revista bula
POR EM 25/07/2012 ÀS 09:12 PM

Gabriel García Márquez dissecado

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O ensaísta Enrique Krauze diz que obra do escritor colombiano falsifica a história de sua família, louva o ditador-tutor Fidel Castro e contribui para legitimar o regime comunista de Cuba

Gabriel García MárquezO nobelizado Gabriel García Márquez é uma espécie de Louis-Ferdinand Céline da esquerda. Mas há duas diferenças. Primeiro, o autor de “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada” não fez campanha para liquidar indivíduos ou povos. Segundo, se García Márquez usa subterfúgios para apoiar ditadores, escondendo-se atrás de textos e declarações às vezes ambíguos, Céline era preciso na sua crítica e combate aos judeus. Não sabia fingir. A anuência de Gabo com o regime serial killer de Fidel Castro e do escravo mental deste, Raul Castro, é conhecida. Quando escritores cubanos eram (e são) perseguidos pelo regime comunista, García Márquez silenciava, ao menos publicamente, como no caso do poeta Heberto Padilla. O autor colombiano diz que, em particular, “defendeu” algumas vítimas do regime. Quais, não esclarece, mas é possível que esteja dizendo a verdade. No campo estrito da literatura, não há dúvida que, se não é inventivo como James Joyce, Faul­kner, Guimarães Rosa e mesmo Julio Cortázar, e se não tem uma visão mais abrangente da sociedade, como Mario Vargas Llosa, é um excelente escritor tradicional, um Jorge Amado talvez um pouco mais raffiné ou imaginativo, um fabulista ao estilo de La Fontaine ou, quem sabe, Andersen. “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera” são grandes romances, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, ainda que de escopo diferente — mais naif e menos intelectual — do livro do alemão. São clássicos que se tornaram uma espécie de imaginário coletivo. Vargas Llosa, filho de Flaubert que leu Faulkner, constrói sua obra literária com tanto refinamento que, às vezes, o leitor percebe as pilastras sólidas da arquitetura. García Márquez pratica uma literatura, digamos assim, mais “natural”, “espontânea”. Na verdade, um certo desleixo é apenas aparente, assim como a naturalidade. É fato que parece um escritor menos artificial e mais populista do que o peruano — o que agradou o historiador Perry Anderson. No ensaio “Lembranças tropicais: Gabriel García Márquez”, publicado no livro “Espectro” (prova que a esquerda pode ser inteligente e questionadora), o marxista britânico compara o autor de “Ninguém Escreve ao Coronel” a Vargas Llosa, tentando sugerir certa objetividade, mas desfavoravelmente ao criador de “Conversa na Catedral”. Para uma leitura perspicaz da prosa e do próprio García Márquez, recomendo o ensaio “Gabriel García Márquez — À Sombra do Pa­triar­ca”, inserto no livro “Os Reden­tores — Ideias e Poder na América Latina” (Benvirá, 606 páginas, tradução de Magda Lopes, Cecília Gouvêa Dourado e Gabriel Fe­dericci), do jornalista, ensaísta e historiador mexicano Enrique Krauze, parceiro de Octavio Paz na criação da revista “Vuelta” e professor convidado de Oxford. Como não leu Krauze, a análise das memórias de García Márquez feita por Anderson acaba por ser limitada.

Um dos “problemas” de Krauze é que, em função de seu objetivo — a desmitificação de García Márquez —, examina mais a política do que a literatura e “determina” esta por aquela. O romance “O Outono do Patriarca” não é apenas a história do coronel latino-americano arquetípico. É um exercício, decerto malogrado, de imitação da prosa de Joyce e, sobretudo, de Faulkner. Mas as conexões que descobre, ou refina a partir de outros autores, entre a obra e García Márquez são magníficas. De cara, afirma, com o máximo de elegância possível, que, longe de ser apenas um escritor inventivo, o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” é um mentiroso contumaz. Fica-se com a impressão de que o escritor mau caráter acaba por piorar a obra literária, o que nem sempre ocorre — a prosa de García Márquez continua forte e rica, apesar de sua canalhice pessoal, de sua adoração pelos ditadores, dos quais Fidel Castro é apenas a figura mais simbólica.

