revista bula
POR EM 16/09/2012 ÀS 07:05 PM

Brasil precisa editar obra-prima de Vasily Grossman

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Está passando da hora de editar no Brasil o livro “Vida e Destino”, do escritor ucraniano Vasily Grossman. Traduzo um trecho: “Entre milhões de casas russas não há nem haverá nunca duas exatamente iguais. Tudo o que vive é irrepetível. É inconcebível que dois seres humanos e duas roseiras sejam idênticos... A vida se extingue onde existe empenho para apagar as diferenças e as particularidades por intermédio da violência.” Grossman teria sido o primeiro a reportar a existência dos campos de extermínio nazistas. Stálin, adepto das teorias conspiratórias, proibiu o livro e confiscou os originais. Não satisfeito, recolheu até as fitas da máquina de escrever do escritor-jornalista.

Stálin, político astuto e atento, percebeu logo o potencial subversivo da obra. Ao falar dos campos de concentração dos alemães, Grossman estava, indiretamente, questionando o Gulag soviético. A conexão, feita por Stálin e seus pares comunistas, não estava de todo errada. O livro não faz apologia do anticomunismo, mas critica a ideia de que é possível construir uma sociedade de iguais, e à força — um dos postulados do stalinismo. O livro do autor russo-ucraniano é um libelo a favor do homem, da liberdade. Direta ou indiretamente, portanto, contra o comunismo. Grossman morreu em 1964, no ostracismo, e não pôde ver seu livro publicado, como Mikhail Bulkágov e seu romance “O Mestre e Margarida”. A primeira edição saiu na Suíça, em 1980, e há edições em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e em várias outras línguas, mas nenhuma no Brasil. A edição portuguesa saiu no ano passado, com 856 páginas, pela Editora Dom Quixote. Pode ser encomendado no site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br). Um aperitivo dos bons é “Um Escritor na Guerra — Vasily Grossman Com o Exército Vermelho (1941-1945)”, organizado pelo historiador inglês Antony Beevor e pela jornalista Luba Vinogradova. Saiu no Brasil pela Editora Objetiva.

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