revista bula
POR EM 05/09/2010 ÀS 05:15 PM

Anotações sobre ‘2666’

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Roberto Bolaño Se me pedissem um resumo de “2666”, com suas 852 páginas, eu responderia citando Carlos Fate: “2666” é sobre “a variedade interminável de formas com que destroçamos a nós mesmos”. Ou ainda: “Um retrato do mundo industrial do Terceiro Mundo, um ‘aide-mémoire’ da situação atual do México, uma panorâmica da fronteira, uma narrativa policial de primeira magnitude, porra”. É um resumo bastante incompleto, por isso aponto abaixo alguns aspectos do livro de Roberto Bolaño — acredite no hype! — que se relacionam às falas de Fate.

Das cinco partes de que é composto, “2666” vale por três. A primeira, cerca de 160 páginas alucinantes sobre quatro acadêmicos que estudam Benno von Archimboldi, a figura-chave do romance monumental. A quarta, sobre a centena de assassinatos das mulheres em Santa Teresa, versão fictícia de Ciudad Juarez — em que pese algumas partes chatas e dispersas. E finalmente a quinta parte, que amarra algumas, não todas, pontas do livro.

Bolaño tem um poder narrativo excepcional e uma capacidade espantosa para a criação de personagens. De certo modo, é como se ele dispusesse de um orçamento infinito para ter à sua disposição os melhores atores da história do cinema, sendo que a maioria deles faz apenas pequenas participações.

O autor de “2666” põe em cena uma ampla galeria de personagens para abandoná-los depois sem necessidade de explicá-los ou retomá-los. É mais ou menos como se Greta Garbo fosse contratada apenas para aparecer tomando um drinque como figurante enquanto Johnny Deep diz uma fala enigmática e desaparece para sempre. De um parágrafo para outro, o foco da narrativa muda, sem garantias de que voltará ao ponto de onde foi cortado de modo brusco.

Esse processo não é novo na obra de Bolaño. Remete, de imediato, para a segunda parte de “Os Detetives Selvagens”, na qual dezenas e dezenas de personagens contam sua ligação com Arturo Belano e Ulisses Lima.

Em “2666”, mais do que em “Detetives Selvagens”, Bolaño abre a narrativa para um sem-número de possibilidades: novos personagens, novas histórias. Assim como a vida, muitas delas não têm explicação, o que pode soar misterioso para alguns, ou simplesmente frouxo para outros.

A ideia de que “nada fica para trás” é central em “2666”, mesmo que o passado não explique o presente, mesmo que a busca seja fracassada ao final. Assim, o papel do escritor se identifica com o de um indagador: “Fazer-se essa pergunta, uma pergunta que não pensava responder de nenhuma maneira, já o deixou feliz, o encheu de uma felicidade que de certo modo o justificava como pessoa e como escritor”.

O papel do leitor, óbvio, é refletir sobre as indagações perpetradas pelo escritor: “é sempre preciso fazer perguntas, e é sempre preciso se perguntar o porquê das nossas próprias perguntas. Sabe por quê? Porque nossas perguntas, ao primeiro descuido, nos dirigem para lugares aos quais não queremos ir. Consegue enxergar o miolo do assunto, Harry? Nossas perguntas são, por definição, suspeitas. Mas necessitamos fazê-las. E isso é o mais foda de tudo. A vida é assim, disse Harry Magaña”.

Roberto Bolaño também discute o papel da escrita e da leitura, reforçando as ideias acima: “A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo, e sobretudo é conhecimento de perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada”.

Numa conversa entre Ingeborg e Reiter, a moça se refere ao fato de as estrelas estarem mortas e continuarem brilhando para nós. A resposta de Reiter é um dos mais belos elogios jamais feitos aos livros: “Um livro velho também é o passado, um livro escrito e publicado em 1789 é o passado, seu autor já não existe, tampouco existe seu impressor nem seus primeiros leitores nem a época em que o livro foi escrito, mas o livro, a primeira edição desse livro, ainda está aqui”.

Um dos temas fundamentais de “2666” é a oposição entre aparência e realidade. Essa discussão ocorre em todas as partes do livro, envolvendo prostitutas, acadêmicos, discos mágicos de brinquedo, letras de bolero, escritores russos, etc. Na quinta parte, depois de contar uma parábola envolvendo essa oposição, agora aprofundada em desejo x realidade, um personagem finca a bandeira ética do romance: “Não se trata de acreditar (na parábola) — disse Ansky, trata-se de compreender e depois de mudar”.

No meio do livro, um personagem faz uma defesa dos chamados tijolos, os livros enormes. No Brasil, Paulo Roberto Pires, editor da Planeta e da Ediouro, afirmou em seu blog que não lê mais tijolões. Num tempo em que a leitura é cada vez mais rara, em que predominam os microcontos, ler um catatau é uma tarefa para poucos mesmo.

