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POR EM 13/05/2011 ÀS 12:09 PM

Livro prova que filme O Poderoso Chefão não é ficção

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Don Michael Corleone O dinheiro da Máfia italiana pode ter origem ilegal — como propina e extorsão e o tráfico de cocaína e heroína. Mas parte do capital é lavado por empresas tidas como idôneas. Pode-se dizer que os negócios lícitos são alimentados pelos negócios ilícitos e vice-versa. Uns irrigam os outros. O filme “O Poderoso Chefão 3” (de Francis Ford Coppola) — inferior aos anteriores, mas, ainda assim, muito bom — retrata a história de Michael Corleone tentando limpar o capital e o nome de sua família. O mafioso tenta se tornar um empresário, poderoso e rico, aceito social e legalmente. Para “purificar” os negócios, cria a Fundação Vito Corleone, doa 100 milhões para obras de caridade da Igreja Católica e tenta comprar a Immobiliare. Um diretor do Banco do Vaticano diz que tem de cobrir um rombo de 700 milhões de dólares e Michael Corleone oferece 500 milhões, desde que a Immobiliare passe para seu controle. O religioso exige 600 milhões. O filho de don Vito Corleone paga, mas acaba por descobrir que foi ludibriado pelos homens do Santo Padre e que, como afirma, “a política e o crime são a mesma coisa”. A “máfia” não está apenas na máfia. Racionalista ao extremo, ao ser enganado por religiosos sagazes do mundo das finanças, o tio de Vincent Corleone (filho de Sonny Corleone), diz: “Quando pensei que estava fora eles me arrastam de volta”. Uma das figuras emblemáticas do filme é Luchesi, “um homem de dois mundos” — uma sugestão a Michael de que não há como sair dos dois mundos na área das grandes jogadas financeiras, ao contrário do que ele pensava. Pois o que parecia ficção literária e cinematográfica tem correspondência precisa na realidade. A Igreja Católica, por intermédio do Banco do Vaticano, lavou dinheiro da Máfia, pelo menos da Cosa Nostra — a milionária, violenta e vingativa organização siciliana comandada pelos chefões Salvatore Riina (mandou matar cerca de mil pessoas) e Bernardo Provenzano.

O livro “Vaticano S. A.”, do jornalista Gianluigi Nuzzi (usou os arquivos do Vaticano, mas não no capítulo sobre a máfia), infelizmente não é detalhado e reserva apenas 16 páginas às relações do IOR (Banco do Vaticano) com a máfia de Riina e Provenzano, os chefões que permanecem presos na Itália, depois de longo reinado de terror e corrupção na Sicília, outras partes da Itália e mesmo no exterior

Nuzzi recolhe trecho de depoimento do arrependido Francesco Saverio Mannoia: “Tinha ouvido Stefano Bontate e outros homens honrados [mafiosos] de minha família dizerem que Pippo Calò, Salvatore Riina, Francesco Madonia e outros do mesmo grupo de Corleone tinham investido somas de dinheiro em Roma por intermédio de Licio Gelli [chefão da Maçonaria italiana], que cuidava dos investimentos e que parte do dinheiro era investido no Banco do Vaticano. Dessas coisas eu falava com Bontate e Salvatore Federico, que eram os executivos de nossa família. Em essência, Bontate e Inzerillo tinham [Michele] Sindona [banqueiro italiano, chamado de o “banqueiro de Deus”], os outros tinham Gelli. No depoimento, Mannoia, o Químico (era refinador de heroína), assegura que o parlamentar italiano Marcello Dell’Utri é “colaborador” da Máfia.

Mannoia acrescentou: “Quando o papa [João Paulo 2º] veio à Sicília [em 1993] e excomungou os mafiosos, os chefes da máfia ficaram ressentidos principalmente porque levavam seu dinheiro para o Vaticano. Disso surgiu a decisão de detonar duas bombas diante de duas igrejas em Roma”.

Antes de Mannoia, o arrependido Vincenzo Calcara depôs aos promotores de justiça Maria Monteleone e Luca Tescaroli: “Acenei ao dr. [Paolo] Borselino [juiz] com a história dos bilhões de liras da Cosa Nostra entregues ao cardeal [Paul] Marcinkus. Não lhe falei de Roberto Calvi [do Banco Ambrosiano, provavelmente assassinado pela máfia, em Londres] porque tinha medo por mim e por ele. O dr. Borsellino me disse que tínhamos de transcrever essas declarações, mas não houve tempo porque a Cosa Nostra o matou. E depois daquela tragédia, quando os magistrados me interrogaram, não falei de Calvi, tinha muito medo, mal haviam matado [o juiz Giovanne] Falcone e Borsellino [mortos em 1992 pela máfia siciliana]. Contei somente a história dos 10 bilhões de liras do capo mafioso Francesco Messina Denaro que levei a Roma ao cardeal”.

