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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:23 PM

Lista de compras

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Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico.  

Macunaíma, de Mário de Andrade é o melhor livro da história da literatura brasileira

Listas
de “melhores livros de todos os tempos” não diferem radicalmente das quase sempre infames listas dos “melhores filmes de todos os tempos”. Para julgá-las é preciso ter em mente dois critérios básicos: as ausências óbvias e os absurdos ululantes. A lista de “melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos” divulgada pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado não foge à regra. Apresenta sua previsível carga de ausências óbvias e absurdos ululantes, além de carregar em si a marca inegável do público opinante: estudantes de Letras.
           
A pergunta foi “quais os melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos?”. Analisando o resultado final, ficamos imaginando que o Brasil só produziu ficcionistas e poetas de qualidade, nenhum ensaísta. Até onde entendo, a palavra “autor” indica quem escreve, não necessariamente quem produz literatura. Neste sentido, podemos indicar como “ausências óbvias” ensaios geniais como Casa-grande & Senzala e Visão do Paraíso. Ainda mais estranhamente, não foi classificado àquele que talvez seja o maior livro já escrito no Brasil, em qualquer gênero, Os Sertões: um ensaio que costuma ser classificado como alta literatura.
           
Aprofundando um pouco mais, a lista sugere, equivocadamente, que o Brasil é o país dos ficcionistas. Das dez obras mais votadas, nove são de ficção, sendo sete romances e dois volumes de contos. Apenas um livro é de poesia. E mesmo o único poeta lembrado é questionável. Será Ferreira Gullar superior a João Cabral de Melo Neto, Drummond ou Manuel Bandeira? Estranho! Gullar, um bom poeta, só poderia entrar numa lista de dez se a pergunta fosse “quais os maiores livros de escritores brasileiros vivos?”.
           
Não concordo com Macunaíma no primeiro lugar, mas é um resultado aceitável, dada a importância histórica do livro e, sobretudo, do autor. O que não acontece com a bizarrice que é termos A Paixão Segundo G.H. na frente de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sem discutir os inegáveis méritos de Clarice Lispector, que merece estar na lista, seu imenso número de votos só pode ser explicado pela “moda Lispector” que tem acometido os leitores jovens nos últimos anos. Aliás, onde está Dom Casmurro? Os estudantes de letras se cansaram de discutir o enigma da Capitu e resolveram boicotar o melhor livro de Machado de Assis?
           
Acho que a grande surpresa é a presença de Ariano Suassuna, com O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. E não deixa de ser curioso o fato do popularíssimo O Auto da Comparecida não ter sido lembrado. Provavelmente, os estudantes de Letras consultados não estavam no primeiro período.
           
Quais seriam os absurdos ululantes? Em minha humilde opinião, O Vampiro de Curitiba é o ponto baixo da lista. Também questiono a presença de Os Cavalinhos de Platiplanto. J. J. Veiga, apesar de não ser um bom romancista, escreveu contos seminais, como A Máquina Extraviada, mas não me parece que tenha lugar entre os dez brasileiros de todos os tempos. Rubem Fonseca ou Lima Barreto poderiam facilmente ocupar seu lugar. Mesmo em Goiás, considero Bernardo Élis superior.
           
Não tenho competência suficiente para julgar Catatau, de
Paulo Leminski. Passo a vez. Mas, me pergunto: onde estão Graciliano Ramos e Gerardo de Melo Mourão? E pergunto mais: onde está A Crônica da Casa Assassinada?
           
Talvez tudo se explique pelo fato da lista ter sido encomendada pelo Laboratório de
Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado. As palavras-chave aqui são “opinião pública” e “mercado”. A mesma opinião pública que costuma apontar, por meio de pesquisas via Internet, Maradona melhor que Pelé e Ayrton Senna melhor que Schumacher. Ou seja: “não tem valor científico”. A segunda palavra-chave é “mercado”. Essa lista, portanto, pode ser traduzida como uma possível “lista de compras”. Neste caso, podemos ficar felizes pelo mago highlander Paulo Coelho não ter sido citado. Afinal, se os imortais da Academia o elegeram o que poderia impedir os acadêmicos mortais de seguir o exemplo?  
 

PESQUISA

Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico. 
 

1 - Macunaíma (1928) - Mário de Andrade -
134 citações
 
2 - Grande Sertão: Veredas (1956) - Guimarães Rosa -
123 citações 
 
3 - A Paixão Segundo G.H. (1964) - Clarice Lispector -
118 citações 
 
4 - Memórias póstumas de Brás Cubas (1880) - Machado de Assis -
99 citações 
 
5 - Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) - Ariano Suassuna - 
80 citações 
 
6 - O Tempo e o Vento (1949) - Érico Veríssimo -
77 citações 
 
7 - Poema Sujo (1976) - Ferreira Gullar -
61 citações 
 
8 - Catatau (1975) - Paulo Leminski - 
54 citações 
 
9 - Os Cavalinhos de Platiplanto (1959) - José J. Veiga - 
47 citações 
 
10 - O Vampiro de Curitiba (1965) - Dalton Trevisan - 
36 citações
  
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