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POR EM 04/01/2010 ÀS 01:17 PM

Guerra e Paz: história além da história

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Se ao romance, ou a toda a literatura, cabe o papel de nos trazer um senso de identidade humana, “Guerra e Paz” leva esse ideal a limites poucas vezes alcançados. Tolstói narra as guerras entre o imperador francês Napoleão e as principais monarquias da Europa, dissecando causas, origens e consequências dos conflitos e, principalmente, expondo os homens e suas fraquezas. A riqueza e realismo dos detalhes assim como suas numerosas descrições psicológicas fazem com que seja considerado um dos maiores livros da história da literatura

TolstóiRecentemente a “Revista Bula” publicou uma lista dos cem livros mais importantes de todos os tempos. Chamou de “A lista das listas”. Dentre injustiças ou polêmicas para uns ou outros, ninguém achou loucura que “Guerra e Paz”, de Tolstói, encabeçasse essa classificação. Quem leu o livro de Tolstói pode ter outro predileto. Tenho o meu, e não é o referido volume, mas não há como negar a plausibilidade do posto. À frente de Homero? Sim. De Dante? Sim. Proust? Ok. “Guerra e Paz” é incontestável.

Depois de percorrer as duas traduções brasileiras (Oscar Mendes e João Gaspar Simões), em um intervalo de mais de dez anos entre uma leitura e outra, rendo-me — mais do que quando da primeira visita na tradução de Oscar Mendes — ao encanto dessa obra-prima. Ernest Hemingway, em brincadeira inofensiva, disse: “Comecei devagar e derrotei o Sr. Turguêniev. Treinei e derrotei o Sr. De Maupassant. Lutei dois rounds difíceis com o Sr. Stendhal e fui ligeiramente melhor do que ele. Mas ninguém nunca vai me pôr num ringue com o Sr. Tolstói, a não ser que eu enlouqueça.” Essa obra recupera nos leitores atividade hoje em dia cada vez menos executada: a de acompanhar uma história, de vermos desenvolver ante nós enredo admirável, bem executado em linguagem intensa e viva. Sim, lê-se “Guerra e Paz” por diversos motivos, mas antes de tudo, queremos ler sua história e trama que se apresentam: saber do destino de Pedro, André, da própria Rússia. Mesmo conhecendo o final, os grandes feitos, queremos assistir a como eles serão contados, em que situação se encontrarão Maria e Natasha quando o exército francês sofrer com o inverno e suas tropas estiverem desordenadas na estrada para Smolensk, como reagirá Nicolau Rostov ao incêndio de Moscou, qual reação terá Napoleão ao tomar a capital deserta, abandonada pelo seu povo. Tolstói é um grande fabulador, e encanta tanto pelo que conta, como pelo modo através do qual o faz.

Se ao romance, ou a toda a literatura, cabe o papel de nos trazer um senso de identidade humana, “Guerra e Paz” leva esse ideal a limites poucas vezes alcançados na história. Obra enciclopédica através da qual podemos ver e analisar tudo, espelho da realidade, estilo grave e sábio a emprego da investigação da existência. Obra quase solitária, deve ter, em meio a milhões de romances, uns quatro ou cinco com os quais possa dialogar frente a frente. Para mim, seu maior par — ficando até à sua frente —, é “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, depois podemos falar de “O Homem Sem Qualidades”, de Robert Musil, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e até de “Middlemarch”, de George Eliot. Todos os citados têm em comum grandes personagens, contexto histórico cintilante, enredo grandioso e uma extensão que se casa com a sua imponência.

“Guerra e Paz” é mais que uma obra sobre a Rússia do período das guerras napoleônicas de 1805 a 1812, como costumam pensar aqueles que não o leram ainda. Trata-se de um livro sobre figuras e tipos inesquecíveis no qual vemos igualmente uma análise da aristocracia russa e, do mesmo modo, dos servos dos nobres que viviam, em pleno século 19, numa estrutura social quase medieval. Homogeneamente notamos espalhados pelo enredo histórias de amor, traição, ilusões, problemas familiares de ordem moral e financeira, ensaios nos quais o autor disserta sobre a História enquanto ciência que tem seus pressupostos de verdade e método, e também enquanto narrativa, ao descrever e relatar estratégias e movimentos bélicos dos dois países em confronto. Tece reflexões sobre a ciência histórica ainda quando fala a respeito das figuras históricas e reais do romance, e sobre os motivos da guerra no contexto de uma Europa rendida ante a força de Napoleão. Além disso, seremos espectadores de personagens dignas e nobres, fortes, peremptórias como André Bolkonski, ou frágeis e infantis como Natasha Rostova. Elas se espalham nesse xadrez que é a organização do enredo: se aqui temos um núcleo abandonado em detrimento do aprofundamento de outro, ali teremos a retomada daquele outrora desamparado a fim de unir as pontas das histórias paralelas num único e sólido projeto.

Veremos a dissimulada, vulgar e mundana Helena Kuragina em contraponto com a abnegada Maria Bolkonskaya, e muitas outras personagens que se contrapõem em constante movimento dialético. No meio a uma constelação de figuras dramáticas, devemos incluir Pedro Bezukhov, protagonista do livro, contraditória criatura perdida em meio a uma fortuna que lhe garantira ares de nobreza mesmo sem a casta de um nome poderoso na aristocracia, pois era filho bastardo de um nobre dono da maior fortuna do país. Seu ar dramático algumas vezes beira o cômico, tendo seu clímax quando, numa atitude quixotesca, dá cabo a um plano para assassinar Napoleão depois de se dar conta da sua Moscou invadida, abandonada e queimada, às cinzas. Impossível deixar se perder em nossa memória as figuras ficcionais ou as históricas e reais — humanizadas de maneira tão encantadora —, como o general Kutuzov, Czar Alexandre ou até mesmo o controverso Imperador Napoleão Bonaparte, que fala, age, sente, triunfa e declina apaixonadamente.

