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POR EM 29/07/2012 ÀS 05:43 PM

William Faulkner e o cinema

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A literatura de James Joyce, William Faulkner (falecido há 50 anos), Gui­marães Rosa e Carlo Emilio Gadda é refratária ao cinema — dada a dificuldade em transpor para a imagem, e num tempo curto, cerca de 120 minutos, a linguagem complexa de suas escritas. Os diretores de cinema brasileiros certamente saíram-se melhor do que os adaptadores americanos. Faulkner no cinema geralmente deixa de ser Faulkner. Mas o próprio escritor encantou-se, por dinheiro ou vaidade, pelo meio cinema durante algum tempo. Os livros “A Cidade das Redes — Hollywood nos Anos 40” (Companhia das Letras, 477 páginas, tradução de Ângela Melim), de Otto Friedrich, e “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras, 327 páginas, tradução de Alberto Alexandre Martins e Beth Vieira) contam as “andanças” do autor do romance “O Som e a Fúria” e “Enquanto Agonizo” pela meca do cinema americano. Algumas, hilariantes. Na segunda obra, trata-se da entrevista do autor a Jean Stein Vanden Heuvel, da “Paris Review”.

Na “cidade do cinema”, disse Faulkner, produtores, diretores e atores “não adoram o dinheiro, adoram a morte”. Friedrich diz que o escritor detestava Hollywood, superando o ódio de Raymond Chan­dler. O escritor foi para Hollywood “porque quase ninguém comprava seus livros, nem mesmo ‘O Som e a Fúria’ (1929) e ‘Luz em Agosto” (1932). Seus quatro primeiros romances venderam uma média de 2 mil exemplares e, na época em que tentou um best seller, ‘Santuário’ (1931), seu editor foi à falência”. Por isso, assegura Frie­drich, seguiu “para Hollywood, em 1932, e assinou com a MGM um contrato de 500 dólares por semana, por ele considerado principesco”. Jean Stein pergunta: “Um escritor se compromete escrevendo para o cinema?” Resposta de Faulkner: “Sempre, porque um filme é por natureza uma colaboração, e qualquer colaboração é compromisso, porque é isso o que essa palavra significa: dar e tomar”.

Sam Marx, editor de enredos da MGM, sugeriu que Faulkner trabalhasse “numa história de luta para Wallace Beery”. O escritor replicou: “Quero escrever para o Mickey Mouse”. Alertado de que Mickey pertencia ao estúdio Dis­ney, Faulkner propôs: “E os noticiários? Gosto de desenhos e noticiários”. Levado para uma sala de projeção, para ver ‘O Cam­peão”, de Wallace Beery, o autor de “Ab­salão, Absalão” desapareceu. Antes fez uma pergunta ao office boy que o assistia: “Como é que eu saio daqui?” Noutra versão, o criador de “Sartoris” teria dito: “Jesus Cristo, não é possível!” O cinema, pelo menos o que havia visto, era um “horror”.

Encontrado, foi posto para revisar e preparar projetos. Como nenhum deles foi filmado, a MGM reduziu seu salário para 250 dólares e, em seguida, o demitiu. Faulkner apresenta sua versão. Ao receber o telegrama “William Faulkner, Oxford, Miss. Onde está você? Estúdio da MGM”, respondeu: “Estúdio da MGM, Culver City, Califórnia. William Faulkner”. No estúdio, teria sido enrolado e, por fim, defenestrado.

“Ele voltou estoicamente para o Mississippi e começou a escrever o seu romance mais importante [na visão de Friedrich, claro; Harold Bloom prefere “Enquanto Ago­nizo” e a maioria dos críticos apresenta como mais importante “O Som e a Fúria”, uma espécie de “Ulysses” americano], ‘Absalão, Absalão’ (1936). Este também não vendeu, e ele voltou a Hollywood para trabalhar com Darry Zanuck, na Fox, por mil dólares semanais.”

Zanuck encaminhou o candidato a roteirista para o diretor sulista Nunnaly Johnson, que o recebeu num escritório suntuoso. “Faulkner retribuiu tirando do bolso meio litro de uísque.” Entornou a metade e passou a garrafa para Johnson: “Quer um gole de uísque?” Johnson respondeu: “Mal não faz” e tomou o resto. A lenda reza que os sulistas foram encontrados, três semanas depois, bêbados.

Não adaptado a Hollywood, e demitido de novo, Faulkner voltou ao Mississippi, agora para escrever “Palmeiras Selvagens” e “The Hamlet”. Em 1942, depois de receber apenas 300 dólares de direitos autorais por seus romances, assinou contrato com a Warner Bros. Aceitou receber 300 dólares por semana. “Ao final de seus contrato de sete anos com a Warner, Faulk­ner viria a receber o prêmio Nobel [de Literatura, em 1950], mas no momento estava trabalhando pela tabela de pagamento para ‘escritor principiante’. Tinha 45 anos”, es­creve Friedrich.

