revista bula
POR EM 31/05/2012 ÀS 06:54 PM

Sai nova tradução do Ulisses de James Joyce

publicado em

James Joyce, devido à sua prosa inventiva, deu sorte: seu romance “Ulisses” (1112 páginas) ganha mais uma tradução em português. A tese de doutorado de Caetano Waldrigues Galindo é a tradução do cartapácio do escritor irlandês. Do pouco que li, percebo que o professor resgata a oralidade de Joyce e sua linguagem de artesão-chique.

Entrevistado pelo repórter Antônio Gonçalves Filho, do “Estadão”, Galindo frisa que Joyce não tinha nenhum amor por hifens. A recusa ao uso de hífen, afirma Galindo, “acaba gerando a criação de várias palavras aparentemente novas mas que são apenas uma representação gráfica de um composto conhecido ou mesmo uma junção de substantivo e adjetivo totalmente normal”. O tradutor frisa que não inventou palavras. “O que pode ser que eu tenha feito, assim como outros tradutores, foi forçar limites possíveis da língua portuguesa e da literatura brasileira, para criar novas combinações e novas fusões.” O “inventor” de palavras, se se pode dizer assim, foi mesmo Antonio Houaiss, o primeiro tradutor de “Ulisses” no Brasil.

O professor Declan Kiberd, ouvido por Gonçalves, diz que “Ulisses” é o “épico do corpo”. Escreve Gonçalves: “Não foi outro irlandês, Oscar Wilde, o pioneiro a apresentar o ‘homem feminil’ na literatura, anota Kiberd, mas Joyce, que, segundo ele, ‘mudou para sempre o modo como os escritores tratavam a sexualidade’”. Leopold Bloom, principalmente, nada tem a ver com machão típico da literatura por exemplo de Ernest Hemingway. E a Molly Bloom do romance realmente não tem nada da mulher idealizada dos românticos ou mesmo das feministas. É mais livre do que querem as feministas e do que aceitam os homens em geral.

Um trecho pequeno não permite avaliar o conjunto de uma tradução. Mas, a julgar pela escolha do trecho inicial publicado pelo “Estadão”, a versão de Galindo não compromete. Pelo contrário, é precisa, preservando a inventividade da linguagem e mantendo sua coloquialidade. A reconstrução da oralidade em Joyce beira à perfeição. É um caso raro de reconstituição da oralidade que não soa provinciano ou caipira, pelo menos em tradução (não sei como os irlandeses veem isso). É provável que Guimarães Rosa tenha feito pelo Sertão o mesmo que Joyce fez por sua Irlanda (a real e a afetiva).
 

Trecho da tradução de Galindo:

“Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Elevou a vasilha e entoou:

— Introibo ad altare Dei.

Detido, examinou o escuro recurvo da escada e invocou ríspido:

— Sobe, Kinch. Sobe, seu jesuíta medonho.

Altivo, ele se adiantou e subiu na plataforma de tiro redonda. Olhou à volta e abençoou sério e por três vezes a torre, o campo em torno e as montanhas que acordavam.”

O leitor pode perguntar: é necessário mesmo três traduções de um livro? No caso de “Ulisses”, por ser uma obra complexa e sempre à espera de releituras e atualizações — a crítica está sempre descobrindo novas fronteiras no texto —, novas traduções são vitais para compreendê-lo, para destrinchá-lo. Há também a tradução portuguesa. O curioso é que a tradução do romance, ou pós-romance, às vezes é mais complicada do que o texto em inglês. O esforço de “esclarecer” Joyce torna sua obra às vezes ainda mais complexa. Daí que sua tradução aproxima-se da adaptação ou, como diriam os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, da transcriação. A tradução literal de Joyce é um palpite infeliz, pois significa padronizar ou chapar sua linguagem, uma das “heroínas” principais do romance.

Sem Joyce certamente não teríamos, para citar apenas dois escritores, o norte-americano William Faulkner, o de “O Som e a Fúria”, e o brasileiro Guimarães Rosa, o de “Grande Sertão: Veredas”. Numa crítica atenta, Silviano Santiago aproxima Guimarães Rosa, com sua temática “rural”, do sertão, mais de Faulkner, o do Mississippi, com seu condado entre o real e o imaginário (até fantasmal), do que de Joyce (embora, é claro, não desconsidere a influência óbvia, em termos de linguagem; o crítico está tratando mais da temática). Sim, a interpretação procede, mas, assim como Faulkner é filho de Joyce, Guimarães Rosa, mesmo que tenha se rebelado com a angústia da influência, é filhote do escritor irlandês. O que Guimarães Rosa não queria, com evidente razão, era ser apresentado como “clone”, ou imitador, de Joyce. Exigia, sem dizer isto, ser visto como um “par” do autor de “Ulisses”. E era mesmo, assim como Faulkner.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio