
POR EM 12/11/2009 ÀS 08:08 PM

Não morro de amores por Brasília

publicado em

Brasilia

Para Nicolas Behr 


I
 

Brasília

foi meu exílio voluntário,

por volta do anos 60 e pouco,

ou pelos 70

— já não sei ao certo —,

quando saí à procura

de outros ares

e me dei com pedra,

quadras e blocos e becos

de um tempo seco

e poeirento.

 

Ventania muita

e capim resseco,

naquele tempo.

Era um saco:

os cabelos,

sempre revoltos,

esvoaçavam

em cima dos olhos,

não paravam

quietos.

 

A primeira

impressão que tive

— aquela que fica —,

quando lá estive

por seis meses,

foi que Brasília era

uma imensidão

de salões vazios.

Alas e salas

de sombrio silêncio,

na imensidão dos dias.

 

Um cerradão

de indiferença

e frieza humana,

a cidade fria

da utopia.

Pessoas havia

que nem urutaus

em cima de paus,

mal respondiam

ao meu bom-dia.

 

Ave caprimulgiforme,

da família dos nictibídeos

— mas o que é isso? —,

o tal de urutau.

De tal nome,

se lhe anexa,

 o sinônimo

de preguiça.

Mas, seja dito,

 o DF não é isso;

bota um C nisso,

pois antes CDF,

cu-de-ferro,

bicho bom de serviço,

que se leva a sério no aterro,

no berro e no grito,

dos compromissos.

 

Tétrico! 

Naquele época,

eu via uma cidade simétrica,

tudo muito geométrico,

monótono, monolítico;

o muito passado da conta,

para o meu inquieto

estado de espírito.

 

Algum aspecto

— ou espectro —

do imenso,

pétreo e concreto projeto

me punha melancólico

— faltava-me espaço! —;

me dava no peito

uns sopapos curtos,

entanto traumáticos,

feito coice de porco.

 

Que tédio!

Brasília era um cemitério

de prédios.

Solidão sem remédio.

A W3 me parecia

longa lâmina

seccionando o homem.

 

Arranjei trabalho

por um tempo,

e meu dormitório

era o sótão-escritório 

de uma oficina

com pintura de autos,

de cujo nome não me recordo.

Ali pelas alturas

ou baixadas

da Quadra 14,

me parece que num beco

por trás da W3 Sul.

E essa, conheci a passos,

do fim para o começo

e vice-versa:

visualizar bancos e comércio,

em função do meu serviço,

clientes, fichas e cheques.

 

Por ali, num trecho daquela via,

havia, que não me esqueço,

a Casa Thomas Jefferson,

que eu achava o máximo.

Entro, não entro;

tímido,

a olhar lá dentro,

através do vidro.

 

Numa hora noturna,

passando pelo lago Paranoá,

pros lados da Esplanada

dos Ministérios, vi lá

uma gente estranha,

se defumando com maconha.

Jóia, tudo jóia, podes crer.

Brasília não foi feita pra você.

 

Eu ia beber solidão com cerveja

à mesa de um boliche que,

não me falhe a memória,

distava algumas quadras

abaixo do lago

— estava na moda, o boliche —,

e todos por ali,

bem ali ao meu redor,

 ignoravam-me.

Cismei que fossem burgueses,

fregueses seletos, exclusivos,

e eu apenas um intruso.

 

Buscava ambiente,

amizade, lazer,

movimento de gente,

sinal de vida;

                                                      mas não havia amigos,

não para forasteiros,

abaixo do lago.

 

Pareciam não me ver

 — se me olhavam, não me viam —,

tanto é que me senti

sem o verbo existir,

e me apalpei pra conferir

se eu estava mesmo ali,

se estava ainda em mim.

Tomei consciência de meu ser.

“Abraçado ao meu rancor”,

nunca pude me esquecer

do olhar de relance

da indiferença.

 

Pois que seja,

pouco se me dá.

 Garçom, outra cerveja.

Seria o que eu diria hoje.

Deixe-me cá,

com os meus comigos.

Fique o Distrito Federal dos Aflitos

— e agora Lula lá —

com o seu Paranoá.

 

Brasília então era uma ilha

de gente fria,

que me transformava em Braz(ilha).

Nunca morri de amores pela filha

de Juscelino,

e me refiro à Capitá Federá

do Dotô JK,

como um candango dizia.

Eu pelos cerrados das esquinas

caçando seriemas

e coçando as penas

da braguilha.

