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POR EM 08/03/2012 ÀS 02:13 PM

O segredo de Karl Marx

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Engels assumiu a paternidade oficiosa de Frederick Demuth, filho do autor de “O Capital” com a empregada doméstica Helene Demuth. A esquerda escondeu a história de 1851 a 1962 para preservar a imagem de Karl Marx

O alemão Karl Marx, que viveu como po­bre e sustentado pelo amigo Friedrich En­gels, um industrial rico, amava sua mulher, Jenny Marx, que, embora sem posses, era de origem aristocrática. Numa carta de 1856, o filósofo e economista escreveu: “Meu querido amor, tenho a imagem viva de você em minha frente, tomo você em meus braços, beijo você da cabeça aos pés, ajoelho-me diante de você e suspiro ‘Madame, eu a amo’. E eu de fato amo você mais do que o Mouro de Veneza jamais amou. (...) Mas o amor de uma querida, isto é, você, torna um homem novamente homem. De fato há muitas mulheres no mundo, e algumas delas são belas. Mas onde encontrarei outro rosto no qual cada traço, até cada ruga relembra as maiores e mais doces memórias de minha vida”. As biografias estão de acordo: Marx e Jenny viveram num am­biente de extrema penúria, às vezes sem dinheiro para comer, pagar aluguel e enterrar um filho, Edgar, de 8 anos, mas se adoravam. Eram cúmplices. Sobre a morte do filho, Marx escreveu a Ferdinand Lassalle: “Bacon diz que os ho­mens realmente importantes têm tantas relações com a natureza e o mundo que eles se recuperam facilmente de qualquer perda. Eu não pertenço a estes homens importantes. A morte de meu filho abalou profundamente meu coração e minha mente e ainda sinto a perda tão vivamente como no primeiro dia. Minha pobre esposa também está completamente abatida”. A carta é de 1855 e mostra um pai amoroso lamentando a morte de seu “único” filho homem. Mas o autor de “O Ca­pital” matou simbolicamente outro filho, Henry Frederick Demuth, o Freddy, e não se conhece algum lamento escrito de sua autoria. Em 1850, enquanto Jenny buscava fundos para a causa socialista do marido, na Holanda, Marx mantinha relações sexuais com Helene Demuth, a Lenchen ou Nim, empregada doméstica da família. Ela tinha 28 anos e Marx, 32. Em 1851, nasceu o garoto Frederick. Numa autobiografia, Jenny escreveu: “No começo do verão de 1851, houve um acontecimento que não desejo relatar aqui em detalhe, embora ele contribuísse muito para aumentar as nossas preocupações, tanto pessoais como outras”. Numa carta enviada a Engels, em 1851, Marx lamentou-se: “Tens que admitir que esta é uma enrascada dos diabos e que estou enfiado até o pescoço no lamaçal pequeno-burguês. Mas, por último, para dar uma feição tragicômica à coisa, há ainda um mystère que te revelarei agora em très peu de mots [em pouquíssimas palavras]. Mas interrompeu o relato e esclareceu que contaria a história pessoalmente. “Para pessoas de aspirações gerais não há maior estupidez do que casar e se entregar às pequenas misérias da vida doméstica e privada”, disse, de­pois, para Engels.

Por que Marx não assumiu a paternidade da criança? Pos­sivelmente, sugerem seus biógrafos, porque Jenny era “terrivelmente ciumenta” e, por isso, Marx ficou receoso de uma separação. No livro “Karl Marx: Vida e Pensamento” (Vozes, 525 páginas, tradução de Jaime A. Clasen), David McLellan, professor de teoria política da Universidade de Kent, sustenta que o filósofo “não amava o garoto”. Curiosamente, segundo a biografia “Karl Marx” (Record, 403 páginas, tradução de Vera Ribeiro), do escritor e articulista do “The Guardian” Francis Wheen, “as duas mulheres continuaram a ser parceiras afetuosas pelo resto da vida”.

