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POR EM 17/11/2011 ÀS 11:56 AM

Nelson Motta “mata” Glauber Rocha pela segunda vez

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O mentirógrafo Nelson Motta parece acreditar em tudo que lhe contam, desde que contenha exageros capazes de escandalizar e, possivelmente, vender livros

A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.

Depois dos problemas apontados pelo magnífico levantamento de Claudio Leal, verdadeiro serviço de utilidade pública, um leitor entrou em contato com a “Terra Magazine” e apontou mais um, diria o biógrafo Motta, probleminha. O Teatro Castro Alves, no Campo Grande, “foi construído pelo governo Antonio Balbino e, antes da inauguração, destruído por um incêndio”, corrige Claudio Leal. Motta diz que o TCA foi construído pelo reitor da Universidade da Bahia, Edgard Santos. Uma leitura mais criteriosa certamente apontará mais erros, pois há indícios de que, como pesquisador, Motta é desleixado. Ao contrário dos jornalistas Fernando Morais e Ruy Castro, autores de biografias celebradas pela precisão, Motta parece não checar as histórias que recolhe ou, quem sabe, inventa — às vezes atribuindo-as a fontes que, mortas, não podem desmenti-lo.

As correções principais partiram de integrantes da geração Mapa (título de uma revista). O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres é o crítico mais candente. “Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos”, escreveu à Objetiva, ou Não-Objetiva (editoras americanas e inglesas têm o hábito de consertar as barbeiragens de escritores e biógrafos).

Fernando da Rocha Peres é chamado por Motta, na biografia-errata, de “Bananeira”. Mas o cacho foi encontrado noutra freguesia. Pois quem tem o apelido de “Bananeira” é outro Fernando — o jornalista Fernando Rocha. Este, por sinal, garante que nunca deu entrevista ao biógrafo-errata.

João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, é tido e havido como o autor da mais alentada e respeitada biografia do cineasta baiano — “Glauber Rocha, Esse Vulcão” (Nova Fronteira). O livro de Motta — que certamente estava em transe, com os pés fora da terra, quando o escreveu (seria uma psicografia desviante, ou melhor, delirante?) — usa “um anedotário gasto, sem sentido e já desmoralizado”, disse João Carlos à “Terra Magazine”.

Todo malemolente (ou malevolente?), Motta conta que Caetano Veloso, o cantor e compositor baiano, teve um caso com Anecy Rocha, a irmã do diretor de “Terra em Transe”. O biógrafo João Carlos, este sério e criterioso, repara: “Nunca soube que Caetano Veloso, que nem tinha vinculação com nossa geração, nem aparecia em nada que fazíamos, teve algum caso de amor com Anecy. E, se teve, isso é absolutamente irrelevante para a compreensão da vida de Glauber”. Motta diz que ouviu isto de alguém e, portanto, emplacou no livro — sem checar. Teria ouvido a “informação” durante algum sonho? Freud às vezes explica a confusão entre realidade, desejo e fantasia.

Nelson MottaNo livro, Motta garante que ouviu João Carlos e Fernando Rocha Peres. Claudio Leal ouviu a dupla, que diz nunca ter sido entrevistada pelo biógrafo pós-espírita. Motta rebate e garante ter fitas gravadas com os dois, em 1989. Por que não os ouviu de novo, para certificar-se da qualidade de suas memórias, Motta não diz. Pego com a cueca na cabeça, e com ideias fora do lugar, o biógrafo assinala que vai corrigir seus cacos mentais. E se tiver de corrigir o livro inteiro? Não seria melhor escrever outra obra, ou então pedir para Ruy Castro, sempre meticuloso, escrever outra biografia — talvez como ghost-writer?

João Carlos é enfático: “Nunca soube de qualquer tentativa de sequestrar o dono do ‘Jornal da Bahia’, João Falcão, para metralhar Juracy Magalhães ou para pichar um navio espanhol em protesto contra a ditadura de Franco. Tudo isso, se ocorreu, jamais foi comentado entre os membros da geração Mapa, que, afinal de contas, ao lado de Glauber, eram os protagonistas da história, que Nelson Motta não soube contar”. Fernando Peres também diz que o grupo de amigos de Glauber jamais pensou em atacar João Falcão. Guerrinha, citado como possível “terrorista”, garante que jamais participou de reunião para decidir sobre o fuzilamento de Juracy Magalhães. “Nunca existiu!”, frisa. Motta parece acreditar em tudo que lhe contam, desde que contenha exageros capazes de escandalizar e, possivelmente, vender livros. É um marqueteiro da estirpe de Duda Mentonça.

Dizem que a Bahia é dada às coisas do espírito, mas quem se revela mediúnico é Motta. João Ubaldo Ribeiro seria a fonte da história contada no parágrafo anterior. Mas João Carlos contesta: “Não creio que João Ubaldo tenha sido o grande informante do senhor Motta, pois sendo mais jovem não fazia parte de nosso grupo e portanto não pode ter tanta memória”. Fernando da Rocha Peres também sustenta que é falsa a história da “tentativa de pichar o navio espanhol Ciudad de Toledo, ‘atracado a 500 metros do cais’ de Salvador”. O poeta avalia que a história pode ter sido colhida pelo médium Motta numa sessão espírita. Não há outra hipótese.

