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POR EM 03/08/2011 ÀS 01:48 PM

Salinger odiaria

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“Salinger: Uma Vida” representa uma tentativa maníaca de entender a ficção de Salinger sob a ótica autobiográfica. Esta opção altamente discutível do biógrafo compromete a apreciação da obra do escritor, resvalando na idolatria do fã

Jerome David Salinger odiaria a biografia escrita por Kenneth Slawenski. Em primeiro lugar, ela representa o culto ao escritor, algo de que Salinger sempre foi esquivo. Até aí, “tudo bem”. Nem se fosse escrita por Seymour Glass, ele ficaria satisfeito. Em segundo lugar, “Salinger: Uma Vida” representa uma tentativa maníaca de entender a ficção de Salinger sob a ótica autobiográfica. O resultado é que todo texto salingeriano existe para ser analisado sob a luz da existência do escritor.

Esta opção altamente discutível do biógrafo compromete a apreciação da obra do escritor, resvalando muitas vezes na idolatria do fã. Não à toa, Slawenski é o criador do site Dead Caulfields (www.deadcaulfields.com). Parece que estamos lendo um blog dedicado a J. D. Salinger, o grande herói de Kenneth Slawenski.

A questão então é ver o que Slawenski tem a nos oferecer. Como nenhuma de suas análises prima por algum insight maravilhoso, somos condenados a análises e mais análises biográficas de sua obra. A jovem Oona O'Neill trocou Salinger por Charles Chaplin? Lá está o intrépido Slawenski descobrindo como isto se reflete na ficção de Salinger: Chaplin é desprezado pelo personagem principal de um conto do qual ninguém mais tem lembrança. E assim durante as cerca de 380 páginas da biografia, que não conta com índice onomástico.

Tudo isto tem lá seu interesse, mas antes de contribuir para o conhecimento da obra de Salinger, termina por amesquinhá-la. Este problema está enraizado no fetiche pela realidade, tão afeito ao gosto contemporâneo. A ascensão das vendas de biografias e de filmes “baseados em fatos reais” comprova o fato.

Ao discutir o personagem de Buddy Glass, Slawenski se pergunta: “Em que lugar da alma do escritor estavam as raízes terríveis da profunda dor de Buddy Glass? Salinger não tinha irmão. Ninguém na vida de Salinger, seja parente ou amigo, nunca chegou a se parecer minimamente com o personagem de Seymour Glass. (...) No entanto, o personagem de Seymour é tão real que deve ter tido alguma base em fatos. E o pesar de Buddy Glass tem frescor e pungência demais para não ser uma narração de emoções reais”. Ora, de acordo com a estreita concepção de Slawenski, é inadmissível que um escritor use a imaginação para criar sua obra.

Beats e cinema

Curiosamente, em “Sey-mour, Uma Introdução”, Salinger critica os beats, entre outras coisas, por serem “assassinos do zen budismo”. Não é de espantar que Salinger considerasse os beats um bando de baderneiros. Seu universo era outro.

Ele se movia com desenvoltura nos meios intelectuais nova-iorquinos (basta dizer que “O Apanhador” é um dos livros prediletos de outro sofisticado nova-iorquino, ninguém menos do que Woody Allen), seus personagens jamais têm problemas financeiros, ele não pretende subverter a ordem nem as instituições (Holden adora museus, o cemitério da arte, o lugar onde as coisas são conservadas).

É interessante comparar a atitude dos beats e de Salinger quanto às adaptações cinematográficas de seus livros. Enquanto Jack Kerouac implorava em carta para que Marlon Brando filmasse “On the Road”, Salinger não permitia que Elian Kazan levasse “O Apanhador” para as telas, traumatizado com “Meu Maior Amor” (“My Foolish Heart”, 1949), adaptação de um conto de “Nove Estórias”. O método de Slawenski seria mais adequado se ele estivesse biografando não Salinger, mas os beatniks, cujas obras se confundiam deliberadamente com suas vidas.

Superficialidade

Salinger: Uma VidaSlawenski se limita a assinalar a grande admiração de Salinger por F. Scott Fitzgerald, sem entrar em maiores detalhes sobre como ela se reflete no estilo do biografado. A repetição de palavras — ou leitmotivs — em “O Apanhador no Campo de Centeio” para caracterizar a voz de Holden Caulfield é um processo semelhante ao que ocorre em “O Grande Gatsby”, como aponta William Cane. No livro de Fitzgerald, Gatsby qualifica os outros de “old sport” (42 vezes), ao passo que Holden usa reiteradamente as palavras “phony” (e derivados: 49 vezes) e “goddam” (245 vezes).

O biógrafo assinala a amizade de Ernest Hemingway com Salinger, porém deixa de notar que os contos deste são tributários daquele, com a técnica do iceberg, de omitir informações, fazendo com que o leitor deduza a história. Salinger combinaria esta técnica com sua habilidade para escrever histórias dentro de histórias, tornando-se um virtuose em narrativas curtas.

