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POR EM 02/01/2011 ÀS 04:21 PM

Livros que merecem edição brasileira

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A minha lista de livros que deveriam ser publicados é penelopiana. Por conta do espaço, indico apenas 15 livros que devem ser descobertos pelas editoras brasileiras
 
A Destruição dos Judeus Europeus, de Raul Hilberg,1 — “A Destruição dos Judeus Europeus”, do alemão Raul Hilberg, é um clássico. Há boas edições em inglês (tenho a versão condensada) e em espanhol. Depois de Hilberg, novas pesquisas foram feitas, é claro, mas ele é o ponto de partida seguro para se entender o que aconteceu com os judeus. Ele próprio judeu, é rigoroso e nunca exagerado nas cifras sobre judeus mortos pelos nazistas. O historiador foi fundamental para estabelecer que aproximadamente 6 milhões de judeus foram assassinados pelo governo de Adolf Hitler. O escritor Halley Margon V. Jr. sempre cobra a edição deste livro. 
 

 

 

 

 

 

Ponto Último e Outros Poemas, de John Updike2 — “Ponto Último e Outros Poemas”, de John Updike, saiu em Portugal, em 2009, com tradução de Ana Luísa Amaral. Updike era o homem de cultura completo: desenhava, criticava seus pares (com elegância e inteligência), escrevia ensaios notáveis (um deles sobre Machado de Assis) e se tornou um dos maiores prosadores americanos, comparável a Nathaniel Hawthorne, Henry James e Saul Bellow, e um analista primoroso da moral e do modo de vida da classe média. No Brasil, porém, o poeta, dos bons, ainda que sem o fôlego de Marianne Moore e Wallace Stevens, permanece inédito.









 
Diários 1984-1989, de Sándor Márai3 — “Diários 1984-1989”, do escritor húngaro Sándor Márai, não tem tradução brasileira nem portuguesa (li a edição espanhola). Escritor inquieto, Márai é um prosador de grandes méritos e chegou a escrever sobre a Guerra de Canudos. Nos diários, fala de sua mulher, Lola Matzner, com quem viveu 62 anos. Com sua morte, Márai desmoronou. Nos “Diários”, numa anotação de 1988, diz: “Estou totalmente só”. Conta que quase não consegue andar, só o faz com bengala, e enxergar. “Só posso ler um quarto de hora. (...) Nada de sexo, nem em sonhos”. Na última anotação, diz que está pronto para morrer. “Chegou a hora.” Ele se matou em 1989.
 

 

 

 

 



John Kennedy — Uma Vida Inacabada, de Robert Dallek4 — “John Kennedy — Uma Vida Inacabada”, de Robert Dallek, é uma das mais atualizadas biografias (a Jorge Zahar deve publicá-la) do presidente americano, assassinado aos 46 anos. Há detalhes que não figuram em algumas biografias, como suas leituras de infância. Jack lia “Sinbad, o Marinheiro”, “Peter Pan” e “Black Beauty”. “Os seus preferidos eram ‘Billy Whiskers’ — as tribulações de um bode que viajava por todo o mundo e que ‘Jack achava imensamente interessantes’ — e ‘Reddy Fox’, um dos vários animais envolvidos numa série de aventuras simples mas excitantes.” Lia Walter Scott, biografias e romances históricos. “Releu ‘O Rei Artur e a Távola Redonda’.”
 

 

 

 

Irmãos — A História Oculta dos Anos Kennedy, de David Talbot5 —   Um livro esplêndido, à espera de tradução, é “Irmãos — A História Oculta dos Anos Kennedy” (li a versão da Casa das Letras, de Portugal), do jornalista David Talbot. Há uma tendência a superestimar o poder da Máfia, nos Estados Unidos, ao se avaliar que pode ter encomendado o assassinato do presidente John Kennedy. Talbot não subestima nem superestima o poder de fogo da Máfia. Mas reconstrói, minuciosamente, como a CIA e o Pentágono se colocaram praticamente como oposição política ao presidente. Militares chegaram a cogitar a destituição de Kennedy. Os Estados Unidos quase se tornaram uma República de bananas.
 