Como assim, John Donne,

que nenhum homem

é uma ilha?

E eu ali,

ilhado em mim?

 

JK cante lá:

“Como pode o peixe vivo

viver fora da água fria?”,

que eu canto cá:

Como poderei viver, ó Poesia,

 sem a tua companhia?

Fôrma e forma,

forma e fundo, 

o peixe em fogo brando

e água morna.

 

Um verso terso e teso

 — pegue, sinta o peso —,

querer-se intruso entrudo,

arremeter-se todo com tudo

— que absurdo! —

na forquilha

das virilhas de Brasília.

 

Frias domésticas

de cara feia,

como se feitas de matéria plástica.

De olhos esquivos

como enguias,

e nada elétricas,

sumiam portas adentro

daqueles blocos.

Inda hoje me reporto

aqueles tempos

e me pergunto:

de que se alimentam

os lobos do planalto?

 

Eu era um estranho no ninho.

Sentado lá naquele bar,

permaneci sozinho,

dissolvendo em espirais de fumo

o ser humano

ali vizinho a mim.

Também não lhe vi mais

importância nenhuma.

Garçom, mais uma.

 

Eu tinha uma irmã

em Taguatinga,

mas só ia por lá nas manhãs

 de minguados domingos.

Dias havia em que

por lá demorava,

de dia me perdia

a vagar à toa pelas vias,

de noite me procurava

onde não estava.

Em vão me buscava,

então me bateu saudades de casa.

 

Era uma rotina meio insana,

daí voltei pra Goiânia. 



II
 


Em Brasiléia,

capital federal brasileira,

os apartamentos são

blocos de cimento

— quadradões, tipo caixotão —

que hoje se assemelham

àqueles velhos

engradados de cerveja,

feitos de madeira,

com tiras de latão,

meio que aço,

à guisa de reforço

e cantoneiras.

 

Quando fizeram Brasília,

que seria um centro de decisão

governamental,

houveram por bem gramar

amplos espaços do Planalto Central,

para o povo pastar.

 “O extenso gramado destina-se ao pisoteio”,

consta que teria dito o próprio Lúcio Costa,

por certo que com outras intentos,

e não na acepção de pasto.

 

Mas Brasília, até hoje,

é onde o povo pasta,

masca e muge,

ao som do Hino Nacional.

Nós outros também mugimos,

porque o Brasil é o pasto

dos maltratos,

e todo governo tem sido

nosso padrasto,

tangendo-nos feito gado.

 

Conta-se que no Palácio

da Alvorada

é gordo o repasto.

Para lá acorrem muitos penetras,

multidões famintas,

mas a guarda,

a postos na porta,

sempre barra a entrada.

Ninguém tasca na maçaneta,

ninguém passa,

ninguém entra.

 

Tem seus pratos,

a Praça dos Três Poderes.

Pratos de concreto,

e dois palitos eretos,

numa mesa sem talheres.

Um cardápio arquitetônico,

a bacia de Pilatos

 e, de borco,

o prato dos famintos.

Me passa o guardanapo?

Preciso assoar o nariz.

Um país

a gripe que nos constipa.

Brasília é um Brasil dentro dos Brasis.

 

III


Definitivamente, caro Nicolas,

não morro de amores por Braxília

— com essa grafia que você criou —,

e só raramente, se me dão a honra

e não me esnobam,

me permito be(Behr)

com algum poeta do Planalto.

Deles há que,

se nos visitam,

e lhes perguntam,

mentem não nos conhecer.

 

Acabo de descascar

a Laranja Seleta.

Com efeito,

o que há de melhor

de Nikolaus Hubertus Josef Maria von Behr,

que você bem deve conhecer

aí no planalto em que se planta

o projeto urbanista

de Lúcio Costa.

Aí no chão

em que pousou o avião,

 a nave-pássaro,

asas abertas

no centro do Plano Piloto.

Com as bênçãos

de Dom Bosco, 

que um dia viu um lago e vislumbrou

a terra prometida do Planalto.

 

Por certo que Brasília,

com o seu encaixe

no Eixo Monumental

— o corpo do avião —,

não é nada original,

 visto que se inventa e se agiganta

com os traços de Oscar,

o popular Niemeyer,

respeitável pop star da arquitetura,

sob  influências

de Le Corbusier,

que era o tal,

sem aqui desmerecer

o talento nacional

de grande envergadura.

