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POR EM 21/05/2012 ÀS 11:14 AM

Paulo Francis vive

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Ensaios do jornalista-polemista que incomodou o ex-presidente americano Jimmy Carter, publicados em livro, provam que sobreviveram à corrosão implacável do tempo

Depois de 15 anos da morte do jornalista e escritor Paulo Francis (1933-1997), a Editora Três Estrelas, do grupo que edita o jornal “Folha de S. Paulo”, lança um coletânea de seus artigos (há verdadeiros ensaios) no livro “Diário da Corte” (407 páginas). O subtítulo, “Crônicas do maior polemista da imprensa brasileira”, certamente não agradaria o profissional. Mesmo na coluna “Diário da Corte”, Francis se considerava, acima de tudo, jornalista, e não cronista. Um dos motivos de sua irritação com o ex-ombudsman da “Folha” Caio Túlio Costa tem a ver com o fato de ter sido apontado como “cronista”. Se a edição não fosse “cordial”, e se a reportagem do jornal que anunciou o livro não o tivesse chamado de “erudito” — Francis não se preocupava em ser erudito, só era menos pedestre do que a maioria dos colegas de profissão —, o leitor adepto de teorias conspiratórias possivelmente pensaria que se trata de uma vingançazinha sutil. Os textos, publicados na “Folha” de 1976 e 1990, resistiram à corrosão implacável do tempo? A maioria sobreviveu e poucos estão roídos pelas traças da história, como as palavras apaixonadas e equivocadas sobre Fernando Collor, que Francis via como modernizador e, até, “homem branco e bonito” (na verdade, Collor tem cara de capataz escravagista e de discípulo de Simão Bacamarte). Em 1971, antes de migrar para a “Folha”, atacou Roberto Marinho, no “Pas¬quim”: “Um homem chamado porcaria”. Arrependeu-se, como fez várias vezes. O economista Roberto Campos, que passara anos espezinhando, passou a ser citado como “o guerreiro Roberto Campos”. Ele, segundo Francis, melhorava “horrores, em pessoa”. “Escrevi coisas brutais sobre Campos. São erradas. Retiro-as. Cheguei à conclusão de que capitalismo num país rico é opcional. Num país pobre, no tipo de economia inter-relacionada de hoje, a suposta saída que se propõe no Brasil de o Estado assumir e administrar leva à perpetuação do atraso”. Em 1977, Francis escreveu que seu epitáfio ideal era: “Paulo Francis, 1930-etc., não era um chato”. “O objetivo deste livro é lembrar que, ao menos nesse tópico, ele estava certo”, diz, com acerto, Nelson de Sá.

Na apresentação do livro, Nelson de Sá, colunista da “Folha”, derruba a tese de Caio Túlio Costa, de que Francis seria mais cronista do que jornalista, ao contar a história de uma reclamação de Jimmy Carter, quando presidente dos Estados Unidos. “Em 1977, o embaixador dos Estados Unidos foi recebido” pela cúpula do jornal e “abriu o jogo: um artigo do jornalista havia chegado às mãos de Jimmy Carter, alvo preferencial de Francis à época, e o presidente americano solicitara ao diplomata que transmitisse à ‘Folha’ seu desagrado com o que lera”. Há donos de jornal no Brasil que, acossados ou para agradar o poder, demitem o repórter que desagrada aos homens dos poderes. Octavio Frias de Oliveira, então publisher do jornal, disse “que a ‘Folha’ não tiraria um articulista que conseguia provocar uma reação da Casa Branca. Francis foi informado do episódio, mostrou-se preocupado, mas recebeu orientação para prosseguir. E o consulado americano passou a recolher diariamente, de madrugada, cada nova edição na Alameda Barão de Limeira, sede do jornal, para enviar os textos aos Estados Unidos”.

A editora deveria ter publicado, como anexo, as respostas dos críticos a Francis. José Guilherme Merquior deixou-o no chinelo. As críticas de Caio Túlio Costa eram, só em parte, pertinentes. A polêmica com Rogério Cezar de Cerqueira Leite não foi publicada, possivelmente porque o encanecido físico permanece no Conselho Editorial da “Folha”.

