revista bula
POR EM 03/03/2011 ÀS 02:21 PM

Programação rebelde de Carnaval

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CartolaPra explicar a importância que a MPB teve na minha infância, basta dizer que eu me chamo Carolina, e  que é sim por causa da música do Chico. Por isso, embora seja relativamente jovem, me incomoda ouvir gente usando Jorge Aragão como exemplo de "samba de raiz". Oi?

Carolina quando pequena ouvia Vinicius e Chico, e queria ser uma cabrocha. Preferia de longe ser a "mais bonita das cabrochas", do que ter os olhos tristes e guardar neles a dor de todo este mundo. Natural, não? Carolina adorava o Carnaval porque podia usar maquiagem e brincos de pressão (só me deixaram furar as orelhas aos 15 anos).

Carolina cresceu e na adolescência tentou, como a imensa maioria dos jovens, usar Carnaval como desculpa pra aprontar. E aprontou. Foi de norte a sul do Brasil com amigos, colegas de escola e amores, aprontando e colecionando histórias, de aventuras e romances de Carnaval. 

Problema que ficou é que hoje, não consigo mais aprontar. To velha. Ou tenho histórias tão incríveis pra contar que  tentar superá-las seria imprudência e risco de vida. Corpo reclama, ressaca moral reclama, o bolso reclama. E eu fico meio contrariada, comparando a realidade atual a esbórnias de "Floripa" e cia., e bate o remorso por estar em casa quando o mundo parece estar por aí acontecendo. 

Quando eu nasci, certos blocos de genialidade já existiam. Diferente dos meus pais, que aguardavam ansiosamente o próximo lançamento do Chico Buarque, ou dos Beatles, ou do Vinicius. Nada disso. Quando eu nasci, a  maioria de todas as músicas que eu amo já estavam gravadas e haviam encontrado reconhecimento.

Cheguei onde eu queria: Meu Carnaval deixou de ser zona, e voltou a ser do samba que lamenta, que não grita, conversa. De igual pra igual. Que te diz pra puxar uma cadeira e se abrir. Ouvir.

Ouvir, sei lá, Cartola.

Então ouviremos Cartola.

A lista começa e termina com O mundo é um moinho, simplesmente porque não existiria como escolher entre o encontro do Cartola e o pai, e a gravação original. Das músicas mais lindas, não só do Cartola, mas do samba. Honestamente, acho muito mais bonita que a mais conhecida, e muito mais regravada As rosas não falam, seguida na lista de Tive sim.

Vem então outra das favoritas: Preciso me encontrar: “Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar. Se alguém for lhe perguntar, diga que eu só vou voltar, depois que me encontrar” .

Seguem então: Nós dois, Peito vazio e O sol nascerá.  "Peito vazio" inaugurou  na minha vida, a filosofia de "Afogar no álcool a sua lembrança". "O Sol Nascerá" e a beleza de se descobrir que mais vale ser velho a sorrir que ter a mocidade e viver chorando.

"Nós dois" é meu hino a solteirice. Sempre bom pensar no que se pretende, e no que se perde ao mudar a dinâmica dos relacionamentos amorosos. Depois, Acontece e  Amor proibido

Corra e olhe o céu, sem maiores explicações:

"Linda! No que se apresenta,
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia"

Pranto de poeta, e meu medo de ninguém chorar quando eu morrer.  E outra vez O mundo é um moinho. E eu ouço, e respiro aliviada que em breve não serei mais o que sou.

A segunda playlist: de cantoras, que embalaram minha infância, cantando sambas.

Comecei por Elis Regina: Folhas secas, Águas de março, O bêbado e o equilibrista e Tiro ao Álvaro. "Folhas secas", minha segunda música preferida sobre a Mangueira. Mas, acabei de fazer você ouvir Cartola, seria lugar comum demais com "Alvorada". Fui de "Folhas secas".

"Águas de março", poesia musicada, simplesmente Tom Jobim interpretado por Elis. Nada original, mas uma música querida, minha despedida preferida do verão.  "O bêbado e o equilibrista"... Eu poderia escrever um texto só sobre esta música. "O bêbado e o equilibrista"  é como "Vai passar" do Chico. Lembro da minha mãe bebendo Campari com tônica, ouvindo Elis e olhando o horizonte.

"Tiro ao Álvaro", me corrija cara leitora se eu estiver errada, na voz da Elis é uma música femininamente 'empowering'. Não tem como cantar e não se sentir instantaneamente mais legal e mais fêmea alfa. Elis era fêmea alfa, certamente.

Seguimos pra Nara Leão: Camisa amarela, Insensatez, Manhã de carnaval.

Nara é uma das minhas melhores amigas. Sabe, a gente se entende. Assim como me entendo com o Vinicius, são meus melhores conselheiros. "Camisa amarela" me faz sorrir, "Insensatez" me faz pensar. "Manhã de carnaval" me faz chorar. Só na voz da Nara.

Astrud Gilberto: Tristeza (Sadness) e Água de beber. Astrud é genial. "Tristeza" é a única música em inglês da lista. Tive que ceder, porque não teria como ficar de fora, e essa é a melhor versão. "Água de beber", na voz de Astrud me curou de um hábito desenvolvido pós romance adolescente desfeito: ouvia na voz do Vinicius e chorava. Astrud me fez fazer as pazes com Vinicius.

Elizeth Cardoso, gravou em 1958 o álbum "Canção do Amor Demais", que traria composições do Vinicius, Tom e o violão de João Gilberto, dando início a Bossa nova. Coloquei na playlist: Mundo melhor e Guardei minha viola (com Jair Rodrigues). Recomendo ouvir e ver: 'classy act'. Nada dessa baderna atual, samba levado a sério.  "Mundo melhor" pra ouvir dezenas de vezes, até absorver a letra. "Guardei minha viola", pra ouvir e adorar de cara, pelo reconhecimento ou conhecimento.

Tá, eu amo Elza Soares. Ela reuniu duas das minhas maiores paixões, na biografia: futebol e boa música. Casada com um violento Garrincha durante anos, foi sem dúvida uma das maiores cantoras do mundo, no seu tempo áureo. Não consigo pensar em samba sem pensar em Elza Soares. Seria uma injustiça deixar ela de lado. Termino então a playlist com Elza:  Mais que nada, e Eu bebo sim. Nunca quero que Elza chegue no final.

Pra terminar, ainda dentro do tema "progamação de carnaval", mesmo não sendo muito animado ou leve, recomendo fazerem o esforço de assistir no YouTube o documentário de 1982 (esta errada a data no vídeo), sobre o morro da Mangueira: "Fala Mangueira!". Incrível. Achei por acaso e assisti 'em uma sentada', impressionante pra entender a Mangueira, o que representa o Carnaval, e a miséria em que vive esse povo que a gente às vezes trata como culpado do próprio destino infeliz.

Pra ver e pensar.

Fica o ato mais transgressor: não escolher entre odiar Carnaval ou voltar a vida adolescente. Carnaval rebelde e bem-comportado.

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