 

Considerado gênio por muitos, com obras arquitetônicas aclamadas pelo mundo afora e estilo inconfundível, Niemeyer é um dos maiores mestres da história da arquitetura, embora conte também com uma legião de críticos. De seus traços ondulados ou geométricos não saem apenas casas ou prédios. Ele desenha catedrais, monumentos, praças, cidades inteiras. — Matheus Leitão, na revista Época.

 

E quanto custa um arquiteto?

Kubitschek abriu o leque,

cobriu muitos cheques.

E só nos últimos 12 anos

de projetos e anexos,

foram R$ 33,5 milhões de acerto

ao mesmo arquiteto,

segundo levantamento

feito pelo site Contas Abertas,

a pedido da Época.

Fora os nove-foras

por conta de agora,

polêmicos anexos,

que, dizem, desfiguram

a cara de Brasília.

 

Voou a pomba robótica

 de arremate

ao Opus brasiliense.

Cadê o ovo da pomba,

que estava aqui?

Cadê a pomba

dos ovos de ouro? 

Cadê o tesouro

da arquitetura?

 

Por outros cantos, fala-se tanto,

e se ouve à distância,

de um fálico obelisco-unicórnio,

“um chifre de concreto, com cem metros de altura,

descrito como  obra de grande ousadia tecnológica”, 

como anota Sylvia Ficher,

 arquiteta, doutora em história

e professora da UnB.

 

E agora que se inaugura

a Praça das Bicicletas,

quer-se também a Praça da Soberania,

Memorial dos Presidentes,

mas esta, antes não seria

a Praça do Povo?

Admirável mundo novo!

Admirável prumo

de um novo rumo!

Pedra sobre pedra,

as coisas mudam

como coisa nenhuma.

Há coisa de dois anos, uma robótica pomba — isto mesmo, uma pomba! — seria o principal elemento da praça que, segundo o arquiteto, estava faltando no Plano Piloto: a Praça do Povo. Repetindo a ausência de paisagismo do vizinho complexo cultural, a cidade iria ganhar mais um árido calçadão, mais um inóspito vazio onde desde sempre havíamos convivido sem maiores problemas com um modesto gramado… desimpedido destinado a atividades ocasionais, como paradas militares, desfiles esportivos ou procissões; nas próprias palavras Lucio Costa, “o extenso gramado destina-se ao pisoteio… (“O tráfego de Brasília”, 1960). — Sylvia Ficher.

Tanta construção apenas para encobrir um estacionamento subterrâneo… De quebra, na maquete eletrônica (incidentalmente, o novo tipo de empulhação arquitetônica que nos oferece o maravilhoso mundo da informática) é contrabandeado um antigo projeto vetado pelo IPHAN por desrespeitar em muito o gabarito estabelecido legalmente para o local - uma altíssima cobertura curva para abrigar shows de música popular, a qual implacavelmente lembra “as curvas do corpo da mulher amada”, só que com redondinhos seios de silicone e já buchuda. — idem.



IV


De resto,

com este blocos de versos diversos,

pesponto aqui o fim da linha.

Esclareço que esse negócio

de desamor a Brasília

é brincadeira minha.

Não carece brasiliense

roer as unhas.

É tudo muito bonito,

aí no Distrito.

 

Mas é certo

que já não morro de afetos

pelos que ocupam

a Granja do Torto. 

Mea culpa, mea culpa.

Votei nas quatro,

recuei na quinta,

por desencanto.

Eu queria muito

meus votos de volta.

 

Posto isto,

me desafino

com Brasília,

peço deferimento,

aumento em minha

magra aposentadoria

e abono natalino.
 


V


Agora, poeta,

que lhe conheço e prezo,

filho de Mato Grosso com Poesília

— que conheci menino-Diamantino,

aquele que foi preso

garimpando poesia e prosa,

bebendo chá com porrada,

comendo iogurte com farinha,

engolindo caroço de goiaba —;

agora, menino-verso,

Homo cuiabanobrasiliensis,

pega aí o travesso pássaro,

meu alado amplexo,

meu fraterno abraço.

 

Sem mais, von Behr,

a gente se vê.

E a quem interessar possa,

inusitados unicórnios de aço,

invadem também Goiânia.

Há controvérsias,

mas  não é que,

à primeira vista,

 até que parecem bacanas?

 

Visitem Goiânia.

Lâminas pontiagulhas

espetam os olhos

do futuro.

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