Francis ressalta obra de Jorge Amado, Joyce e Nelson Rodrigues

No ensaio “Romance — uma saída para o populismo literário de Jorge Amado”, no qual examina uma crítica de Ferreira Gullar ao romance “Tieta do Agreste” publicada na revista “Veja”, em 1977, Francis revaloriza o escritor baiano num momento em que estava sob fogo cerrado de parte da crítica, por ser “adepto” do realismo socialista”. O best seller foi transformado em novela de sucesso da Globo. O jornalista diz que Amado, “o profissional absoluto”, tem uma “obra” e “a defende em todas as frentes”. Como Gullar se refere a James Joyce, cuja prosa evidentemente é muito diferente da literatura de Amado, Francis comenta a escrita do irlandês.

Como de hábito exagera: “... qualquer pessoa com bom conhecimento da ‘Odisseia’ e da língua inglesa lê ‘Ulisses’ num dia de leitura”. Nada mais falso, pois o romance é complexo e exige paradas, até para consultar alguma obra de apoio ou refletir. Amado pode ser lido de um fôlego, quanto a Joyce, se o leitor fizer o mesmo, perderá o fôlego e a oportunidade de entender sua prosa. “A estrutura de ‘Ulisses’ é de romance vitoriano, cheia de entrechos e subentrechos. O que há de difícil é a invenção de linguagem do autor, de uma riqueza jamais igualada”, nota Francis. A fruição dessa linguagem, se o leitor não é especialista, talvez mesmo que seja, precisa do amparo de Richard Ellmann, Stuart Gilbert, citados por Francis, e outros críticos. Ao contrário do que nota Francis, Joyce é para ser lido e, sobretudo, estudado. Não dá para lê-lo como se ler a prosa linear de Amado e Graciliano Ramos.

Numa prova de que leu os analistas de Joyce, Francis escreve: “A gênese de ‘Ulisses’ é a reação do autor contra o ‘supramundo’ que os jesuítas lhe ensinaram, que ele sabia visceralmente falso, e a mistificação política irlandesa, sacramentada na destruição de Parnell pelo clero e na hipocrisia católica”. Quem não leu Ellmann, Gilbert e Burgess, entre vários outros, dificilmente entenderá a síntese de Francis. “‘Ulisses’ é em última análise o mais profundo mergulho no inconsciente do ser humano que já foi descrito desde ‘A Interpretação dos Sonhos’, de Freud. Joyce sentiu que a linguagem literária em vigor, fruto das vulgaridades da Revolução Industrial, tipificada por Arnold Bennett, jamais lhe permitiria tal pesquisa. Daí inventou gloriosamente a própria. E justapõe o artista, o marginal, Stephen Dedalus, ao burguês, Bloom. Elitismo em quê? A linguagem, repito, foi produto da recusa de Joyce de entrar na retórica típica da época, que destruíra Parnell, ou de aceitar a transcendência do real que os jesuítas lhe ensinaram. Joyce, certamente, não prisma sua visão pelos fracos e oprimidos, como Amado faz e [Ferreira] Gullar aprova.”

No mesmo ensaio, Francis diz que Amado, “a partir de ‘Quincas Berro d’Água’, 1958 ou 1959, começou discretamente a despir a camisa de força do ‘realismo socialista’ e a dar vazão às fantasias, à molecagem, ao romance da boêmia, do sensualismo desinibido, que finalmente o tornaram aceitável aos que lhe recusavam a rigidez política de antanho”. A leitura de Francis, da década de 1970, antecipa as críticas hoje mais “compreensivas” e “abertas” à prosa do escritor baiano.

Quando Nelson Rodrigues morreu, em 1980, Francis escreveu que se tratava de uma grande perda para a cultura patropi. “Não temos uma cultura tão rica e variada que possamos desperdiçar gente assim. (...) Um erro cultural grave é afirmar que Nelson revolucionou o teatro brasileiro com ‘Vestido de Noiva’. É uma peça menor, ‘datada’. (...) A revolução veio quando Nelson escreveu ‘Do¬roteia’, ‘Senhora dos Afo¬gados’ e principalmente ‘Álbum de Família’. Foi o período da danação dele. A direita o converteu num pornógrafo.”

Francis, crítico de teatro, estende-se sobre Nelson: “Se ‘Doroteia’ é uma comédia noire, sem paralelo na nossa dramaturgia, comédia que hoje seria chamada de ‘do absurdo’ (e Nelson precedeu Ionesco, Be¬ckett e Pinter)”. O estilo de Nelson, na versão de Francis, “é uma mistura do coloquialismo carioca e lilt, um alto sonoro que Nelson trouxe na carne de Pernambuco, de uma sociedade bem mais feudal que a do Rio e São Paulo”.

Nelson, segundo Francis, “escreveu cerca de 30 crônicas. O resto é repetição”. Ainda assim, o que Francis não diz, são, quase todas, hilárias e inteligentes. “Detestava o comunismo porque este previa uma sociedade organizada logicamente. E Nelson odiava lógica por definição.” Francis simplifica, pois Nelson abominava o comunismo também devido ser contrário ao totalitarismo, à falta de liberdade. O que ele escrevia, que chocava a moral dominante, não seria perdoado num regime comunista do estilo soviético. Não se trata de lógica, e sim de política.

Caetano Veloso disse que jornalista era bicha travada

Caetano Veloso, que chamou Paulo Francis de “bicha travada”, merece um artigo meio jocoso, “Caetano, pajé doce e maltrapilho”. “Caetano é um compositor de talento, ainda que não crie músicas que sobrevivam sem ele, como Tom Jobim e Chico Buarque fazem. E é na minha opinião um cantor que sabe como ninguém unir e valorizar ritmos brasileiros e subprodutos populares que vieram do cool jazz e do bebop”, nota Francis, de novo, num julgamento apressado, porque, primeiro, Caetano não morreu — Francis escreveu o artigo em 1983, há quase 30 anos — e continua produtivo. Segundo, como dizer que sua arte não sobrevive sem ele, se está vivo? Francis tem razão num ponto: Caetano parece desconfiar de seu imenso talento e, por isso, cria sempre um espalhafato a mais para promover sua criação artística. Talvez acredite que, para ser revolucionário, em termos artísticos, é preciso ser também “avançado” em termos comportamentais.

O que irritou Caetano foi o fato de que Francis escreve que, ao participar de uma entrevista com Mick Jagger, o artista brasileiro comportou-se como tiete e que o britânico zombou dele. “O pior momento foi aquele em que Caetano disse que Jagger era tolerante e Jagger disse que era tolerante com latino-americano (sic), uma humilhação docemente engolida pelo nosso representante no vídeo.”

Glauber Rocha é apontado como gênio do cinema

Cinema quase sempre foi visto por alguns intelectuais como arte de segunda ou como arte empobrecedora de uma arte maior, como a literatura. Para outros, nem arte é, e sim mero entretenimento. Paulo Francis debochava de muitos filmes e diretores, mas tinha suas admirações, como Glauber Rocha, Woody Allen e Francis Ford Coppola.

No artigo “Um raro brasileiro de gênio”, Francis não economiza admiração. “Glauber tinha gênio. (...) O gênio de Glauber era uma assinatura, que aparecia em tudo, às vezes sozinha, em filmes péssimos, artigos desconjuntados, mas, calma, com paciência, se encontrava a frase e o ‘plano’ cinematográfico que redimiam o caos. E há, claro, os filmes como ‘Deus e o Diabo’, que nos fez, desde o ensaio solitário de Mário Peixoto, ‘Limite’, acreditar que poderíamos ter o melhor cinema; há ‘Terra em Transe’, e há ‘A Ida¬de da Terra’. (...) Não há um diretor de cinema no Brasil que não seja devedor de Glauber Rocha. Somos todos devedores”.

