revista bula
POR EM 01/07/2012 ÀS 06:15 PM

Tradutor tortura o Lênin de Robert Service

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Paulo Francis dizia que os filmes do Cinema Novo eram uma “merda”, mas os diretores eram “geniais”. Algo equivalente pode-se dizer do livro “Lenin — A Biografia Definitiva” (Difel, 630 páginas), do historiador inglês Robert Service.

O livro de Service é excelente, mas a tradução, assinada por Eduardo Francisco Alves, é lamentável. Apesar do descuido do tradutor, o historiador mostra, com fartura de informações e análises, as razões do fracasso do socialismo na Rússia. As razões começam com Lênin (“o profeta do amoralismo marxista”), e não com Stálin, pois aquele, e não este, foi o fundador do Estado totalitário.

Engana-se, porém, quem pensa que Lênin era igual a Stálin. Lênin, mostra Service, defendia um Estado repressor, autorizou ataques aos socialistas revolucionários (que o tradutor chama de “revolucionários socialistas”, porque, ao traduzir do inglês, não percebeu que, em português, precisava, em nome da precisão histórica, mudar a disposição das palavras), manipulava todo mundo e jogava pesadíssimo. Mas Lênin, crítico duro de alguns bolcheviques, procurava preservar seus aliados e/ou quase-aliados (pelo menos alguns deles) — e, como revela Service, a Revolução Russa de 1917 talvez não tivesse ocorrido sem sua intensa capacidade de articulação e intervenção política.

Stálin, pelo contrário, por mera suspeita ou paranoia, matava seus aliados e até algumas de suas mulheres. Mandou a mulher de Molotov, seu principal aliado, para a cadeia, com o objetivo de testar a lealdade do velho bolchevique. Molotov apoiou a decisão do chefe e só manteve contato com a mulher depois da morte de Stálin. Uma boa dica é combinar a leitura do Lenin de Service com “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore. A falha deste é avaliar que, pelo número de livros lidos, Stálin era um intelectual respeitável. Mas descontrói, com rara felicidade, a tese dos trotskistas de que o assassino serial era intelectualmente obtuso.

Não fiz uma leitura em busca de erros, mas, mesmo assim, encontrei mais de 130 erros e imprecisões. Exemplos do desleixo da edição (que sequer menciona o nome de possíveis revisores do livro): o nome de Lunatchárski (grafia proposta por respeitados tradutores do russo, como Boris Schnaiderman) aparece grafado de três formas: Anatoli Lubacharski (página 207), Lucharski (página 208) e Lunacharski (página 616); o nome do chefe da Cheka, a polícia secreta criada por Lênin, é grafado de seis formas diferentes (numa só página é grafado de três modos distintos): Felix Dzierjinski (página 325), Dzerjinski (página 371), Dzerjynski, Dzerjyinski, Dzerjuinski (página 511), e Dzierzynski (página 605). Há trechos que parecem ter sido escritos por alguém especializado no samba do crioulo doido.

Sobre o uso de “Lenin” e não Lênin, o tradutor brasileiro pergunta: “... por que Lenin é Lênin e não Lenín? Aí já é tendência, o pendor ou a vocação da língua, o que dificilmente se explica”. Bobagem. Basta dizer que, em inglês, Lênin não tem acento (como as outras palavras), mas em português deve ter. A frase de Eduardo Francisco Alves é estranhamente confusa: “... por que Lenin é Lênin...?”. Ora, o tradutor admite, sem querer, que a grafia correta é Lênin, com acento. Boris Schnaiderman, nascido na Ucrânia, fundador do curso de Russo da Universidade de São Paulo e considerado um dos mais categorizados tradutores do russo — verteu Púchkin, Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov e Maiakóvski —, escreve “Vladímir Ilitch Ulianov, dito Lênin”. Eduardo Francisco Alves exclui o acento, elimina o “t” de Ilitch e troca “i” por “y” em Ulianov: “Vladimir Ilich Ulyanov, Lenin”. Na ficha catalográfica, comprovando que não há qualquer padronização no texto da Difel, grafa-se “Ilitch”.

Apesar dos muitos erros, que uma revisão eficiente poderia ter corrigido, o problema mais grave é ético e de responsabilidade, provavelmente, não do tradutor, mas da editora Difel. O título do livro em português é uma fraude que não foi comentada pelos resenhistas patropis. Em inglês, o título é “Lenin a Biography” (publicada em 2000). Não há qualquer referência que possa justificar o título proposto pela Difel-Editora Bertrand Brasil: “Lenin — A Biografia Definitiva” (a responsabilidade provavelmente é da editora, não do tradutor). O título em inglês, “Lenin — Uma Biografia”, é honesto e discreto. Em certas partes do livro, Service diz que alguns assuntos precisam ser mais bem pesquisados, ou seja, não se propõe a estabelecer a biografia “definitiva” do revolucionário russo. Os arquivos soviéticos não foram inteiramente abertos. Lênin ainda é uma obra aberta.

Service peca ao contar o atentado sofrido por Lênin. Ele sequer menciona o nome da socialista que atirou no líder bolchevique. A história é muito bem contada por Orlando Figes, em “A Tragédia de um Povo” (Record, 1.106 páginas), o livro seminal sobre a Revolução Russa.

Não tenho a perícia técnica de Denise Bottmann, competente tradutora e crítica de tradução e de livros, mas pretendo escrever um texto mais longo sobre as dezenas de falhas da tradução. Eduardo Francisco Alves é responsável por traduções equilibradas, por isso fica-se com a impressão que emprestou o nome para um trabalho feito por outra pessoa. Pode ser apenas impressão, mas isto ocorre no Brasil. A Editora Record publicou livros de Harold Robbins “traduzidos” por Nelson Rodrigues. Recentemente, depois de revelar que Nelson não sabia inglês, o dono da editora contou que a versão era feita por outra pessoa. A chancela de Nelson era apenas para atrair o público, talvez o público “cult”, para uma obra menoríssima. 

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