2666A decisão do editor de “2666”, Ignacio Echevarría, de publicar a obra em volume único se revelou acertada no final das contas. Mas a extensão do livro, repita-se: 860 páginas, muitas vezes é prejudicada por certo gosto de Bolaño em ‘retardar’ a narração, divertindo-se em fatos supérfluos, dispensáveis, que cansam o leitor e pouco sentido conferem à narrativa.

Se fossemos nos basear numa das propostas de Italo Calvino para a literatura deste milênio — a velocidade — Bolaño não passaria no teste. “Nos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam, a necessidade da literatura deverá focalizar-se na máxima concentração da poesia e do pensamento”, defende Calvino. O que prova que não há um caminho único a trilhar quando se fala em arte.

Quanto ao estilo, Roberto Bolaño gosta de ‘inchar’ o texto, muitas vezes repetindo a palavra quase até o esgotamento ou reiterando a mesma ideia com palavras diferentes, num processo que, na falta de expressão melhor, poderíamos chamar de ‘enumeração tripla’. Um exemplo tirado ao acaso: “chegou a se perguntar seriamente se aquela gente não estava lhe pedindo nas entrelinhas que caísse fora, que parasse de enchê-los, que não voltasse mais”.

Esse inchaço do texto se manifesta em todos os níveis: seja na própria frase; seja nos capítulos; seja nos acontecimentos — é um ritmo de suspense, lento, que vai num crescendo. A informação principal é retardada ao máximo (“as palavras costumavam se exercitar mais na arte de esconder do que na arte de desvelar”, defende um personagem na Parte de Fate). O próprio processo de repetir as palavras como se buscasse se aproximar do objeto, de rodear a coisa na tentativa de fixá-la.

Aqui, entramos no território da ‘coincidência’. Como é óbvio, em algum momento, espera-se que todas as partes do livro se combinem, se iluminem, se respondam. Um personagem que enlouqueceu defende a seguinte ideia: “Meu amigo acreditava na humanidade, portanto acreditava na ordem, na ordem da pintura, na ordem das palavras (...). A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos expostos por nossa própria natureza. A coincidência não obedece a lei, e se as obedece nós as desconhecemos. A coincidência, se me permite a comparação, é como Deus que se manifesta a cada segundo em nosso planeta. Um Deus incompreensível com gestos incompreensíveis dirigidos a suas criaturas incompreensíveis. Nesse furacão, nessa implosão óssea, se realiza a comunhão. A comunhão da coincidência com seus rastros e a comunhão de seus rastros com os nossos”. O que volta ao ponto já discutido: o de que a vida não tem explicação, de que o quebra-cabeça nem sempre se encaixa, de que algumas coisas não têm resposta, apenas acontecem.

Notar também as apresentações dos personagens. Em uma frase Bolaño é capaz de resumi-los, sem gastar tempo e sempre de uma maneira original. O inchaço do texto como contraponto à economia de descrições e apresentações.

Os nomes também são um capítulo à parte. A escolha não parece ser gratuita. Lalo Cura, que já havia participado de um conto em “Putas Assassinas” chamado “Prefiguração de Lalo Cura”, é o mais são e racional dos policiais que investigam os assassinatos em Cidade de Juárez.

A aproximação entre cultura e barbárie. Dito de outra forma, o fato de que a cultura não é garantia de civilização, ou antes: o fato de que a violência é parte da civilização, de que pessoas cultas não estão imunes à prática da violência. Uma cena, em especial, reforça tal ideia — quando dois acadêmicos, a representação da cultura, da tolerância, da ciência ‘par excellence’, agridem um taxista por um motivo estúpido. Daqui, sai uma frase instigante sobre a violência: “Uma mistura de sonho e desejo sexual”. Convém, também, não esquecer a epígrafe, uma citação de Baudelaire: “Um oásis de horror no meio de um deserto de tédio”. Sempre a violência, sempre a cultura.

Não é de estranhar, portanto, a aproximação entre os crimes ocorridos no México e a Segunda Guerra Mundial, com os campos de concentração nazistas. Os leitores brasileiros ficam à espera da tradução de “La Literatura Nazi em America” para aprofundar tal relação.

Bolaño parece trabalhar com a ideia de que a literatura não tem nenhum valor, nenhum poder, diante da barbárie e da violência. Sua obra, no entanto, é o grande contra-argumento sobre o assunto: ao afirmar essa desimportância da palavra em face da violência do mundo, a própria palavra termina por ser uma afirmação dela mesma como arte, visto a excelência de Bolaño como escritor. Se o mundo é um lugar inabitável, somente na leitura do romance o leitor pode sentir-se integrado ao mundo novamente.

Para encerrar, um pensamento de Amalfitano que também é um resumo de tudo que Bolaño se propôs a fazer em “2666”: “Transformava um bárbaro relato de injustiças e abusos, um ulular incoerente sem princípio nem fim, numa história bem estruturada onde sempre cabia a possibilidade de suicidar-se. Transformava a fuga em liberdade, inclusive se a liberdade só servisse para continuar fugindo. Transformava o caos em ordem, mesmo que a preço do que comumente se conhece como sensatez”.

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