revista bula
POR EM 26/01/2010 ÀS 12:08 PM

Espectros de Bolaño

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Estrela DistanteO corpo de um desaparecido permanece no intervalo entre os vivos e os mortos. Sem a presença material, não pode ser definida sua morte. A ausência, por sua vez, não garante que ainda está vivo. Derrida nota que é essa a condição do fantasma, ideal para pensar a modernidade depois de tudo e o tempo fora dos eixos. Na América Latina, o sujeito que sumiu durante as ditaduras militares é o espectro político que ronda e assusta as sociedades dos países ainda reticentes em acertar as contas com o passado. Nem vivo, nem morto, ele vaga pelas narrativas com uma vitalidade sem igual.

O romance “Estrela Distante”, do chileno Roberto Bolaño, se organiza em torno de desaparecimentos. Corpos que sumiram no Chile após o 11 de setembro de 1973, poemas feitos por um piloto com a fumaça de um avião de acrobacias, exilados que perdem sua identidade ao mudar para outros países, poetas chilenos de quem ninguém mais se lembra (a não ser o narrador). Este narrador vasculha vidas e mortes, porém reconstituiu tudo com incerteza. “A partir daqui, meu relato se alimentará basicamente de conjecturas”, diz o narrador na página 25, para em seguida detalhar histórias por mais 118 páginas.

Bolaño escreve as memórias de um poeta do interior do sul do Chile,  por volta de 1971 e 1972. Nunca se sabe ao certo. Ele faz parte de um grupo de pessoas que freqüentam uma oficina para escritores. Lá, conhece o personagem Alberto Ruiz-Tagle, que assume o nome de Carlos Wieder para escrever famosos poemas com a fumaça de avião. O livro é a tentativa de capturar algo dessa figura fantasmática que se tornou mais inapreensível, sobretudo ao começar a prestar serviços à ditadura de Pinochet. Uma das passagens mais assombrosas é aquela que liga Alberto ao desaparecimento das irmãs Garmendia.

Num de seus vôos performáticos, Carlos Wieder escreveu o seguinte poema: “A MORTE É AMIZADE/A MORTE É O CHILE/ A MORTE É RESPONSABILIDADE” (p. 81). Ao mesmo tempo em que colaborava com a ditadura (será?), ele era capaz de falar que seu país encarnava a morte. Os poemas aéreos se desmanchavam, e ninguém poderia certeza de que aquilo havia ocorrido no céu de Santiago. “Em 1974, as alucinações não eram pouco freqüentes”, aponta o narrador (p. 84), lembrando que o seu relato se dá no intervalo das memórias verdadeiras e fictícias, vida e morte.

Outros personagens têm suas biografias remontadas de modo extraordinário. Os espectros ganham materialidade na escrita de Bolaño. Um deles é o poeta Juan Stein, amigo do narrador: “[Ele] Aparecia e desaparecia como um fantasma em todos os lugares onde havia conflito, em todos os lugares onde os latino-americanos, desesperados, generosos, enlouquecidos, valentes, abomináveis, destruíam e reconstituíam e voltavam a destruir a realidade numa última tentativa fadada ao fracasso” (p. 60). Política e arte de vanguarda andavam lado a lado, abrindo novos espaços — sufocados pelas ditaduras.

O final de “Estrela Distante” é a tentativa de conhecer e saber quem foi Carlos Wieder. A resposta escapa e fica para o leitor imaginar. “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, “um espectro ronda a Europa”, dizia Marx. Morto precocemente em 2003, Roberto Bolaño é também um espectro que circula hoje pela “república mundial das letras”, chegando a ser best seller nos Estados Unidos com um romance de mil páginas, “2666”. Enquanto o Brasil ainda não pode conhecer a escritora chilena Diamela Eltit, inédita por aqui, Bolaño é a melhor notícia da literatura latino-americana nos últimos anos.

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