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POR EM 17/06/2012 ÀS 02:25 PM

Dublinenses “volta” ao Brasil em grande tradução

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A Editora Hedra lança uma competente tradução do livro de contos “Dublinenses” (206 páginas), de James Joyce. A tarefa de verter o texto do escritor irlandês coube a José Roberto O’Shea, também responsável por uma introdução curta mas precisa. Como “bônus”, a editora publica três cartas sobre “Dublinenses”, traduzidas por Alexandre Barbosa de Souza.

A perícia da versão de O’Shea pode ser verificada mesmo por leitores pouco afeitos à prosa inventiva de James Joyce, já presente nos contos. Não se trata, vê-se logo, de uma tradução que “atualiza” o prosador de Dublin, e sim de um texto que “restaura” a originalidade de sua linguagem.

Tradução é, de alguma forma, uma competição, sempre inglória mas necessária, com a obra original. No caso específico, percebe-se que as perdas são mínimas, porque se pode ler Joyce, no português “de” O’Shea, com grande prazer e proveito. O leitor consegue “fruir” Joyce, sua inventividade, ainda não tão radical quanto em “Ulysses” e “Finnegans Wake”.

Noutras palavras, a tradução não diminui o autor do romance “Retrato do Artista Quando Jovem”. Ao contrário, ao recriar sua linguagem, ao torná-la inventiva em português, mas sem excessos não autorizados pelo original, O’Shea nos brinda com um Joyce de primeira. “Falando” português como se estivesse “falando” inglês.

Não resta dúvida: trata-se, a partir de agora, da tradução mais qualificada de “Dublinenses” e, portanto, uma referência.
Recentemente, quando comentei brevemente a nova tradução de “Ulysses” (Companhia das Letras, tradução de Caetano Galindo), agora com “y”, como no original, leitores perguntaram: “Por que uma tradução do romance de Joyce, se já existem duas outras, de Antônio Houaiss e de Bernardina Pinheiro?”

Se fosse um autor convencional, que não impusesse dificuldades de tradução e leitura, talvez não fossem mesmo necessárias três traduções — quatro, se contarmos com a portuguesa (a de Galindo, embora superior, lembra, aqui e ali, como no uso da palavra “roliço” no início, esta versão).

No caso de Joyce, especialmente de “Ulysses”, as traduções são bem-vindas. Com o aprofundamento dos estudos de sua obra (e mesmo de sua vida), com as explicações e esclarecimentos de detalhes antes obscuros, e com a ampliação do conhecimento de aspectos que pareciam suficientemente estudados, mas ainda deixavam dúvidas, uma nova tradução, como a de Galindo, tende a “alargar” o entendimento da prosa do escritor.

Pode-se dizer, então, que, no caso de Joyce, a crítica literária, e mesmo as biografias, é fundamental ao trabalho do tradutor consciencioso — como O’Shea e Galindo.

Joyce, com as novas traduções, está cada vez mais próximo de nós. Permanecendo irlandês, e um homem do mundo que universalizou sua aldeia, Joyce é um pouco mais “brasileiro” ao prosear em português, em traduções ricamente pesquisadas como as de O’Shea e Galindo.

Resta concluir que Joyce permanece um modernista intransigente, refratário à leitura comportada e pedestre (a tradução de Bernardina Pinheiro, ainda que competente, é, às vezes, por demais didática, quase explicativa, reduzindo o impacto de sua oralidade explosiva), e sua leitura é, no mais das vezes, prazerosa e menos difícil do que, à primeira vista, parece. 

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