 

 

 


 

Emily Brontë, de Winifred Gérin6 — Emily Brontë, ótima poeta, ficou mais conhecida por causa do romance “O Morro dos Ventos Uivantes”. Vibrante, a obra sobrevive muito bem e é, portanto, um clássico. Falta publicar a poesia, que saiu no Brasil, de forma esparsa, há muitos anos. “Emily Brontë” (tenho a edição espanhola, da Atalanta, com tradução de Ana Becciu), da alemã Winifred Gérin, é uma porta de entrada segura à vida da escritora inglesa. Gérin mostra que, na infância, as irmãs Brontë leram livros decisivos, influenciadas pelo pai, e tinham uma forte ligação com a natureza. Alguns episódios da infância e da adolescência foram levados para o romance.
 

 

 

 


 


Kavafis — Una Biografía, de Robert Liddell7 — Os leitores brasileiros têm muita sorte: a poesia do complexo e genial grego Konstantinos Kaváfis foi traduzida por especialistas qualificados, como Trajano Vieira, Isis Borges Fonseca e José Paulo Paes. Para conhecê-lo, sobretudo para entender sua obra e como foi composta, é fundamental a leitura de “Kavafis — Una Biografía” (Paidós Testimonios, em espanhol e inglês), do inglês Robert Liddell, que morou em Alexandria (onde Kaváfis nasceu), Egito, e na Grécia. Na introdução do livro, de 2000, Peter Mackridge escreve que “a primeira — até o momento única — e verdadeira biografia de Kaváfis foi escrita por um inglês”. 
 

 

 

 

 


Las Vidas de Joseph Conrad, de John Stape8 —  “Las Vidas de Joseph Conrad”, de John Stape, é uma biografia sensacional do escritor anglo-polonês. Seu começo é brilhante: “Toda biografia contém inevitavelmente elementos de ficção”. Como Conrad morreu em 1924, Stape avaliou que praticamente tudo havia sido dito sobre o autor. Ao fazer a pesquisa, descobriu que “havia mais fatos a desencavar e mais trabalho original por fazer do que havia previsto”. A obra do autor de “Lord Jim” é muito bem estudada, por isso Stape concentrou-se na vida (mas não só), ou, como quer, nas vidas. “Sim, sou um escritor, mas também sou um ser humano. Não esqueçam essa faceta, por favor”, dizia Conrad. É óbvio que Stape não concentrou-se apenas na vida de Conrad. Porque, se o fizesse, o escritor seria quase que desinteressante. O melhor de Conrad é sua obra. Pode-se dizer que sua obra é sua vida. Porque alguns de seus textos são reconstruções literárias, às vezes quase literais, de sua vida.
 

 

 

Pierre Drieu la Rochelle — El Aciago Seductor, de Enrique López Viejo9 —  “Pierre Drieu la Rochelle — El Aciago Seductor”, de Enrique López Viejo, é a biografia de um grande escritor, que, por ter sido de direita, ficou à margem da história literária. O francês Drieu la Rochelle, autor do belo romance “Fogo Fátuo” (editado no Brasil) e “Gilles”, é pouco conhecido entre nós. Merece ser editado. Fascista, como L.-F. Céline, era, além de escritor, propagandista político. Enrique López Viejo diz que se trata de um ser “complexo” e afirma que sua literatura é forte literária e filosoficamente. Teve uma vida venturosa, com esposas e amantes. Matou-se, em 1945, aos 52 anos.
 

 

 

 


 

Los Rothschild — Historia de una Dinastía, de Herbert Lottman10 — “Los Rothschild — Historia de una Dinastía”, de Herbert Lottman, conta a odisseia sensacional de uma das famílias mais ricas do mundo. Lottman diz que a família era tão importante que as pessoas diziam “rico como um Rothschild” e “acha, por acaso, que sou um Rothschild?” Judeus ricos, foram espoliados “durante a ocupação nazista da França” e humilhados “por parte do regime de Vichy de Philippe Pétain”. Antes, foram perseguidos pela direita e pela esquerda e foram vítimas de antissemitismo. Em 1981, o presidente socialista François Mitterrand promoveu a estatização que prejudicou os negócios dos Rothschild.
 

 

 

 


 

Trotski, de Robert Service11 —  Stálin, sobretudo, e Lênin têm sido aquinhoados com bons estudos no Brasil. Trotski, que foi assassinado a mando de Stálin, tem sido esquecido. Mas não fora do país. “Trotski”, de Robert Service, é o catatau (528 páginas) mais atualizado sobre o revolucionário ucraniano. Mostra a importância do aliado de Lênin, mas explicita seu autoritarismo. Service é autor do cartapácio (770 páginas) “Camaradas: Breve Historia del Comunismo”. O general e historiador russo Dmitri Volkogonov escreveu “Trotsky — The Eternal Revolutionary”. Baseado em informações de Sudoplatov, mostra como Stálin pressionou Béria para matar seu “opositor” no México, em 1940.
 

 

 

 

 

Boris Bajanov e a Condenação de Estaline, de Bajanov12 — Boris Bajanov “foi”, segundo David W. Doyle, “o primeiro e, durante muitos anos, o mais importante refugiado político soviético”. “Boris Bajanov e a Condenação de Estaline” (edição portuguesa), de Bajanov, é um clássico. O autor foi secretário de Stálin, do Politburo e do Orgburo. Em 1928, fugiu da União Soviética e radicou-se em Paris. Em depoimento ao governo francês, descreveu como funcionava o governo comunista e sua máquina de espionagem. Resultado: Stálin criou uma “máfia” de agentes com o objetivo de assassiná-lo. Tentou várias vezes. Bajanov escapou. “Nunca se casou, receando que a sua mulher se pudesse tornar uma vítima também — ou uma viúva — da vingança de Estaline”.

 

 

 

 
 

Paris Após a Libertação: 1944-1949, de Antony Beevor e Artemis Cooper13 — O inglês é um dos mais importantes historiadores das guerras do século 20, inclusive da Guerra Civil Espanhola. Falta publicar no Brasil seu muito importante “Paris Após a Libertação: 1944-1949”, escrito em parceria com sua mulher, Artemis Cooper. No primeiro capítulo, Beevor e Cooper transcrevem o famoso diálogo entre o marechal Phillippe Pétain e o general Charles de Gaulle. Pétain censura De Gaulle: “O sr. já é general. Não vejo motivo para o felicitar. De que servem os galões numa derrota?” De Gaulle replicou: “Mas, marechal, foi na derrota de 1914 que o sr. ganhou suas primeiras estrelas”. 
 

 

 

 

 

En Grand Central Station me Sente y Llore, de Elizabeth Smart 14 —  As editoras brasileiras descobriram a excelência da prosa canadense — Alice Munro, Carol Shields, Modercai Richler, Margaret Atwood, Nancy Houston) — mas esqueceram uma de suas estrelas, Elizabeth Smart (1913-1986), a de vida possivelmente mais movimentada. Num de seus livros, o mais famoso, “En Grand Central Station me Sente y Llore”, conta, com o uso de sua rica imaginação, sua própria história e como mudou de país atrás do poeta George Baker. Os dois mantiveram uma paixão avassaladora, mas, Baker, homem de muitas mulheres, a deixou. “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” é a história desse amor complicado. 
 

 

 

 

 

Cativa na Arábia, de Cristina Morató15 — A espanhola Cristina Morató escreveu um livro fascinante, “Cativa na Arábia” (edição portuguesa), sobre a condessa Marga d’Andurain, “espiã e aventureira no Oriente”. Marga era uma espécie de Lawrence da Arábia de saia e chegou a ser apontada como sua amante (Lawrence era homossexual). A imprensa francesa a chamava de “a Mata Hari do deserto”. Marga andou pelo Cairo, Beirute, Damasco e Tânger e espionou para os britânicos. Divorciada, uniu-se a um beduíno e converteu-se ao islamismo. Traficou ópio em Paris, quando a capital francesa estava sob domínio dos nazistas. Foi assassinada em Tânger, em 1948.











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