Os mafiosos arrependidos contaram sobre as relações entre a Cosa Nostra e políticos italianos importantes, como o ex-primeiro ministro Giulio Andreotti, o chefão da Democracia Cristã, e Calogero Mannino. Totò Riina e Andreotti chegaram a se beijar, como símbolo de uma aliança estreita.

Nuzzi ressalva que as denúncias dos mafiosos sobre as relações entre a máfia e a Igreja Católica são vistas com reserva, sobretudo porque o Vaticano evita a divulgação de documentos e impede depoimentos de seus integrantes.

O banqueiro Roberto Calvi teria lavado dinheiro dos mafiosos sicilianos, mas, na hora do acerto financeiro, teria ficado com o dinheiro, ou com a maior parte. Foi assassinado em Londres, em 1982, supostamente pela Cosa Nostra. A polícia falou em suicídio, mas nem ela acredita nisto. Em 1983, a máfia sequestrou Emanuela Orlandi, filha de um funcionário do Vaticano.

Carlos Calvi, filho de Roberto Calvi, apresenta uma hipótese: “O rapto da jovem Orlandi é uma mensagem destinada a intimidar o Vaticano ao silêncio sobre certas questões muito delicadas, como as de natureza financeira que viram o envolvimento de bancos, da máfia, de partidos políticos. Esses casos obscuros resultarão sempre ligados a nosso caso, à morte de meu pai e ao fim do [Banco] Ambrosiano”.

O juiz Otello Lupaccini endossa a conexão Calvi-Máfia: “Que a máfia tivesse créditos confiados a Calvi transpareceu em vários processos, como é fato que foi Paulo 6º que pôs em contato Sidona, Calvi e Gelli, quando ainda estava em Milão. Mas que a Cosa Nostra tenha ordenado o assassinato de Calvi por não ter conseguido recuperar os 2 trilhões de liras que tinha investido suscita perplexidade. É uma máxima provada pela experiência comum que primeiro a máfia recupera o dinheiro e depois faz o acerto de contas. Por exemplo, fez isso por muito menos com Domenico Balducci, principal investidor da máfia por conta de Pippo Calò. Devia 650 milhões aos grupos da máfia: primeiro o tesoureiro Calò recuperou o dinheiro, depois Balducci foi morto. A outra hipótese plausível é de que a Cosa Nostra tenha eliminado Calvi por interesse outro, como garantia prévia do pagamento da dívida do banqueiro”.

O promotor de justiça Luca Tescaroli segue de perto o que diz o juiz Lupaccini: “Calvi, ao substituir Michele Sindona, acabou por desenvolver uma função de pêndulo entre os velhos e os novos equilíbrios estratégicos que se manifestaram dentro da Cosa Nostra depois da chamada última guerra da máfia. Se Calvi tivesse executado seu propósito de informar os investigadores sobre aquilo que sabia, teria revelado o canal de abastecimento do Banco Ambrosiano representado pelos recursos financeiros provenientes da Cosa Nostra e o destino do fluxo desse dinheiro, incluindo o do financiamento ao sindicato polonês Solidariedade e o dos regimes totalitários da América do Sul, aos quais Calvi fez referência expressa em algumas de suas cartas. O financiamento foi implementado no interesse de uma estratégia mais ampla do Vaticano, voltado para penetrar nos países da área soviética e congelar o avanço comunista na América Latina. A Cosa Nostra e certamente Calò não podiam aceitar que transparecesse e fosse revelado aos investigadores esse tipo de atividade ilegal, voltada para canalizar fluxos de dinheiro da máfia em certas direções, e a atividade de lavagem que era realizada por meio do Banco Ambrosiano”.

O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas), do jornalista John Follain, corrobora as versões apresentadas: “Calvi foi executado pelos corleoneses por não devolver o dinheiro que lhe fora confiado para ser ‘lavado’”. “Calvi estava a reciclar dinheiro proveniente da droga [heroína] para os corleoneses... e foi assassinado porque também ele deixou de inspirar confiança”, conta o livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana” (Edições 70, tradução de Jaime Araújo e João Reins Nunes, 485 páginas), de John Dickie.

Líder da Democracia Cristã operou para a máfia

Vito Ciancimino, prefeito de Palermo (morto em 2003), era um dos homens “legais” da máfia siciliana. “Don Vito representou para Andreotti o ponto de referência na Sicília e, em Palermo, para os capi [mafiosos] de Corleone”, relata Gianluigi Nuzzi. O depoimento do mafioso Tommaso Buscetta, que morou no Brasil, levou Don Vito a ser condenado pela Justiça italiana, “por favorecimento e concurso externo em associação mafiosa”, a 13 anos de cadeia. Seu filho Massimo Ciancimino contou aos promotores de justiça que o pai mantinha negócios com Bernardo Provenzano (preso em 2006, “depois de 43 anos de fuga”. Na sua cabana, a polícia apreendeu uma fita com a trilha sonora de “O Poderoso Chefão 2”), o mafioso que, nos contatos com don Vito, se apresentava como engenheiro e usava o nome de Loverde.