Krauze começa contando que, quando menino, seu avô, o coronel Nicolás Márquez Mejía, mostrou-lhe um dicionário e disse: “Não apenas este livro sabe tudo, ele é o único que nunca está errado”. O garoto indagou: “Quantas palavras estão aí dentro?” O avô redarguiu: “Todas elas”. Mejía percebia a linguagem como instrumento de poder, por isso deu um dicionário ao neto, a quem chamava de “meu pequeno Napoleão”. Nas suas belíssimas memórias, “Viver Para Contar” (Record, 476 páginas, tradução de Eric Nepomuceno), García Márquez escreve: “A vida não é o que uma pessoa viveu, mas o que ela se lembra e como se lembra dela, de forma a recontá-la”. O que se sabe é que o autor reforça a mentira como forma de enaltecer o avô, por exemplo. Mejía matou Medardo Pacheco “de forma desonrosa”, pois seu inimigo estava desarmado. Na versão do prosador, Medardo morreu, armado, num duelo. O escritor omite a prisão do avô devido ao crime. Não se está, no caso, fazendo literatura, e sim falsificando deliberadamente a história de dois indivíduos.

O anti-imperialista García Márquez trata a United Fruit Company quase que como um monstro tanto em “Cem Anos de Solidão” quanto em “Viver Para Contar”, mas omite, segundo Krauze, que seu avô, o coronel Márquez, “foi na verdade um dos primeiros beneficiários desse investimento estrangeiro”. A mãe do prosador, Luisa Santiaga, “ansiava pela época de ouro da companhia bananeira”, admite o autor, nas memórias. Santiaga avaliava que, com a empresa, havia um “paraíso”.

Em sua obra, García Márquez apresenta a Colômbia “como uma república de fachada”, o que, afirma Krauze, não corresponde à realidade. “Os colombianos não apoiavam golpes ou ditaduras. Talvez não seja exagero dizer que nenhum outro país da região experimentou de forma mais tenaz a democracia na segunda metade do século XX”. Krauze ressalva que, apesar da democracia, a Colômbia não conseguiu evitar a violência, resultado da “discórdia entre liberais e conservadores”. O ensaísta mexicano descobre aí o desconforto de García Márquez com as ideologias liberal e conservadora, por isso o escritor concorda com uma declaração de Simón Bolívar: “Estou convencido até a medula de meus ossos de que apenas um despotismo capaz pode governar na América”. Krauze ressalta: “Um déspota capaz, um bom patriarca, um novo e anti-imperialista Uribe Uribe se tornaria o ideal de Gabito”. Daí a Fidel Castro foi um passo.

Ao examinar a biografia “Gabriel García Márquez: Uma Vida” (Ediouro, 816 páginas, tradução de Cordélia Magalhães), Krauze diverge do inglês Gerald Martin, que “às vezes exagera a riqueza e a complexidade da educação literária de García Márquez, que parece ter sido limitada a Darío e ao Século de Ouro Espanhol, bastante Faulkner e Hemingway, um pouco de Kafka, um toque de Freud e menos ainda de Mann” (de fato, o índice remissivo da hagiografia apresenta poucos escritores respeitáveis). Martin percebe “Cem Anos de Solidão” como um espelho da América Latina, tese da qual discorda Krauze. “Pelo menos dois elementos essenciais faltam em seu relato fictício: os indígenas e a fé católica.” Octavio Paz não apreciou o romance: “A prosa de García Márquez é essencialmente acadêmica, é um compromisso entre o jornalismo e a fantasia. Poesia aguada. Ele é um continuador de uma dupla corrente latino-americana: o épico rural e o romance fantástico. Não carece de habilidade, mas é um divulgador ou, como chamava Pound, a esse tipo de fabricantes, um diluidor”.

Krauze nota que “O Outono do Patriarca” — sobre um ditador tropical — é o romance preferido de García Márquez. “Sempre acreditei que o poder absoluto é a mais alta e mais completa realização do ser humano”, disse o escritor. “Se ‘O Outono do Patriarca’ provou alguma coisa, é que o sujeito da tirania se encaixa bem com as expressivas exigências do realismo mágico”, nota Krauze. “Ao tornar indistinta a realidade do poder e transformar a ditadura em um melodrama, o romance desumaniza as vítimas e reumaniza o ditador. (...) Há espaço apenas para a consciência do ditador. Tudo acontece através, para e na percepção do patriarca. (...) Depois de retratar o patriarca na literatura, estava na hora de procurá-lo na vida. Martin confirma isso: foi ‘Fidel Castro, o único homem, a figura de seu próprio avô, a quem ele não poderia, não ousaria, nem mesmo desejaria, vencer’.”

