revista bula
POR EM 30/01/2012 ÀS 09:45 PM

De leitores e leituras

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Já me declarei avesso à contingência de preestabelecer e repassar “programa de leitura” a cada ano que se inicia. Até me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura? 

Faço as perguntas, mas não dou respostas. Deem-nas, a nós, que recorremos a vós, hipotéticos leitores, doutores em letras ou meros curiosos, senão amantes verdadeiros da arte literária, que deixa de ser arte quanto equivocada e desastrosa, por conta de limitações autorais ou de parco talento. De mãos dadas a vaidade e a chatice de professar-se também escritor (“Eu também escrevo”), o diletantismo sem futuro, pífia e patética obra dos equivocados, iludidos na senda pedregosa da literatura. Deles há com insistentes pedidos de prefácio para obras chinfrins, ingênuas porquanto imaturas, quando não alienadas. E se, por isso mesmo, você até se condoer deles, se sentirá mal por algo que não vale a pena. Literatura não é por aí.  

A propósito de equívocos e literatura desastrosa, há pouco recebi e-mail de um  contumaz leitor (vamos chamá-lo de Teotônio), autor de livro e residenteem Goiânia. Atento, perceptivo, por isso mesmo instigante nos seus questionamentos de ordem literária. Veemente em suas posições, ressalta sua aversão aos “modismos e cânones impostos por uma visão distorcida da realidade que nos cerca”. Acentua, por exemplo (tome polêmica), a questão da co-autoria do leitor. Taxativo, afirma que “escrever para leitor co-autor é tão vazio quanto a estúpida reforma ortográfica que só agradou a meia dúzia daqueles velhotes da Academia”. Idiotia sem par, de acordo com Teotônio, é alguém dizer que o autor do texto ou o diretor do filme não deixaram espaço para a co-autoria do leitor ou espectador. 

O leitor Teotônio rebate as “críticas idiotas e antipáticas” de um certo crítico que condena “a tutela exagerada” de Saramago (parece-me que no livro “Claraboia”; mas não sei, ainda não li), confinando a trama à necessidade de total clareza. Isso, de acordo com o crítico, afasta as dúvidas que fazem a boa literatura, sobrevindo como conseqüência imediata “não se dar ao leitor a chance de co-autoria na história, uma das regras ficcionais importantes para uma fruição mais rica da leitura e, de resto, um prazer rápido; livro para ser lido no metrô”. Para Teotônio, isso não passa de outra heresia idiota. E mais ele diz: “Essa peste contaminou a mente de quem escreve hoje em dia, escritor ou crítico. Por isso tem tanto escritor tutelado por essa onda, escrevendo coisas ruins ou péssimas e achando que estão abafando. Até na poesia: dá raiva ler aquelas imagens desconexas e sem rumo na maioria dos poetas mais jovens de hoje.” 

Ainda no ano passado, o escritor e jornalista José Castello publicou, no blog “A literatura na poltrona”, o texto “Mensagem a leitores assassinos”, questionando em que medida os leitores destroem a reputação de um livro, via de leituras apressadas, indiferentes, superficiais. Castello reporta o capítulo LXXI (“O senão do livro”) das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, em que este fala por meio de seu próprio personagem: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…” 

Uma mensagem, segundo José Castello, que atinge em cheio o peito engravatado — ou decotado — do leitor contemporâneo, para quem, em um mundo de imagens, as palavras devem ser como flashes, e mais nada, porque o leitor não dispõe de tempo nem de paciência. “Memórias Póstumas” foi publicado em 1880, há 131 anos, e Castello, a par com Brás Cubas, remonta a questão, a saber se o problema do assassinato de livros não está nos leitores, tantas vezes apressados e pragmáticos. Ah, vamos, acrescente-se aí a preguiça mental, própria de gente inculta. 

Por outro lado, só para constar, um outro escritor e crítico literário, esteem São Paulo, me escreve destacando o mutirão editorial em Goiânia e a excelência de alguns autores goianos. Ressalta “a negligência ou o solene e criminoso silêncio do eixo Rio-São Paulo, que não repercute a formidável política cultural goiana de valorizar o escritor da terra — e não são poucos; e não devem nada a tantos por aí, incensados pela mídia homogênea, pelo mercado, pelas igrejas acadêmicas, pelas panelinhas universitárias, jogando holofotes sobre mediocridades muitas vezes questionáveis”. Isso vale para alguns babacas que ficam aí a denegrir a literatura de Goiás, sem avaliá-la de forma honesta, com vagar e competência, em seus múltiplos aspectos, e sem a baixeza idiossincrática de inconfessas razões. 

