revista bula
POR EM 15/08/2012 ÀS 09:32 PM

O Chalé da Memória, de Tony Judt

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Em “O Chalé da Memória”, Tony Judt faz uma espécie de revisão autobiográfica, na qual o testemunho das suas experiências e das lições que extraiu de sua caminhada são incorporadas à sua maneira de encarar o ofício de historiador

Tony Judt


Geralmente, a maturidade intelectual de­mora a ser alcançada e só chega após uma longa jornada de estudos e experiências pessoais, onde, não raro, pontuam o engajamento e a de­silusão. Tony Judt, historiador in­glês conhecido pelos seus estudos sobre a Europa do pós-guerra, vivia o auge da sua forma mental, após décadas de atividade intelectual incessante, quando recebeu o diagnóstico fatal de uma enfermidade neurológica mo­tora conhecida como doença de Lou Gehrig. Começava um lento calvário pessoal de perda paulatina dos movimentos físicos até o momento final, quando até mes­mo respirar torna-se im­possível sem a ajuda de aparelhos. Longe de entregar-se ao de­ses­pero, Judt dedicou-se ao trabalho de ditar seus últimos trabalhos: uma a­nálise dos desafios do tempo presente (“O Mal Ronda a Terra”), uma reflexão sobre a história recente (“Pen­­­­­­sando o Século XX”) e um be­lo tex­to memorialístico, publicado no Bra­sil pela editora Objetiva com o título de “O Chalé da Memória”.

Num mundo marcado pela fragmentação moral e pela falência das grandes narrativas ideológicas não podemos descartar o apelo à própria memória e à reflexão histórica como guias. Assim como aprendemos dolorosamente na nossa existência pessoal, com erros e desenganos, também as sociedades precisam aprender com sua trajetória coletiva. Consciente destas afirmações, Judt nos entregou um texto co­rajoso no qual o testemunho das suas experiências e das lições que extraiu de sua caminhada são incorporadas na sua maneira de encarar o ofício de historiador.

Filho de uma família inglesa do segundo pós-guerra, Judt viveu a penúria daqueles anos, onde roupas, mobília e comida eram racionadas numa Londres ainda devastada pelos bombardeios alemães. Junto com a experiência da austeridade veio a vivência da solidariedade do povo inglês e o erguimento do Estado de bem-estar social por uma esclarecida elite reformista conduzida por Clement Attlee, o sucessor trabalhista de Winston Chur­chill. A ampla reforma do Estado inglês, conduzida por Attlee, resultou na criação do Serviço Nacional de Saúde, até hoje uma das mais bem sucedidas instituições inglesas. Até o fim de sua vida, Judt manteve intacta a sua admiração pela seriedade moral de Attlee, que viveu e morreu com parcimônia, como um “típico representante da grande era dos reformistas eduardianos: moralmente sério e levemente austero. Quem, entre os líderes atuais, poderia alegar o mesmo — ou mesmo entender isso?”

Para Judt, se “os políticos fossem pintores, Roosevelt seria Ticiano, e Churchill, Rubens. Attlee seria o Vermeer da profissão: preciso, contido — e desvalorizado por muito tempo”. A fidelidade ao le­gado social-democrata do pós-guerra também será tema de uma defesa perene de Judt e objeto de outro de seus livros escritos na fase terminal: “O Mal Ronda a Terra — Um Tratado Sobre as In­satisfações do Presente”, publicado pela Objetiva.

De ascendência judaica, nascido numa família parcialmente assimilada, Judt viveu também a experiência, muito forte em sua geração, de envolvimento com o sionismo. Parte do seu entusiasmo vinha da identificação entre sionismo e trabalhismo, que foi a tônica inicial do Estado judeu. A militância no sionismo de esquerda levou Judt a trabalhar em fazendas coletivas, os kibutz, em Israel, onde os mitos de uma comunidade rural igualitária foram cultivados por várias gerações: “Alguns acreditavam que todos no kibutz deveriam usar uniformes, criar filhos coletivamente, comer e usar (mas não possuir) mobília, utilidades domésticas e até livros idênticos, além de decidir coletivamente a respeito de todos os aspectos de suas vidas, em assembleias semanais compulsórias”. Pouco a pouco, a vivência no kibutz o levou a questionar aspectos decisivos do sionismo, como a atitude com relação aos árabes e àquilo que Judt chama de “solipsismo étnico”. A vida claustrofóbica nas fazendas coletivas, com suas invejas, infidelidades conjugais e maledicências, fazia com que estas comunidades-modelo socialistas se parecessem muito com vilarejos me­dievais: “Israel parecia uma prisão naquele tempo, e o kibutz, uma cela superlotada”. 