O cineasta John Ford, o Glauber Rocha do faroeste americano, põe um personagem para dizer, no belo filme “O Homem Que Matou o Facínora”, que, se a lenda é melhor do que os fatos, do que a história, que se imprima a lenda. Pois isto parece ter ocorrido com Motta e, pelo menos aqui, dou-lhe razão, porque a história que contada é muito boa. Um ladrão entrou na casa de Glauber e o cineasta disse: “Calma, mãe, este homem não é um ladrão: ele está é com fome!” O ladrão, irado, gritou: “Não estou com fome porra nenhuma! Eu sou é ladrão!” Guerra Lima e Fernando da Rocha Peres estariam na casa. Guerrinha contesta a história: “O livro é mais ficção do que biografia. Ou estou desmemoriado, ou não estava ali”. Mais do que depressa, Motta diz que suas duas fontes são Glauber e sua mãe, Lúcia. Sintomaticamente, Glauber está morto e não pode ratificar ou retificar a informação do hagiógrafo ou “mentirógrafo”. De qualquer modo, Motta diz que vai retirar os nomes de Rocha Peres e Guerrinha. Mais decente seria tirar o livro de circulação. Porque historiadores do cinema e estudiosos da obra de Glauber, ao pesquisarem sobre o cineasta e seus filmes, acabarão chegando à obra de Motta e, se o fizerem, contribuirão para disseminar e cristalizar erros. A Objetiva não deveria corrigir apenas os erros apontados. Deveria entregar o livro para um especialista, como João Carlos e Ivana Bentes, para uma checagem geral.

Dado a invenções, ou criações pós-modernas, ou adepto da tese de que quem escreve um conto pode produzir um romance, Motta relata, certamente com um riso na sua carantonha de Belzebu, que Bananeira “juntou todos os seus cadernos escolares em um saco de lixo e levou para o cabaré. Diante da turma, amontoou-os na calçada, despejou uma garrafa de cachaça, acendeu um fósforo e flambou o seu passado, sob gritos e aplausos”. Não se sabe se Motta estava bêbado quando escreveu a história, mas Peres “qualifica o relato como ‘mentiroso’. Outros membros da geração também desconhecem a ‘queima’ dos cadernos”. Motta teria interpretado algum de seus sonhos, à luz do espiritismo ou do pilequismo? É possível.

Há indícios de que o “romance” de Motta tem um erro por frase, pois a lista coletada pelos baianos parece nunca acabar. O “prosador” parece não acertar uma. Motta garante que João Ubaldo Ribeiro, o escritor, “primeiro a ser chamado para a redação” do “Jornal da Bahia”, em 1958, convocou os amigos do Mapa, Paulo Gil, Bananeira e Glauber. Na verdade, corrige a “Terra Magazine”, baseada no livro de João Carlos, foi Glauber quem “convocou” os amigos para formar a equipe de repórteres. “Ubaldo nessa época nem se aproximava do grupo”, atesta João Carlos.

Provando que não acerta uma nem mesmo sobre cemitérios, Motta, que envergonharia o almirante Nelson, diz que o poeta Castro Alves foi enterrado no cemitério Quinta dos Lázaros. “Na realidade, o ‘poeta dos escravos’ foi enterrado no cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador.” Quem merece ser enterrado, num dos cemitérios, é a “mentirografia” de Motta.

Quando Glauber e Helena Ignez se conheceram, na Faculdade de Direito, Péricles Diniz Gonçalves, o Pequinho, declamou o poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves. Motta, sem verificar, diz que o poema foi declamado por “Agripino”. Agripino seria algum médium ou espírito rebelde de algum escravo?

A “pesquisa” de Motta é tão ruim, possivelmente feita quando estava de porre, que o “mentirógrafo” erra até a religião de Glauber. O pintor Sante Scaldaferri explicita: “No livro, ele disse que Glauber era batista. Glauber era presbiteriano! Cantava os hinos para a gente. Sempre falei que ele era um homem à procura de Deus”.

Motta diz que Fernando da Rocha Peres trabalhou com o editor Pinto de Aguiar, que apoiou a edição da revista “Mapa”. Na verdade, quem trabalhou com Pinto de Aguiar foi Fernando Rocha. Aliás, Fernando Rocha foi “eliminado” do livro.

O caos é tão grande que, se Dante fosse vivo, certamente levaria sem pestanejar, Motta para o Inferno. Nota a “Terra Magazine”: “A atriz Sonia Pereira, de ‘Mandacaru Vermelho’, é confundida com a escritora Sonia Coutinho”. Motta admite a falha. Como sempre, sugere que os erros são menores, quando não o são. O mentirógrafo tenta desqualificar seus críticos, sugerindo que são personagens menores ante o santo guerreiro Glauber. Ora, não é o que está em questão. Em questão está a insuperável fábrica de erros que se chama Nelson Motta.

Comprova-se o que se imaginava: Nelson Motta não é um pesquisador criterioso. “A Primavera do Dragão” certamente é o pior livro do ano. Aconselho os cautos e, mesmo, aos incautos a não comprá-lo antes de uma faxina poderosa. E se quase tudo estiver errado? Os indícios sugerem que se trata de um livro desastrado do começo ao fim. Mas vai fazer sucesso, devido às histórias escandalosas, contadas no estilo gracioso-sensacionalista dos mentirógrafos.

Tenho até receio de sugerir que verifiquem o túmulo de Glauber, pois certamente o encontrarão bagunçado. O cineasta, se pudesse sairia de lá, com a vara do dragão da maldade, para surrar o risonho Motta. Pelo menos os baianos o surraram verbalmente, com uma verve de primeira. Com seu livro desastrado, Motta tentou “matar” Glauber pela segunda vez e, de algum modo, escreveu a primeira biografia surrealista da história do Brasil, adotando o método confuso. Com as graças de Mendes Fradique.

Nelson Motta, a partir de agora e para sempre, será Nerso MarMotta. 

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