A trabalhadora Helene “era”, conta Wheen, “uma mulher miúda e graciosa, de ascendência camponesa. Sua eficiência doméstica era impressionante”. “Embora não fosse bonita, ela tinha uma aparência simpática com feições até agradáveis”, relata McLellan. Este conta que era filha de um padeiro e que morava com a família de Jenny, os Westphalen, “desde 11 ou 12 anos de idade”. Era quase uma escrava ou uma serva? Sim, mas se considerava parte da família Marx e a adorava, acompanhando-a até as mortes de Jenny, em 1881, e Marx, em 1883. Nunca os pressionou por causa do filho. McLellan diz que era uma espécie de “ditadora” da casa. Certa feita, interrompeu uma interminável partida de xadrez entre Marx e Wilhelm Liebknecht aos gritos: “Os senhores parem!” Eles pararam, sem retrucar. Na manhã seguinte, Liebknecht recebeu o aviso, por meio de Helene: “A sra. Marx pede-lhe que não jogue mais xadrez com o Mouro [Marx] à noite — quando ele perde o jogo fica sumamente desagradável”. “Liebknecht nunca mais jogou xadrez com Marx”, diz Wheen, pois entendeu que as mulheres mandavam na casa.

Mas o que fizeram com o menino? Primeiro, deram-lhe o nome de Frederick, para insinuar que era filho de Friedrick Engels. Para a família de Marx, exceto para Jenny, que sabia a verdade, Freddy era filho de Engels, que chegou a ser censurado pelas filhas de Marx pela “insensibilidade”. De qualquer modo, na certidão de nascimento de Freddy não constava o nome do pai — só o da mãe, Helene. Depois, entregaram o menino para adoção. Na época, correram boatos sobre o assunto, aos quais Marx rebateu com veemência: “A falta de tato dessa gente é algo colossal”.

McLellan revela que Freddy “foi imediatamente enviado para pais adotivos e não tinha absolutamente nenhum contato com a casa de Marx”. Wheen acrescenta: “O menino foi entregue a pais de criação — provavelmente, um casal de trabalhadores de sobrenome Lewis, na zona leste de Londres. (As provas disso são apenas circunstanciais: o filho de Lenchen trocou seu nome por Frederick Lewis Demuth.)”. A biografia “Comunista de Casaca — A Vida Revolucionária de Friedrich Engels” (Record, 471 páginas, tradução de Dinah Azevedo), de Tristram Hunt, professor da Universidade de Londres, ilumina mais a questão: “Foi Engels quem assumiu a paternidade oficiosamente. Para o bem do casamento de Marx e da causa política mais ampla (não havia nada de que os grupos ‘émigrés’ gostassem mais do que desacreditar os inimigos com escândalos sexuais). Engels permitiu que o filho de Marx assumisse seu nome de batismo e com isso manchou sua reputação. Marx se comportou de modo abominável no tocante à educação de Freddy, despachando-o para ser criado por pais adotivos insensíveis na região leste de Londres. O menino nunca recebeu uma educação decente nem desfrutou o tipo de formação intelectual — as peças de Shakespeare, os piqueniques animados em Hampstead Heath, as brincadeiras socialistas — que Marx deu ao resto da prole”.

Hunt continua: “Freddy passou sua vida profissional como montador e torneiro habilidoso e membro do Hackney Labour Party [Partido Trabalhista de Hackney]. Mais tarde, quando Engels se mudou para Londres e, depois da morte de Marx, contratou Nim [Helene] como empregada, Freddy e seu filho Harry usavam a entrada de serviço para visitar — nas palavras de Harry — ‘um tipo de pessoa maternal’ que vivia ‘num porão’. Mas Engels sempre tinha o cuidado de estar ausente nessas ocasiões”.

Mas como o segredo perdurou por 111 anos, de 1851 a 1962? Porque a família Marx, Engels e os comunistas fizeram o possível para manter o assunto na sombra, às vezes sussurrado, mas nunca exposto publicamente. Wheen diz que se trata de “um dos mais bem-sucedidos casos de encobrimento jamais organizados a bem da causa comunista”. O pesquisador, numa biografia amplamente favorável a Marx, ainda que eventualmente crítica, conta que, em 1962, há 50 anos, o historiador alemão Werner Blumenberg divulgou o documento que revelou a história. Trata-se da primeira divulgação pública, documentada. A carta, escrita por Louise Freyberger, amiga de Helene, em 2 de setembro de 1898, estava no Instituto Internacional de História Social, em Amsterdã. Louise a enviou para o socialista August Bebel.

A carta de Louise descreve a confissão de Engels: “Eu soube pelo próprio General [Engels] que Freddy Demuth é filho de Marx. A Tussy [Eleanor, filha caçula de Marx] me atormentou tanto que fui perguntar diretamente ao velho. O General ficou muito surpreso por ela se agarrar com tanta obstinação a sua opinião. E me disse que, se necessário, eu deveria desmentir o boato de que ele havia renegado o filho. Deves estar lembrada de que eu te contei isso, muito antes da morte do General”.