A devoção de Slawenski isenta de crítica as obras finais de Salinger, notadamente “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” e “Seymour, Uma Apresentação”. Nestes livros, Salinger se apaixonou de tal maneira à família Glass que acabou se entregando a maneirismos.

Em “Carpinteiros”, o narrador Buddy Glass interrompe a história diversas vezes para explicar ao leitor o motivo de não ter agido como se esperava, demonstrando — de forma sempre charmosa e engraçadinha, como é seu estilo — uma autoconsciência demasiada das brechas de sua narrativa.

Por outro lado, há que se ressaltar o sucesso do narrador salingeriano em dialogar com o leitor, processo que vai se intensificar em “Seymour”, no qual o mesmo Buddy promove um verdadeiro tour de force para eliminar a distância entre escritor e leitor, com o objetivo de convencê-lo da santidade de Seymour.

Salinger se tornara adepto da filosofia budista, frequentando templos e lendo obras de místicos como a “Autobiografia de um Iogue”, de Paramahansa Yogananda, e “The Gospel of sri Ramakrishna”. A ironia é ter um narrador cujo ego “desponta por toda parte” no momento em que adota uma religião que prega o desapego.

Buddy admite: “Não consigo catalogar e sistematizar em se tratando dele [Seymour]”. Este “vaudeville literário” é louvável, quando vemos escritores contemporâneos com personagens e situações desinteressantes, não raro se alimentando da própria literatura, em jogos metaliterários que causam enfado. Como disse Pound sobre um poeta inglês: ele tem mais dificuldade em parar do que em continuar a cantar.

A autoconsciência do narrador se revela no uso irônico dos parênteses, que interrompem o discurso a todo o momento. É a forma encontrada por Salinger para questionar noções fundamentais como linguagem, representação, verdade. Assim, a própria literatura entra em crise — o que é “Seymour, Uma Apresentação” senão o relato da tentativa de fazer com que o leitor conheça um personagem? Sobre essa crise, Slawisnki nada tem a nos dizer.

Silêncio

Como a obra de Salinger se enclausura em silêncio a partir 1965, Slawenski não pode mais repercutir a vida do autor na obra. A partir da década seguinte, a narração avança célere, com páginas bocejantes sobre julgamentos relativos à discussão sobre direito de autor, permissão para biografias e questões jurídicas.

Slawenski não explora o suposto lado bizarro de Salinger, descartando sem maiores detalhes as acusações de Joyce Mainard, autora do polêmico “Abandonada no Campo de Centeio”, em que conta como foi sua relação com o escritor durante 10 meses. É uma opção estranha, tendo em vista o fato de Joyce ter sido a única pessoa a viver com Salinger e escrever sobre a experiência.

O que de melhor há no trabalho de Slawenski é a reconstituição do período militar de Salinger durante a Segunda Guerra Mundial. Podemos descobrir que ele foi condecorado herói de guerra, tendo estado presente no histórico Dia D, depois na tenebrosa floresta de Hürtgen, que dizimou centenas de soldados norte-americanos. Salinger também estava no pelotão do 12º Regimento, o primeiro a entrar na Paris rendida pelo próprio exército alemão.

A persistência e a disciplina ferrenhas de Salinger estão exemplificadas na sua capacidade de se preocupar com suas anotações e sua máquina de escrever mesmo debaixo de fogo pesado nas trincheiras. Valores como respeito e honra sempre foram seu padrão de conduta.

Outro ponto positivo é a ênfase em explicar como a colaboração com a “The New Yorker” aprimorou o trabalho de Salinger. A ajuda dos editores William Shawn e Gus Lobrano foi fundamental para a construção de narrativas esmeradas, como “Um Dia Perfeito Para Peixes-Banana” e “Para Esmé — Com Amor e Sordidez”.

Slawenski se exime de julgar a existência de Salinger de acordo com o que ele prega em sua ficção. Neste quesito, infelizmente, Salinger falha miseravelmente. Ele volta às costas para seus editores e amigos, fracassa em seu casamento, isolando-se de conexões humanas conforme envelhece. Para alguém que professou tão enfaticamente a compaixão, o amor e a solidariedade, não deixa de ser estranho que sua vida tenha se afastado desses valores. Como disse John Updike, Salinger disse a todos para lhe telefonarem e depois cancelou a linha telefônica.

A antipatia de Salinger para com os fãs é manifestada num episódio que revela o conservadorismo do autor. Em 1974, foi feita uma edição pirata de seus contos completos, coligindo muitas histórias que foram veiculadas apenas em revistas na década de 40. Salinger concedeu uma entrevista — algo raríssimo — para ameaçar os responsáveis. Como resultado, a compilação pirata sumiu do mercado.

Sonny, como era chamado pela família, faleceu em 27 de janeiro de 2010, aos 91 anos. Ele escrevia todos os dias, apesar de não publicar. A esperança dos fãs é que o baú seja aberto, revelando o que ele escreveu em seu retiro na pequenina Cornish.

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