Mas, sim, o bendito programa de leitura para 2012. Como eu disse, não o tenho preestabelecido, e com isso não me preocupo. Entre uns e outros, entrei o ano lendo um pouco de tudo, e acabo de adquirir as 1.500 páginas da obra “A Grande Guerra pela Civilização — A Conquista do Oriente Médio”, de Robert Fisk, da qual li as primeiras 40 páginas e vou continuar lendo, por conta do meu interesse e agrado. Robert Fisk, como correspondente do jornal britânico “The Independent” no Oriente Médio, é apontado como um dos melhores repórteres de sua geração e correspondente de guerra sem concorrente, detentor de mais prêmios jornalísticos do que qualquer outro correspondente internacional. Misto de relato de guerra e memórias, seu livro é destacado como obra-prima da aventura e da tragédia, amenizada por observações de humor e compaixão. 

Prosseguirei com “2666”de Roberto Bolaño, que comecei a ler em dezembro passado e ainda estou na página 365, quase na metade de suas 850 páginas. Também estou lendo e vou em frente com “A Casa Soturna”, de Charles Dickens, este também com 800 páginas, e devo avançar um pouco mais com “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, que adquiri em 2011, e são apenas 1.270 páginas. Não sei até onde vou com tudo isso e algo mais (outros livros), neste ano, além de cuidar de minhas próprias e imperfeitas obras literárias, algumas em andamento, outras já publicadas e exigindo reparos. Pretendo ler o que tenho comigo mas ainda não li de Samuel Beckett (de 13 livros dele em meu poder, li apenas cinco); pretendo prosseguir de onde parei com Flaubert, Proust, Kafka, Dostoiévski; pretendo pegar um pouco mais de Machado de Assis. Ainda tenho que começar a ler os quatro volumes de “O Quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrell, do qual li os cinco volumes de “O Quinteto de Avignon”. Iniciei a leitura e sigo em frente com “Seria Uma Sombria Noite Secreta”, romance de Raimundo Carreiro, e com “O Remorso de Baltazar Serapião”, do angolano Valter Hugo Mãe, vencedor, em 2007, do Prêmio Literário José Saramago; livro este elogiado pelo próprio Saramago. 

Tenho para ler mais alguns livros de Carson McCullers, que aprecio, desde os anos 70, juntamente com Katherine Anne Porter e Willa Cather. Dos goianos, comecei a ler e vou avante com os romances “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, de Edival Lourenço; “Vasto Mundo”, de Alaor Barbosa, e “Lygia Entre os Dragões”, de Itamar Pires, além da novela “Gárgula” de Delermando Vieira. Aliás, Alaor e Delermando são dois dos escritores goianos a mim elencados como “excelentes” pelo críticoem São Paulo.Leioos contos do livro “O Suicídio do Véi Chico”, do amigo Dionísio Machado, pela Coleção Goiânia em Prosa e Verso, alentado projeto da Prefeitura Municipal, e tenho para ler vários outros desta mesma coleção. Leio muito e de forma lenta, não me apresso. Sem falar, ainda, na leitura de livros sobre cinema, em função do curso que faço na PUC Goiás, no sentido de embasar um pouco mais minha parca bagagem intelectual. 

Em vias de leitura e algumas já iniciadas, acumulo obras de estudos críticos como “Literatura e Guerra”, vários autores, organizado por Elcio Cornelsen e Tom Burns; “O Livro da Metaficção”, de Gustavo Bernardo; “A Narrativa Literária — Novos Rumos”,  organizado por Edgar Roberto Kirchof e Marione Rheinheimer; “Da fabricação de Monstros”, vários autores, organizado por Julio Jeha e Lyslei Nascimento; “Clarice,”, de Benjamin Moser; “A Verdade da Poesia”, de Michael Hamburger; “Os Ovários de Madame Bovary — Um olhar Darwiniano Sobre a Literatura”, de David P. Barash e Nanelle R. Barash. Estes e outros mais. 

Acabo de receber do cearense Nilto Maciel, meu amigo, o livro de contos “Luz vermelha que se azula”, e vou lê-lo, como já estou lendo os poemas de “O Sol nas Feridas”, recém-chegados a mim, do amigo Ronaldo Cagiano, natural de Cataguases (MG), conterrâneo de Luiz Ruffato, ambos produzindo boa literatura. O amigo Francisco Perna Filho (Chico Perna), poeta, escritor e mestre em Literatura, que retorna do Uruguai, me trouxe “El Oficio de Narrar”, antologia de contos, iconografia e entrevistas com autores uruguaios, concedidas ao jornalista cultural Nelson Díaz. Uma espécie de cartografia em andamento do que por lá se produz no gênero. E paro por aqui, pois, se eu continuar, não paro mais.

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