Louise acrescenta: “Além disso, o fato de Frederick Demuth ser filho de Karl Marx e Helene Demuth tornou a ser confirmado pelo General, dias antes de ele morrer, numa afirmação que ele fez ao sr. Moore [Samuel Moore, tradutor do ‘Manifesto Co­mu­nista’ e de ‘O Capital’], que depois foi procurar a Tussy em Or­pington e contou a ela. Tussy sustentou que o General estava mentindo e que ele mesmo sempre havia admitido ser o pai. Moore voltou a Orpington e tornou a interrogar o General. Mas o velho fincou pé em sua afirmação de que Freddy era filho de Marx e disse a Moore: ‘A Tussy quer transformar o pai num ídolo’”.

“Na véspera de morrer”, diz Louise, “o próprio General pôs isso no papel para a Tussy”. Primeira mulher do filósofo Karl Kautsky e empregada de Engels, Louise escreve, na mesma carta: “O General nos deu (...) permissão para usar essa informação, mas só se ele for acusado de maltratar o Freddy. Ele disse que não queria que seu nome fosse difamado. (...) Ao tomar o partido de Marx, ele o havia poupado de um grande conflito familiar. Com exceção de nós, do sr. Moore e das filhas de Marx (acho que a Laura sabia da história, mesmo que talvez não a tivesse ouvido com exatidão), as únicas outras pessoas que sabiam que Marx tivera um filho foram [Freidrich] Lessner e Pfänder”.

Louise diz que “Freddy tem uma semelhança cômica com Marx e, com aquele rosto realmente judeu e o cabelo negro e espesso, só mesmo um preconceito cego poderia ver nele qualquer semelhança com o General”. Louise afirma ter visto a carta em que Marx informou a Engels sobre o nascimento do filho ilegítimo e sugere que o amigo a destruiu. “Freddy nunca soube, nem pela mãe nem pelo General, quem é realmente seu pai”.

Hunt assinala que apenas Ele­anor, a Tussy, das filhas de Marx, se comoveu com a história do abandonado Freddy. “Talvez eu seja muito ‘piegas’, mas não tenho como evitar sentir que Freddy foi terrivelmente injustiçado durante toda a sua vida”, escreveu, em 1892. Mas, nessa época, segundo Wheen, ela ainda acreditava que Engels fosse o pai de Freddy. Wheen transcreve o trecho da carta omitido por Hunt: “Não é uma maravilha poder olhar as coisas de frente e ver como é raro praticarmos todas as belas coisas que pregamos... para os outros?” Era uma estocada em Engels, não no pai adorado.

“Nos anos que se seguiram [à morte de Engels, em 1895], Tussy tentou desesperadamente reparar o dano fazendo amizade com Freddy, que seria um de seus correspondentes mais simpáticos e nos quais ela teria mais confiança”, anota Hunt. Mas Engels ficou com a má fama de “pai omisso”. Depois de cuidar de toda a família Marx, que praticamente o extorquia, Engels ficou ao lado de Helene, que contratou como empregada, no seu leito de morte, “com um carinho extraordinário”, frisa Hunt. “Juntos passamos sete anos felizes nesta casa. Éramos os dois últimos da velha-guarda da época anterior a 1848. Agora cá estou só, sozinho mais uma vez”, escreveu Engels a Friedrich Sorge. “Depois de enterrar Helene ao lado de Marx e Jenny no túmulo da família em Highgate, Engels caiu em depressão profunda. Aquela morte o privou de mais uma ligação íntima com os Marx, além do tipo de companhia feminina cegamente amorosa e divertida que o encantava.”

Freddy morreu em 28 de janeiro de 1929, aos 77 anos, na In­glaterra, de insuficiência cardíaca. Suas irmãs, Eleanor (fez um pacto com o amante, que não cumpriu o trato e não suicidou) e Laura (fez um pacto com o marido, Paul Lafargue, autor do livro “Direito à Preguiça”), se mataram antes. Lênin foi o orador principal no enterro de Laura (de 66 anos) e Paul (de 69 anos), em 1911. Os amigos, segundo Wheen, lembravam-se de Freddy “como um homem pacato, que nunca falava da família”. Exceto na aparência, era diferente em tudo do pai, que, além de egocêntrico, era tremendamente vaidoso. Mas, com as três filhas, era um doce. Carregava-as nas costas e deliciava-se ao ler as histórias de Shakespeare e outros autores para elas.

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