revista bula
POR EM 26/03/2008 ÀS 06:01 PM

Preparando-se para Os Demônios

publicado em

Foi em abril de 1849 que Dostoiévski e outras 27 pessoas foram presas acusadas de conspiração contra o czar Nicolau I da Rússia. Sim, ele tinha lá sua culpa, pois um ano antes, o aclamado autor de Gente Pobre (1846), passara a se reunir na casa de Petrachévski para discutir temas censurados na imprensa russa: as recentes transformações liberais da Europa, a eficácia de alguns sistemas socialistas e o fim da servidão dos camponeses, este último, o assunto preferido de Dostoiévski.
 
A eloqüência usada por Dostoiévski, quando se referia às “intoleráveis injustiças contra o povo russo”, fez com que Spechniev, também membro do círculo de Petrachévski, o convidasse para outras reuniões com o objetivo de organizar ações mais práticas na luta contra o autoritarismo. Dostoiévski empolgou-se com a fala, o cavalheirismo e o dinheiro emprestado de Spechniev, a quem chamou uma vez de “meu Mefistóteles”, e passou a integrar um grupo seleto para discutir tais “atitudes”. Foram presos três meses depois.
 
Em 16 de novembro do mesmo ano, Dostoiévski e outros 14 foram condenados à execução por um pelotão de fuzilamento. Porém, apelando à clemência do czar, a pena foi transformada em 8 anos de trabalhos forçados, mas não sem um capricho do magnânimo Nicolau I: que se procedesse à simulação da execução e apenas depois os prisioneiros seriam informados do perdão imperial.
 
Aí a história é mais conhecida: na manhã de 22 de dezembro os prisioneiros foram retirados de suas celas e levados à Praça Semenóvski (São Petersburgo) cercada por tropas militares e uma multidão silenciosa. A alegria do reencontro com os “bons companheiros”, depois de exatos oito meses isolados, foi substituída pela incredulidade, naquele dia frio com neve aos joelhos, ao ouvirem a sentença de fuzilamento. Enquanto tinham que vestir a própria mortalha, um padre pedia-lhes que se arrependessem, mas ninguém lhe deu bola se limitando a beijar o crucifixo que o sacerdote oferecia (incluindo os ateus de carteirinha).
 
Três deles – Petrachévski, Monbelli e Grigóriev - foram então amarrados aos postes, ao mesmo tempo em que o pelotão de fuzilamento preparava-se. Pode parecer inacreditável, mas um dos que esperava na fila - Lvov - parece realmente ter gritado: “Ô Monbelli, segura bem alto suas pernas, senão chegarás gripado ao reino dos céus”. Não se sabe se alguém riu.
 
Depois de um minuto interminável, o pelotão recebeu ordem para baixar armas. Se o oficial da guarda czarista, fosse um similar de Lvov diria algo como: “Brincadeirinha! Vai todo mundo quebrar gelo na Sibéria”. Avisados da comutação da pena, uma espada foi quebrada na cabeça de cada um dos prisioneiros, simbolizando a exclusão da vida civil, e os grilhões foram colocados em seus pés, representando o passaporte pra Sibéria.
 
Grigóriev não suportou esta experiência e sucumbiu à um torpor mental até sua morte anos depois. Dostoiévski imortalizou o dia “mais feliz de sua existência”, palavras dele que se sentia lisonjeado com a dádiva da vida, quando descreveu os sentimentos de um condenado, momentos antes da execução, em seu romance O Idiota (1868). Esta experiência, juntamente com os anos de exílio, fez nascer pra valer um dos mais importantes romancistas da humanidade (senão o principal).
 
O conhecimento das idéias socialistas e das pessoas que atuavam nestes círculos, geralmente letrados, ateus, niilistas ou revolucionários, bem como um caso de “queima de arquivo” numa organização clandestina em 1869, foram a base de seu romance-panfleto Os Demônios de 1871. Falarei dele semana que vem e de sua premonição aos feitos terroristas da época atual. 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio