revista bula
POR EM 31/12/2010 ÀS 12:29 PM

Presente de fim (início) de ano

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Quando eu era pequena, bem pequena, e a cozinheira de casa fazia brigadeiros, eu ficava infernizando a pobre, até que ela me deixasse ajudar a enrolar a massa de chocolate. Evidente que eu não queria esperar estar suficientemente fria. Evidente que a manteiga que passavam nas minhas mãos para não grudar a massa na pele, somada à temperatura ainda alta da massa, tornava a moldagem das bolinhas dificílima. Mas eu insistia, e ficava com as unhas meladas de chocolate. 

Depois do começo tortuoso, a massa esfriava um pouco, e eu fazia os brigadeiros mais lindos já vistos na história da humanidade. Tamanho, cobertura de granulado e posicionamento na bandeja, irretocáveis. Até que o tempo passava e eu começava a achar aquilo infinitamente cansativo, e os brigadeiros começavam a crescer, discretamente. Inconsciente tentativa de acelerar o fim da tarefa, e ir brincar no jardim. 

Quando percebia meu cansaço, de sacanagem ou para me ensinar alguma lição, ouvia a voz da cozinheira, dizer depois de rir: "Agora você tem que terminar tudo, não insistiu pra fazer?". Aí os brigadeiros dobravam de tamanho, e eu entrava oficialmente no "modo brigadeiro grande". Seguimos. Fim de ano. Todo mundo pelas ruas fazendo brigadeiro grande. Arrumando malas, comprando comida, presentes, encerrando o ano no trabalho. Todo mundo agitado/ansioso, ainda que disfarçando loucamente essa ansiedade Natal/Reveillon, com o já tradicional "odeio essa época do ano". 

Eu não odeio esta época do ano, odeio gente histérica. Em qualquer época. Fim de ano é só uma boa desculpa. 

Passou o faniquito coletivo. Aqui por São Paulo as ruas estão vazias, as pessoas que ficaram em ritmo mais lento, e o peso do mundo, nesses últimos dias, desaparece. E o verão, e o horário de verão, e a cerveja sem culpa no final da tarde. E a preocupação com o que comer e beber, e a megasena da virada. Realidade paralela, no meu caso, sem mudança de cenário. 

Montei uma playlist. Levei em consideração o ar de férias, o fim das aulas, o calor, as chuvas, a convivência familiar que se impõe, ou a pesada solidão dos avulsos. Explico assim minhas escolhas, quase todas emotivas e pessoais. Músicas que me trazem lembranças, que me dão esperança, que me acalmam. Que me levam instantaneamente a um mundo onde existe livre arbítrio, amor, lembranças, planos, sol, comes e bebes. Vida. 

A lista tem versões de músicas manjadas, e em alguns casos eu ouso dizer, que estou gostando mais das regravações do que das originais. Com essa mania besta das gravadoras de bloquearem a incorporação de vídeos, recomendo que você abra uma janela para reproduzir a playlist abaixo descrita, direto no Youtube e continue lendo. Ou que você leia e depois ouça com calma, ou ouça e leia aos poucos.  

1Romeo and Juliet — The Killers

Entrou porque é das músicas mais romanticamente honestas que existe. Continuação e adaptação da história de Romeu e Julieta, por Dire Straits. Não conhecia essa versão do The Killers. Gostei, e acho que dá um ar jovial. Pega bem e me sinto menos idosa de 30 anos. 

2 — God´s gonna cut you down Johnny Cash

A letra desta é incrível. Johnny Cash tinha uma visão e um tormento interno que transbordam aqui. Total dicotomia e genialidade. 

3 — My father´s gun — Elton John

Digo sempre que Elton John é underrated. Elton John é incrivelmente underrated. "My father´s gun", "Rocket Man" e "Tiny dancer" são obras primas. É claro que existiu uma fase vergonha alheia, mas nada que comprometa o conjunto da obra. Entre as três destacadas, optei por "My father´s gun", basicamente por me identificar com a história, e ter em 2010 compreendido perfeitamente o que significa herdar o material e o imaterial. Saudades do meu pai. 

4 — Golden Slumbers/ Carry that weight/ The end/ Her majesty — The Beatles

Melhor “combo” musical. Mas assim, de longe. "Golden Slumbers" é carinhosa a ponto de quase me fazer acreditar que vai ficar tudo bem. Aí vem "Carry that weight", que depois do consolo e incentivo me lembra de que nosso peso é algo que vamos carregar pela vida toda. "The end" e  "Her majesty", olhos doces e mãos firmes.   

5Bonita — Maysa

Vamos com muita calma nesta hora. Eu sei que você viu a minissérie da Globo, ou ouviu falar. Eu sei que não fica bem curtir nada que apareça na Globo, mas Maysa merece. Poderia fazer aqui uma playlist parênteses só de Maysa e convencer os que estão relutando. Maysa é legal. Sim é cafona, mas é legal. E essa música é do Tom, Tonzino do Vina, meus amores e mentores, aqui nesse mundo desajeitado. 

6Femme Fatale — The Velvet underground & Nico

Já escrevi um texto sobre Nico. Anagrama de "icon", foi rebatizada como Nico por Andy Warhol. O sujeito que para mim inventou muito do que hoje, e sempre, vamos chamar de cool. Nico é cool. Não só as participações  no Velvet Underground, mas também os amores e os tombos. Mulher linda e talentosa, que se recusou a abrir mão da docilidade e fragilidade, e teve a alma esmagada por babacas. A femme fatale da música, é a mulher que as mulheres invejam. Sim, todas as mulheres invejam. E eu invejo Nico. 

7Love me or leave me Nina Simone

Nina Simone, já velha, atirou com uma pistola pneumática, ferindo o filho de um vizinho, porque a risada do menino a incomodava. Quando eu ouço a verdade e dor desta senhora cantando, eu quase consigo defender a loucura dela. Ter um olhar tão claro, e tão intenso, deve ser insuportável.

8Light my fire — Astrud Gilberto

Não gosto de The Doors, me processe. Mas, "Light my fire" me dá coisas. Nunca a versão original. Já inclusive mudei diversas vezes de versão preferida, mas a música segue presente em grande parte das listas que eu faço. Aqui na voz de Astrud Gilberto. Mais relaxada, despretensiosa e ensolarada que esta versão de Astrud,  impossível. É a brasilidade civilizada, com ar condicionado. 

9 — Fly me to the moon — Julie London

Cresci ouvindo Vinicius e Ella Fitzgerald. Isto posto, quero dizer que a versão de Julie London para "Fly me to the moon", é a definitiva. Tem a toada acelerada, o arranjo impecável, a voz deliciosa e traz uma altivez e força feminina que não achei em nenhuma outra versão. Coisa de fêmea alfa. Total. 

8Perhaps, perhaps, perhaps — Doris Day

Doris Day é das mulheres mais incríveis que moram no meu iPod. Acho que ela, e Judy Garland, que ficou de fora desta playlist simplesmente porque combina muito mais com o outono do que com o verão. "Perhaps, perhaps, perhaps" ficou conhecida, para a minha geração, na voz e arranjo do Cake. Mas a grande reviravolta na história da original "Quizas, quizas, quizas" foi na voz de Doris Day, que pegou o touro pelos chifres, e intimou seu objeto na canção a se decidir, num tempo em que não muitas mulheres faziam isso. Acho válido e importante: assertividade na conquista, nos amores de verão. Que as pessoas se resolvam logo, e se joguem em casos, amores, paixões e histórias que não precisam "subir a Serra". 

9It don´t mean a thing — Ella Fitzgerald

Chegou a hora de falar de excelência. Ella Fitzgerald, Stan Getz, Count Basie. Jazz: música das mentes inquietas e corações rebeldes. Acho que tirando a voz da minha mãe, a segunda voz feminina que me traz memórias mais antigas e mais queridas é a de Ella Fitzgerald. 

10All the things you are — Ella Fitzgerald

Não consegui escolher entre as duas, nem teria porque escolher. "There´s no such thing as too much Ella Fitzgerald". As aspas, no caso, são porque esta frase um dia vai estar em um filme. No filme da minha biografia.  

Fique à vontade para incorporar as que mais agradarem à sua biografia. Não importa que as músicas sejam indicação de outra pessoa, e não descobertas pessoais. A parte que importa é que a biografia seja interessante, e tenha histórias de verões inesquecíveis. 
 

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