A maior virtude desse romance é a criação de personagens, fato que impressionou escritores como Virgínia Woolf, Turguêniev e Tchecov. Stendhal comparou-o a Shakespeare ao observar a complexidade psicológica das figuras criadas por Tolstói. Centro-me na criação, digo, ampliação, que faz de Napoleão Bonaparte, personagem real, das mais célebres da História. As cenas em que o imperador francês aparece marcam pela ousadia, seja na exposição da humanidade comum que define essa figura, na análise dos erros que cometeu e da arrogância prepotente que o encerrou durante o conflito com a Rússia, colocando seu papel dramático frente a frente com os historiadores franceses, que sempre o desejaram gênio irredutível, símbolo de uma época. O imperador também serve de mote para diversas reflexões que faz a respeito do que move um povo, do que é o poder, o gênio enquanto conceito, e também o azar.

Ao fim da batalha de Borodino, da qual Napoleão saíra moralmente derrotado (haja vista que o exército russo resistira à invencível tropa francesa, mais bem armada e em maior número), a apresentação do homem histórico feita por Tolstói o coloca nas raias de uma humanidade pertinente a qualquer derrotado, com sua fraqueza, desolação e desejo de paz: “... o peso que sentia na cabeça e a nova de que vinte dos seus generais tinham sido mortos ou postos fora de combate [...] produziu um efeito inesperado em Napoleão. [...] Naquele dia, o pavoroso aspecto do campo de batalha vencera a sua força moral, coisa em que estribava o seu mérito e a sua grandeza. [...] Sentado no seu banco portátil, amarelento, [...] ouvia o tiroteio involuntariamente, de cabeça baixa. Era com febril inquietação que aguardava o fim daquela obra em que participava sem a poder dar por finda. Por momentos prevalecia nele [...] um puro sentimento de humanidade. [...] O peso na cabeça e a opressão que lhe tomava os pulmões faziam-no pensar que também podia sofrer e morrer. Naquele momento não desejava Moscou, nem a vitória, nem a glória.” Ao lermos esse trecho conseguimos dar à figura histórica uma dimensão diferente. Entramos em suas idiossincrasias de homem poderoso imersas nas contradições humanas, comuns.

Essa humanização, essa força de aproximação, lente de aumento, faz-me lembrar de Aristóteles em sua “Poética” ao dizer que “a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por ´referir-se ao universal´ entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu.” Aristóteles em nenhum momento desmerece a História em detrimento da Poesia (nome que se dava a tudo o que era literatura), apenas apresenta a distinção entre uma e outra. O professor Ivan Teixeira, da ECA-USP, escreve que, segundo “os argumentos do filósofo, a poesia imita o universal; a história, o particular. Entende-se daí que ao poeta devem interessar não os fatos em si, mas a estrutura deles; ao historiador, interessam os fatos em sua singularidade”. Para a estrutura de “Guerra e Paz” e criação desse real mais que real, que transborda os limites do fato, Napoleão deveria ter sim sentido todas as fadigas que o acometeram ao ver-se moralmente estremecido na Batalha de Borodino. Se não falta ao narrador de “Guerra e Paz” precisão para cobrir Napoleão com a vergonhosa tristeza íntima da derrota moral, a narrativa mostra-nos o imperador triunfal avistando a capital almejada, conquistada: “Ante a arquitetura extraordinária daquela capital, Napoleão sentiu essa curiosidade inquieta e cobiçosa que costuma despertar o contato com uma existência de que nada sabemos. [...] Napoleão, do alto do monte Poklonaia, percebia o palpitar da vida daquela capital como se sentisse a respiração de um grande e magnífico corpo. [...] ´_ Esta cidade asiática de inúmeras igrejas, Moscou, a Santa. Ei-la enfim, esta formosa cidade. Já era tempo!´ [...] E animado por estes sentimentos contemplava, estendida a seus pés, a beleza oriental que via pela primeira vez [...] achava extraordinário que se realizasse enfim aquele sonho que havia tanto acarinhava e que se afigurara a ele irrealizável.”

Esses e muitos lances heroicos, com ares de epopeia, carregados com um ethos épico, fazem de “Guerra e Paz” também um painel social, humano e filosófico, deixando a este último quesito o ponto fraco da obra, já apontado ao longo dos tempos, fazendo com que ela também apresente alguns poucos (que em nada podem abalar sua importância e grandeza) desníveis problemáticos. Em diversos momentos a narrativa é interrompida para Tolstói apregoar desígnios morais e espirituais, sua forte religiosidade. Uma verdadeira apologia catequizante do que, adiante na vida do próprio autor, seria chamado de filosofia Tolstoísta, ou Tolstoísmo. Essas apelações religiosas são derramadas tanto nos acontecimentos históricos, nos quais a vontade de Deus se faz presente, como nas relações íntimas, familiares e financeiras que guiam o destino das famílias aristocratas.

Se o narrador de “Guerra e Paz” está correto ao afirmar que “não é belo o que é belo, mas sim o que agrada”, esse romance, que é mais que um romance, ultrapassa qualquer classificação didática, como queria o próprio Tolstói ao falar de sua obra. Fixa-se, perene e natural, como apenas as grandes obras de arte, em qualquer área das constituições estéticas, podem se eternizar. Ler “Guerra e Paz” é uma declaração de amor à arte literária, obrigação vital e essencial a qualquer um que se pretenda conhecedor dos limites da criatividade, do talento e do gênio humanos.

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