Entrevistado por Nuzzi, Massimo Ciancimino faz revelações sobre a lavagem do dinheiro da máfia pelo Banco do Vaticano. Ele diz que a relações bancárias não era muito complexas: “Por intermédio das amizades que meu pai e sua corrente política [Democracia Cristã] ostentavam dentro do IOR foram abertos dois cofres de segurança no banco do papa. Ambos eram geridos num primeiro momento pelo conde Romolo Vaselli, enquanto num período sucessivo um foi confiado a outro laranja, um prelado do Vaticano, para que meu pai tivesse acesso direto a ele. A estrutura também incluía contas, sempre dentro do IOR, que eram utilizadas para discretas remessas de dinheiro e para pagar os famosos ‘jeitinhos’ para a gestão dos contratos de obras públicas para a manutenção das ruas e dos esgotos de Palermo, confiada ao conde Arturo Cassina, cavaleiro do Santo Sepulcro. (...) As contas, ele as fazia gerenciar tanto por Cassina quanto por Vaselli, o empreendedor que na década de 1970 controlava toda a coleta de lixo da cidade”.

Massimo Ciancimino sustenta que as transações financeiras “em favor de” seu “pai passavam todas pelas contas e cofres do” Banco do Vaticano. “Em seguida”, garante, “depois de encontros com dirigentes do banco, os capitais eram transferidos para Genebra por meio do deputado Giovanni Matta e do saudoso Roberto Parisi, ex-presidente do clube de futebol Palermo. (...) Para meu pai, era um pesadelo manter somas de dinheiro na Itália. Preferia transferi-las para o exterior. (...) Podia-se operar em completa reserva, deixando uma mínima oferta para o banco do papa”.

Do Vito lavava dinheiro para os chefões Provenzano e Salvatore Riina e, segundo seu filho, “financiava muitos prelados”. Massimo Ciancimino revela que seu pai dizia que o IOR, por ficar dentro do Vaticano, protegia o dinheiro de seus clientes. “Ali a atividade financeira era coberta por imunidade diplomática. (...) Meu pai me repetia que” os cofres do IOR “eram impenetráveis porque era impossível levar a cabo uma rogatória no interior do Estado do Vaticano”.

O esquema de corrupção com títulos brasileiros — 29 milhões de reais — merece uma referência rápida, sem nenhuma explicação do que se trata e quais os possíveis brasileiros envolvidos.

Negócios da máfia representam 10% do PIB da Itália

No livro “Os Últimos Mafiosos”, John Follain conta que a Máfia de Corleone (cidade da Sicília) e Palermo (os mafiosos de Corleone conquistaram os negócios da capital siciliana) se tornou poderosa pela violência e pelo volume de dinheiro que acumulou durante décadas. “Ao longo de uma década, o Estado confiscou 4,5 bilhões de libras [12,6 bilhões de reais) de [Bernardo] Provenzano e seus tenentes, porém o chefão não possuía nada em seu nome. Todos os seus bens estavam registrados em nome de nada menos que 400 associados.”

Follain escreve que, em 2006, quando Provenzano foi preso, a máfia cobrava “propina de 70% dos negócios feitos na Sicília e 80% dos de Palermo. Os lucros da máfia e de suas duas organizações irmãs menos poderosas, a Camorra, em Nápoles, e a ‘Ndrangheta, na Calábria, chegaram a 42 bilhões de libras (117,7 bilhões de reais) ao ano — 10,5% do PIB da Itália e mais do que a receita da maior companhia de petróleo e gás natural do país, a gigante ENI. A cifra excluía lucros do narcotráfico, que deveriam chegar a uns 35 bilhões de libras (98 bilhões de reais)”.

Com a prisão de Provenzano, o chefão cerebral e espartano, e Riina, o chefão violento e intuitivo, “os corleoneses”, afirma Follian, “foram derrotados”. “Mas”, insiste o pesquisador, “a batalha contra a máfia está longe de ter sido vencida. Essa batalha, lamentavelmente, não está sendo travada, exceto pelos esforços de uma minoria de promotores e policiais corajosos”. Giovanni Falcone, morto pela máfia, resumiu —“primorosamente”, segundo Follain — “os esforços do Estado contra a máfia: ‘Emocionais, episódicos, inconsistentes. Motivados somente pela impressão criada por um determinado crime ou pelo efeito que uma iniciativa específica da parte do governo terá sobre a opinião pública’”. O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, não parece muito interessado em combater a máfia.

Noutras palavras, o cinema poderá fazer dezenas de filmes sobre a máfia, entre eles, é claro, “O Poderoso Chefão 4”, “O Poderoso Chefão 5”, com este ou outro título. A máfia continua... como a Sicília. Afinal, como disse Falcone, “a máfia é, essencialmente, nada mais que a expressão de um desejo de ordem e do controle do estado das coisas”.

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