García Márquez admitiu que “a lei que proibiu todas as obras criativas que se opõem aos princípios da Revolução” cubana é alarmante, mas sua explicação é igualmente alarmante: “Qualquer escritor que ceda à temeridade de escrever um livro contra a Revolução não tem por que tropeçar em uma pedra constitucional... a Revolução estará madura os suficiente para digeri-lo”. Deveria ter acrescentado: “literalmente”.

A hagiografia escrita por Martin às vezes acerta, aceita Krauze. O biógrafo sugere que “a descrição de Bolívar feita por” García Márquez “foi inspirada em características de Castro, e suas descrições de Castro por sua imagem de Bolívar”. A fusion Bolívar-Castro está no romance “O General em Seu Labirinto”. Fidel se tornou uma espécie de Deus, ou o substituto do avô que morreu cedo,  para o escritor colombiano, cuja canalhice política não diminui o valor estético de sua obra. É provável que, mais tarde, García Márquez se torne um personagem de “Cem Anos de Solidão”. Um Pinóquio criativo, talvez eterno.

Confirmando historiadores e jornalistas, como Andrés Oppenheimer, Krauze diz que o acordo entre Fidel e narcotraficantes colombianos foi estabelecido em 1986. Cuba havia se tornado um entreposto de um dos cartéis da cocaína produzida na Colômbia. No entanto, quando os serviços de inteligência americanos descobriram o fato e alertaram o governo de seu país, e este alertou o governo de Fidel, o ditador, que sabia de tudo, mandou prender os militares e agentes que supostamente cuidavam da relação com o tráfico. Mandou prender e executar o general Arnaldo Ochoa, o popular “herói da Revolução”, e Tony de la Guardia. Ochoa, no caso de uma transição, era o provável sucessor de Fidel, portanto uma ameaça para o anódino e, dizem, descerebrado Raúl Castro, o irmão do ditador. Os irmãos La Guardia, Patricio (condenado à prisão) e Tony, eram amigos íntimos de Fidel. Parentes dos La Guardia pediram proteção a García Márquez, que era íntimo de Tony, e o escritor “os aconselhou a não recorrer a nenhuma organização de defesa dos direitos humanos”. Mas o autor não escreveu ao coronel e Tony foi fuzilado.

A importância de Fidel para García Márquez é tanta que o ditador se tornou uma espécie de seu tutor literário. As palavras são do próprio escritor, assim insuspeitas: “Hoje em dia não publico um livro antes de o Comandante o ler”. A única crítica “literária” que importa, portanto, é a do Stálin do Caribe. George Steiner? Que nada! O realismo “socialite” de Gabo só admite um crítico: o ditador sabe-tudo.

A imprensa europeia sustenta, vez ou outra, que García Márquez (85 anos), imitando seu guru, Fidel, está senil. Sobretudo, por opção, é um gagá moral. Em 2003, quando o escritor não estava doente, surgiu, ou ressurgiu, em Cuba um movimento pelos direitos humanos mais consistente. Fidel, chefe do Judiciário, “sentenciou 78 dissidentes a penas que variavam de 12 a 27 anos de prisão”. Um dos presos “foi acusado de possuir um gravador Sony”. Não contente, Fidel mandou fuzilar “três meninos que tentaram fugir da ilha em uma balsa”. José Saramago, o stalinista português, estrilou: “Aí é até onde eu vou”. Depois, a serviço da “causa”, retirou a afirmação e seguiu apoiando a ditadura. A crítica e escritora americana Susan Sontag criticou García Már­quez: “Ele é o maior escritor deste país [Colômbia] e eu o admiro muito, mas é imperdoável que não tenha se manifestado quanto às mais recentes medidas tomadas pelo regime cubano”. O escritor se tornou cúmplice de Fidel... seu outonal coronel-patriarca.

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