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POR EM 11/07/2012 ÀS 12:32 PM

O profeta da inovação

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Joseph Alois Schumpeter foi um dos mais importantes economistas do século 20. O mundo globalizado é a face mais visível daquilo que o profeta da inovação pregou há mais de sete décadas

O ritual, toda semana, se repetia: um professor bem-humorado, em trajes elegantes, retirava suas luvas, colocava-as sobre a mesa e começava a falar, magnetizando todos que se punham atentamente a escutar aquele expositor de extraordinária didática.

O respeito dos alunos, a generosidade no trato com os seus discípulos, aproveitando sempre o que de melhor havia neles, enfim, o fervilhar de ideias enchia aquele ambiente repleto de gente brilhante.

À medida que as ideias iam surgindo, ele, no intuíto de registrar o calor das discussões, fazia algo incomum: rasgava pedaços de papel, anotava o que tinha de anotar e colocava os papeis no bolso. Fazia isso repetidas vezes. A cena, toda semana, se repetia: a entrada no recinto, a tirada das luvas, o encher dos bolsos de papeis repletos de informações.

A plateia que tudo testemunhava e de tudo participava, elevando o nível das discussões, não poderia ser de melhor qualidade. Dela faziam parte, por exemplo, alguns que seriam, mais tarde, laureados com o Prêmio Nobel de Economia. Paul Samuelson era um deles, James Tobin era outro, e a universidade não poderia ser outra: Harvard, a melhor do planeta.

O personagem de quem vos falo é o único economista que rivaliza com outro gigante, o inglês John Maynard Keynes, no patamar de maior economista do século vinte: Joseph Alois Schumpeter. É dele que falaremos a seguir.

A vida na Aústria e na Alemanha

Nascido em uma pequena cidade do antigo Império Austro-Húngaro, Schumpeter, filho único, perdeu o pai muito cedo. Isso fez da mãe a pessoa que mais diretamente influenciou a vida do menino Joseph. Certamente, o sonho de sua progenitora — de pertencer à aristocracia austríaca e de que o filho fosse o primeiro em tudo o que fizesse — foi determinante para que o jovem Joseph se destacasse nas rígidas escolas austríacas. E isso não se consegue sem muita, muita inteligência e esforço.

A vida do jovem Joseph nos anos de sua formação foi de aluno que fez história no mais rígido e seleto colégio da Áustria, o Theresianum. O pai do espírito empreendedor se graduou primeiramente em Direito, tendo exercido, por breve período, a advocacia na cidade do Cairo, no Egito. Mas logo se voltou para os estudos da ciência econômica, em um ambiente de crescente industrialização da Áustria e da Alemanha. Nesse ambiente, Schumpeter desfrutou da convivência de dois dos maiores expoentes da psicologia e da sociologia mundial: o austríaco Sigmund Freud e o sociólogo Max Webber, dois de seus habitués, nas acaloradas discussões que tinham pelos cafés de Viena. Certamente, essa convivência foi muito frutífera, pois possibilitou, anos mais tarde, que ele, de maneira absolutamente original, viesse a integrar três visões em uma só: economia, sociologia e psicologia.

Já lecionando em escolas do interior da Áustria, desfrutando de tranquilidade e com tempo suficiente, o jovem Joseph escreveu “Desenvolvimento Econômico”, obra que o tornaria conhecido fora das fronteiras de seu país e seria o passaporte para seu ingresso como professor na Universidade de Graz (ainda na Áustria) e, anos mais tarde, naquela que viria a se tornar sua segunda pátria: os Estados Unidos.

As diversas vidas do profeta inovador Schumpeter foram sem dúvida as de um homem de muitas vidas, que se foram modelando e desfazendo ao longo de sua produtiva existência. Primeiramente, tornou-se um notável professor e conferencista, cujo talento logo o levou a se tornar, aos 36 anos de idade, o mais novo ministro das Finanças, na recém-implantada república austríaca.