“A maldição criadora, a integridade, está na obra [de Glauber], em que não há compromissos de qualquer espécie, obra que às vezes desaba, mas que sempre tenta ser mais do que aparece na tela e na página escrita. (...) Mas Glauber não conseguia controlar a imaginação anárquica, de que lhe vinha o gênio, mas também o germe da autodestruição, porque vivemos num mundo de especialistas e não de generalistas, vivemos num mundo em que o po¬der dificilmente tolera insubmissão”, escreve Francis, perdoando a adulação do cineasta aos donos do poder, mas fazendo a coisa certa ao avaliar a obra.

“Memorial de Aires é o livro mais bem escrito em português”

“John Updike, um talentoso escritor sem nenhum caráter” é um elogio e uma depreciação. Depois de afirmar que não conseguiu terminar “O Centauro” e que Updike “nada tem a dizer”, embora escreva “com grande riqueza de linguagem”, com “uma facilidade delirante com símiles e metáforas felizes” — que é o que se espera de um bom escritor —, Paulo Francis apresenta o escritor americano como “chatíssimo” (sem demonstrar, a contento, o que assinala). No final do texto, contemporiza: “Talvez Updike seja o primeiro escritor americano que se pode finalmente levar a sério”. Pode ser uma boa frase, uma boa síntese, mas não é verdadeira. Como não levar a sério Melville, Hawthorne, Mark Twain, Henry James, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Faulkner, Ralph Ellison, Saul Bellow, Thomas Pynchon, Don DeLillo e Philip Roth?

Num artigo em que diz que Eugene O’Neil “permanece”, Francis escreve: “Acho o ‘Me-morial de Aires’ o livro mais bem escrito da língua portuguesa”. Ao procurar a explicação, de o romance ser mais bem escrito do que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Grande Sertão: Ve¬redas”, não a achamos.

“A criação de Gore Vidal” é um elogio supimpa ao escritor-historiador americano, mas Francis faz a pergunta apropriada: “Quem sabe se um dia intelecto de gênio se funde totalmente com faculdade criadora?” Gore Vidal é memorialista e crítico literário respeitável, às vezes tão idiossincrático quanto Francis, mas não tem uma prosa literária comparável à de Fitzgerald e à de Faulkner. Seguidor direto ou indireto de Gibbon, Gore Vidal talvez seja mais, no fundo, um historiador da “alma” (ou da “psique”) da elite norte-americana do que um escritor de imaginação poderosa. Seu registro é mais um histórico das ações — americanas, gregas e romanas — do que um exercício imaginativo para recuperar ou restabelecer o espírito de um povo. Truman Capote merece um elogio forte: “... produziu o único romance contemporâneo americano que me parece moderno, como entendo a palavra, ‘A Sangue Frio’”. Em seguida, a crítica comportamental, que nada tem a ver com literatura: “Capote era uma bicha-louca da velha guarda”. O ensaio é um dos melhores do livro, ainda que Francis menospreze, ligeiramente, Saul Bellow.

Os dois principais romances de Francis, “Cabeça de Papel” (1977) e “Cabeça de Negro” (1979), chamaram mais a atenção pela autoria do que pela qualidade literária. No fundo, Francis se imaginava um Thomas Mann brasileiro, o que não era. Tinha cultura, escrevia bem, mas faltava-lhe a imaginação poderosa, e mesmo a paciência para pesquisar e, ao escrever, livrar-se da pesquisa, do escritor alemão. En¬controu seu crítico em José Onofre, que escrevia bem, não há dúvida, mas suas análises da obra de Francis parecem mais elogios de amigo. Irritado, Francis atacou outros críticos, como Davi Arri¬gucci e José Guilherme Merquior. Este chegou a escrever que o próximo romance de Francis possivelmente teria como título “Cabeça de Vento”. Francis atacou-o com virulência. Na ausência de críticos consistentes, que certamente temiam sua pena ferina, Francis se tornou analista de suas próprias obras. Sobre “Cabeça de Papel”, com o pretexto de responder um leitor, escreve, tentando se apresentar como original: “A linguagem é coloquialíssima. Algumas coisas que as personagens dizem, isto, sim, não costumam ser discutidas na nossa literatura”.

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