O chefe de produção da Warner, Hal Wallis, disse para Faulkner trabalhar “uma biografia de guerra contemporânea intitulada ‘God is My Co-Pilot’”. Wallis perguntou: “Você quer fazer esse trabalho?” “Não”, respondeu o escritor. “Você leu o livro?” “Não”, disse o autor de “Os Invictos”. “Quer ler?” “Não.” Irritado, Wallis insistiu: “O que é que você ‘quer’ fazer?” Faulkner não pestanejou: “Voltar para o Mississippi”. O executivo bronqueou: “Você está contratado e vai trabalhar aqui”. Faulkner aquiesceu e fez um roteiro de 153 páginas para um épico, “De Gaulle Story”. Como os Aliados estavam irritados com o francês Charles de Gaulle, o projeto não saiu do papel.

Faulkner foi “empurrado” para escrever “Liberator Story”, “Perse­guido”, com Errol Flynn, e “Águias Americanas”. Este, dirigido por Howard Hawks. “Tempos depois”, conta Friedrich, “quando lhe perguntaram como conseguiu produzir 25 páginas de roteiro por semana, Faulkner disse: ‘Eu ficava repetindo para mim mesmo, eles vão me pagar no sábado, eles vão me pagar no sábado’”.

Friedrich conta que Faulkner uma vez pediu para trabalhar em casa e, liberado, voltou para o Mississippi. Os produtores acreditaram que a casa à qual se referia ficava em Los Angeles. Há um tom de lenda, mas Darryl Zanuck confirma que, quando estava escrevendo “Caminho da Glória” para Howard Hawks, em 1936, Faulkner fez exatamente isto: correu para seu querido Mississippi. “Pensei que casa significasse Beverly Hills, onde ele estava morando”, lamentou-se Zanuck. Vítima do mesmo truque, Jack Warner telefonou: “Senhor Faulkner, como pôde fazer isso comigo. Como é que você saiu da cidade sem me avisar? Você disse que ia trabalhar em casa”. Pacientemente, Faulkner corrigiu-o: “Aqui é a minha casa. Eu moro no Mississippi”. Mais tarde, Faulkner disse que a história era “mentira de jornalistas”.

Howard Hawks apreciava a literatura de Faulkner. Comprou sua história de guerra “Turn About”, transformada no filme “Vivamos Hoje” (1933), com Gary Cooper e Joan Crawford. “Hawks e Faulkner tornaram-se amigos por toda a vida e frequentemente Hawks arranjava trabalho para o diretor. Na realidade, Faulkner nunca escreveu um roteiro completo para Hawks, fazendo com que os estudiosos de cinema tentem em vão determinar exatamente qual foi sua contribuição nos projetos do diretor. Hawks gostava de improvisar no local das filmagens; gostava de ter Faulkner a seu lado como uma espécie de artesão ou talvez simplesmente gostasse da companhia dele”, relata Frie­drich. “Ele [Faulkner] era capaz de escrever qualquer coisa. Bill bebia demais, mas, quando não estava bebendo, era incrivelmente bom”, disse Hawks.

Uma vez, Hawks levou Faul­k­ner e Clark Gable para uma caçada. Gable, inculto, pediu a Faul­kner uma lista de bons escritores. Faulkner disse: “Thomas Mann, Willa Cather, John Dos Passos, Ernest Hemingway e eu”. Sur­preso, o ator perguntou: “Ah, o sr. escreve?” “Sim. O que é que o sr. faz?” O malicioso Friedrich apimenta: “Talvez a intenção fosse sarcástica, mas Hawks ficou na dúvida. ‘Acho que Gable nunca leu um livro e que Faulkner nunca foi ao cinema. Portanto, acredito que estavam sendo sinceros’”.

À “Paris Review”, Faulkner disse que Humphrey Bogart foi o ator com o qual mais gostou de trabalhar. “Ele e eu trabalhamos juntos em ‘Uma Aventura na Martinica’ e em ‘À Beira do Abismo’.” In­quirido se “gostaria de fazer outro filme”, respondeu: “Gostaria de fazer um do ‘1984’, de George Orwell. Tenho uma ideia para um final que comprovaria a tese em que estou sempre martelando: que o homem é indestrutível dada a sua simples vontade de liberdade”. Jean Stein indaga: “Como consegue os melhores resultados trabalhando para o cinema?” O “roteirista” explica: “O meu trabalho cinematográfico que me pareceu melhor foi feito quando os atores e o escritor deixaram de lado o roteiro e inventaram a cena num ensaio, pouco antes de a câmara começar a rodar. Se não levasse a sério o trabalho cinematográfico, ou sentisse que não era capaz de levá-lo a sério, eu, por simples honestidade para com o cinema e comigo mesmo, não o teria tentado. Mas hoje sei que nunca serei um bom roteirista” (a entrevista é de 1956).

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