Sem ser político (e, portanto, sem jogo de cintura), ele não ficou por muito tempo no cargo. Também pudera: era um ardoroso e imbatível argumentador, que defendia enfaticamente suas ideias. Permaneceu no cargo o tempo suficiente para ter seu talento reconhecido e ganhar participação acionária em um banco que veio a falir.

A partir desse acontecimento, acumula enormes dívidas, muitas originadas nos altos gastos para sustentar seu elevado padrão de vida (influência materna?), ou no convívio com inúmeras mulheres que passaram em sua vida. Mulheres sempre dispostas a fazer tudo por ele, pois foram verdadeiramente apaixonadas pelo profeta da inovação.

Mas esses acontecimentos na vida de Joseph foram, de certa forma, benéficos para ele e para a humanidade. O caráter do gênio inovador, impregnado por um forte sentimento de honra, aliado ao seu notável talento, fez despertar em sua vida uma última e definitiva transformação: voltar-se para sua verdadeira e definitiva vocação: ser um homem da ciência em tempo integral. Foi com os rendimentos provenientes das conferências que proferia pelo mundo afora, aliados aos salários de professor, que o ainda jovem Joseph passou longos dez anos de sua vida honrando dívidas originadas da falência do banco que dirigia.

Já conhecido nos Estados Unidos e exercendo a cátedra na Universidade de Bonn, na Alemanha, Schumpeter é convidado a ministrar palestras nas principais universidades americanas. Em sua estada por lá, além do enorme sucesso, pôde comprovar, viajando para ministrar palestras em 17 das principais universidades americanas, o poder do pensamento inovador e empreendedor. Diga-se de passagem, ainda carente de explicações teóricas que, anos mais tarde, Schumpeter viria a deixar como legado para o entendimento das raízes do sistema capitalista.

As palestras do profeta da inovação eram um sucesso mundo afora. Agora, não só na Europa, onde ele era um nome amplamente respeitado no meio científico, mas via consolidado seu prestígio também nos Estados Unidos e no continente asiático, especialmente no Japão, onde era recebido como verdadeira celebridade. Não era para menos, pois muito do desenvolvimento japonês tem suas explicações na constante inovação preconizada pelo profeta.

Entretanto, Schumpeter tinha vínculos sentimentais com aquela instituição na qual ele e a mulher que mais amou na vida — Annie, a segunda esposa — viveram os anos mais felizes de sua existência: a Universidade de Bonn, seu porto seguro. E ficou lá até a morte das duas mulheres mais importantes de sua vida: Annie, a esposa, e Joanna, a mãe. Carregou a lembrança dessas duas mulheres (suas Hansen, como se referia constantemente a elas, em seu diário) por toda a vida. Mas a vida continuava, e um mundo maior estava à espera desse, que é um dos grandes gênios da humanidade.

Convidado incessantemente para integrar o corpo docente de universidades de ponta, cedeu enfim aos constantes convites de uma delas, na qual foi, por muitos anos, a estrela do Departamento de Economia: a Universidade Harvard.

Schumpeter vira o marxismo de ponta cabeça

De 1936 até seu falecimento, em 1950, a maior sombra que pairou em sua vida foi a do único economista capaz de competir com sua grandeza: o inglês John Maynard Keynes. Ambos se respeitavam mutuamente. Eram conscientes do brilhantismo intelectual um do outro. “É uma das cinco pessoas que mais conhece finanças em todo mundo”, dizia Keynes sobre Schumpeter. E este considerava Keynes “o mais influente teórico de nossa época”.

Ambos publicaram livros que influenciaram significativamente os destinos da humanidade. O sucesso imediato do clássico livro de Keynes, “Teoria Geral do Emprego do Juro e da Moeda”, não só criou os agregados econômicos que originaram os estudos de macroeconomia, mas, sobretudo, forneceu a respostas a de que tanto necessitava um mundo em depressão, como era aquele do pós-Segunda Guerra Mundial. Keynes, em verdade, com a inovadora proposta de intervenção do Estado, salvou o capitalismo da ruína.