Admitido na Universidade de Cambridge, mas já vacinado contra a cultura dogmática imperante na militância estudantil pela sua experiência prática numa “democracia comunitária”, Judt viveu outra circunstância marcante na juventude: a passagem pela École Normale Supérieure, instituição que forma a elite intelectual francesa desde sua criação. Da ENS saíram nomes como Pas­teur, Sartre, Durkheim, Derrida (reprovado duas vezes antes da sua admissão), Berg­son, Rol­land, Bloch, Althusser, Debray, Bourdieu, Foucault e outros tantos. O simples fato de entrar na École já constituía um feito extraordinário: apenas trezentos ungidos se formam a cada ano. Nos anos 1970, época do intercâmbio acadêmico de Judt em Paris, a École vivia o auge do esquerdismo: havia quem propusesse a derrubada da formidável Biblio­thèque des Lettres da instituição, com o objetivo de fazer “tábua rasa do passado”. O brilho intelectual e o radicalismo verbal dos franceses, todavia, não convenceram o futuro historiador inglês, que depois escreveria um livro sobre a intelectualidade francesa no pós-guerra, intitulado “Passado Imperfeito”, publicado pela Nova Fronteira. Vale a pena reproduzir aqui a anedota, tipicamente inglesa, que Judt usa para definir a atitude da intelectualidade “normalien” perante a realidade: um engenheiro foi enviado pelo rei, em 1830, para observar os testes da Rocket, a mais nova locomotiva inglesa. “O francês, sentado ao lado dos trilhos, fez muitas anotações enquanto a pequena locomotiva levava e trazia com eficiência o primeiro trem entre duas cidades. Depois de calcular de forma conscienciosa o que tinha acabado de observar, ele relatou suas conclusões para Paris: ‘O negócio é impossível’, escreveu. ‘Não vai funcionar’. Pronto, ali estava um intelectual francês.” Como discordar?

O futuro historiador teve de trabalhar duro quando jovem. Pri­meiro num cargueiro que operava no mar do Norte, como ajudante na casa de máquinas. Depois como empregado numa olaria em Sussex, em seguida como motorista, entregando tapetes, material de almoxarifado e mantimentos domésticos. Finalmente como cozinheiro num hotel em Cam­bridge até obter uma bolsa que lhe permitiu dedicar-se exclusivamente aos estudos. Judt escapou à inglória fortuna da maioria das pessoas, a de passar a vida em empregos tediosos. Defensor de uma sociedade onde o trabalho deveria ocupar um papel menor, como forma de liberação da criatividade humana, na linha proposta por autores como Paul La­fargue e Domenico de Masi, Judt manteve uma atitude de suspeita para com “especialistas bem pa­gos” que se apressam a dar lições de moral sobre a dependência dos jovens para com a previdência e as virtudes do trabalho duro. “Deviam tentar isso em algum momento”, ironizava.   

A vida acadêmica terminou levando Judt a atravessar o A­tlân­tico, estabelecendo-se nos Estados Unidos. O ex-aluno de Cambridge e da ENS ficou maravilhado com as universidades estadunidenses, o que considerava a melhor coisa daquela sociedade: “Nenhum outro lugar do mundo possui universidades públicas como as americanas”. Logo, numa de suas primeiras viagens pelo interior do país, atravessando um ponto desolado do meio-oeste, “pontilhado de cartazes imensos, motéis e uma fileira de lanchonetes”, deparou-se com a biblioteca da Uni­ver­sidade de Indiana, com 7,8 mi­lhões de exemplares em novecentos idiomas, e, logo em seguida, 150 km a noroeste, após passar por um milharal deserto, encontrou a biblioteca da cidade universitária de Champaign-Urbana, com 10 milhões de exemplares: “Mesmo as menores dessas universidades públicas orgulham-se de coleções, recursos, instalações e ambições que os estabelecimentos mais antigos da Europa só podem invejar”.

Mesmo seduzido pela sociedade norte-americana, Judt manteve uma atitude crítica com relação ao seu novo endereço: “Trata-se de um novo mundo velho, engajado numa autodescoberta permanente (em geral às custas dos outros): um império protegido por mitos pré-industriais, perigoso e inocente”. A vivência numa universidade norte-americana também o conduziria ao enfrentamento com os excessos do po­liticamente correto imperante. Desafiando o puritanismo local, e arriscando até mesmo o seu futuro acadêmico numa instituição norte-americana, apaixonou-se e casou-se com uma de suas alunas, Jennifer Homans, também historiadora.

Nos seus momentos finais, quando a doença já lhe roubava todos os movimentos e até mes­mo a voz, Judt refugiou-se na memória. Recordava um dos momentos mais felizes da sua infância, quando viajou com os pais para um hotelzinho familiar no pequeno vilarejo de Chesières, na Suíça francesa. Preso à imobilidade, Judt viajava mentalmente à porta do chalé e adentrava em seus cômodos: “O bar, o salão de jantar, o de estar, o antigo quadro de madeira para chaves, pendurado sob o relógio cuco, a coleção aleatória de livros debaixo da escada dos fundos, e dali para um dos quartos”. Recordar cada momento no pequeno chalé representava o exercício da memória que precisava para escrever sua curta autobiografia: um lugar mo­desto, mas intenso e humano. Este foi o exercício de lucidez que o livrou do desespero em seus momentos finais. Mais que um livro, “O Chalé da Me­­mória” representa também um ato de valentia e de afirmação da vida. 

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