Nessa mesma época, Schum­peter publicou um de seus livros clássicos, “Ciclo de Negócios”. Um livro redigido ao longo de sete anos, que, inicialmente, não impactou tanto como o livro seminal, escrito por lorde Keynes, que dava respostas imediatas para um mundo em crise. “Ciclo de Ne­gócios” focava no estudo do capitalismo sob a ótica empresarial, e esse não era assunto para aquele momento em que o mundo acabava de sair da guerra.

Esse fato causou certo desconforto de espírito no profeta da inovação. Inicialmente, Schumpeter elegantemente cumprimentou lorde Keynes pelo “sucesso pessoal de sua influente obra”. Gentilezas à parte, partiu para o ataque fundamentado. Dizia ele que “o livro se aplica a um tipo específico de economia capitalista em depressão”. Logo em seguida, afirma que “a argumentação confunde questões práticas com as científicas, separando os economistas em termos de preferências políticas e não de capacidade analítica”. E diz mais: “A maneira como Keynes explica a relutância das empresas em investir o leva a subestimar o papel da inovação”.

Não restam dúvidas de que naquela época Schumpeter nutria dois sentimentos: um certo aborrecimento pela publicação de um grande livro na hora errada, momento em que o livro de Keynes tinha maior impacto inicial em Harvard. E essa universidade era o templo em que o pai da inovação era, sem dúvida, soberano e muito respeitado seja pelos alunos, seja pelos seus colegas de cátedra. Inegavelmente, Keynes, naquele momento, dava as respostas para um mundo em crise. Mas gênio é gênio. E Schumpeter era um deles. Estava por vir a grande obra de sua vida, que materializava sua visão holística. E essa obra, “Capitalismo, Socialismo e De­mocracia”, ombrearia a influência da maior obra de Keynes.

Trata-se de uma obra inovadora, que funde a experiência do profeta da inovação, integrando a economia, a sociologia e a psicologia em um todo. Nessa obra, Schumpeter vira o marxismo de ponta-cabeça, criticando outro grande profeta do século dezenove, ninguém menos que o alemão Karl Marx.

Critica Marx por ele simplificar o conceito de classes sociais, desconsiderando por completo a capacidade que tem o capitalismo de inovar. Com isso, introduziu na contestação a Marx um conceito inédito até então: o da destruição criativa, conceito inerente ao sistema capitalista. Para o gênio austríaco-tcheco, “a abertura de novos mercados, estrangeiros ou internos, e o desenvolvimento organizacional da oficina ou fábrica artesanal, a U. S. Steel, ilustram o mesmo processo de mutação industrial — se é que posso utilizar esse conceito biológico — que necessariamente revoluciona a estrutura de dentro, incessantemente destruindo a velha, criando uma nova. Esse processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo. É nisso que o capitalismo consiste e é nesse ambiente que deve viver toda empresa capitalista”

Volto à indagação inicial, acrescentando agora mais um nome: o de Karl Marx. Afinal, quem foi maior Marx, Keynes ou Schum­peter? A resposta me parece clara: foram três dos maiores teóricos de primeiríssima grandeza que explicaram o mundo de sua época. Se Marx foi o maior nome do século 19, Keynes foi do século 20. Mas Schumpeter será, sem dúvida, o maior nome do século 21. Que o digam gigantes, como a Microsoft. Que o digam o Google, o Face­book. Que o diga o Vale do Si­lício, na Califórnia. O espetacular desenvolvimento que vêm tendo os tigres asiáticos, alicerçados nas inovações previstas por Schum­peter. Em termos de Brasil, que o digam o Vale da Eletrônica, no Sul de Minas Gerais, a Em­braer, em São José dos Cam­pos, ou o Pólo de Informática do Recife. O mundo globalizado é a face mais visível daquilo que o profeta da inovação pregou há mais de sete décadas. Ele está bem vivo entre nós e continuará vivo. Tem seu lugar cravado entre os maiores gênios que a humanidade produziu.

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