revista bula
POR EM 23/01/2011 ÀS 05:10 PM

13 filmes essenciais

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Deveriam ser dez pra ficar redondo, mas não deu. Essa não é uma lista dos melhores filmes que já vi — é simplesmente um conjunto filmes que me marcaram muito e que acho que valem a pena serem vistos por razões diversas que tento sucintamente apresentar.
 
“Era uma Vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu

Para nossos espíritos adestrados pelas emoções fáceis dos melodramas do cinema clássico, nem sempre é fácil se sensibilizar para as sutilezas de um melodrama japonês. É o avesso daquilo a que estamos acostumados. No lugar de emoções rasgadas e expostas, contenção, introversão e máscaras. E o mesmo vale para o estilo: ao invés da edição rápida e da câmera inquieta guiando nosso olhar, longos planos fixos, onde a profundidade de campo e a geografia do espaço cênico nos convidam a explorar o quadro de forma ativa. Com o ritmo interno e a disposição adequada, não há como não se emocionar profundamente com a história desse deslocado casal de idosos.
 
Contos da Lua Vaga (1953), de Kenji Mizoguchi

Os mestres japoneses, mais que ninguém, são evidência da velha afirmação de que “importa a forma, não o conteúdo” — com seu estilo econômico e sutil, sempre extraem enorme densidade e profundidade de histórias aparentemente banais ou de temas batidos. Em “Contos da Lua Vaga”, outro melodrama, a ambição de dois homens os leva a abandonarem suas famílias. Pouco a pouco, suas escolhas revelarão seu preço. Cada plano de Mizoguchi é uma pintura.
 
“Janela Indiscreta” (1954), de Alfred Hitchcock

Tudo já foi dito sobre esse filme, inclusive sobre sua trama como metáfora da própria narração cinematográfica. Numa primeira aproximação, me marcou pelo suspense, um mestre do estilo clássico manipulando nossas emoções até o limite. Depois — e hoje sobretudo — pela economia narrativa — eficiente, enxuta, precisa, magistral.
 
“O Diabo Mora no Sangue” (1968), de Cecil Thirré e João Bennio

Este filme não está aqui por bairrismo. Quem não viu, tem que ver. É um mega filmaço, uma pérola esquecida do cinema brasileiro. Estão ali, entrelaçadas de forma genial pela maestria de Bennio, as duas únicas questões verdadeiras: o incesto e o embate entre tradição e modernidade. Sendo pouco conhecido, vale uma breve sinopse: enquanto questiona seus valores no contato com turistas urbanos acampados em uma praia do Araguaia, um caboclo (interpretado por Bennio) se debate com a atração que sente pela própria irmã (Ana Maria Magalhães em seu primeiro papel de cinema). Um monumento. Para quem não sabe, é importante ressaltar que o filme tem roteiro do João Bennio, ator e diretor de teatro e cineasta goiano, que também o produziu, convidando Cecil Thirré para dirigi-lo.
 
“O Poderoso Chefão” (1972), de Francis Coppola

Falar o que sobre esse filme? Tudo é redundante.
 
“Uma Mulher sob Influência” (1974), de John Cassavettes

Também não sei o que falar sobre John Cassavettes. Só sei que assisto a seus filmes e choro e todo o mundo fica me olhando sem entender nada. Como diz o Inácio Araújo, o cara tem uma “capacidade única de apontar a câmera e revelar uma verdade que existe nas coisas”. “Uma Mulher sob Influência” é de um hiper-realismo quase documental tão impressionante que a cada vez que o assisto, entendo menos.
 
“Os Goonies” (1985), de Richard Donner

É o filme a que mais vezes assisti em minha vida. Assisti no cinema — creio que nas férias de 1985 — e fiquei simplesmente alucinado. Aquilo condensava todas as minhas fantasias de moleque e encarnava consequentemente toda a minha aspiração a fazer filmes. Naquela época, se eu viesse a me tornar um diretor, era um filme como aquele que eu queria fazer.  Devo ter assistido umas 25 vezes, mas faz muitos anos que não o vejo. Deve ser bem ruim, mas quem sabe ainda faço algo nessa linha para horror de alguns.
 
“Paisagem na Neblina” (1988), de Theo Angelopoulos

A triste história das duas crianças em busca de um pai inexistente é uma metáfora de uma Europa, e sobretudo dos Bálcãs contemporâneos, e suas identidades nacionais perdidas. Angelopoulos é um dos grandes mestres dos planos sequências, uma aula permanente de cinema. A sequência em que as crianças encontram um cavalo agonizante na neve, enquanto ao fundo acontece uma festa de noivado é das coisas mais impressionantes e densas que o cinema já produziu.
 
“Tudo sobre minha Mãe” (1999), de Pedro Almodóvar

O que encanta em Almodóvar é sua capacidade de virar o melodrama de cabeça para baixo: usar os mesmos clichês — superação, família, amor romântico — e colocá-los a serviço das relações mais heterodoxas. E “Tudo sobre Minha Mãe” é, em minha opinião, o melhor filme dele, embora outros, como “Fale com Ela”, “Carne Trêmula” e “Volver” estejam muito próximos do seu nível.
 
“Amor à Flor da Pele” (2000), de Wong Kar Wai

Precisa dizer alguma coisa sobre esse filme? Se quando eu tinha 11 anos, “Os Goonies” era o filme que eu gostaria de ter feito, hoje, com 36, eu queria ser Wong Kar Wai. São tantas cenas antológicas que não dá pra escolher.
 
“Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho

Todos os meus dias começam com uma breve oração em que peço a Deus que me presenteie com 1% do talento de Luiz Fernando Carvalho. “Lavoura Arcaica” já fazia parte da minha lista de dez livros. Adaptá-lo para o cinema só podia ser uma empreitada fadada ao fracasso. É o único filme à altura de um livro que conheço (mentira, “O Senhor dos Anéis” também está).
 
“O Cachorro” (2004), de Carlos Sorin

Gosto de filmes que exploram certas zonas cinzentas entre o documentário e a ficção. O argentino Carlos Sorin é mestre dessa arte, optando pelo trabalho com não-atores em vários filmes e por roteiros que exploram o cotidiano de pessoas simples, em pequenos e singelos melodramas de um realismo que se poderia dizer “cassavetiano”. De todos, é em “O Cachorro” que ele atinge o ápice dessa  maestria, contando a pequena tragédia de um homem pobre que ganha um cachorro campeão, mas que se revela sexualmente impotente.
 
“Match Point” (2005), de Woody Allen

Muita gente desdenha — o próprio Woody Allen inclusive —, mas “Match Point” não deixa nada a dever a nenhum grande filme de Hitchcock. Tenho certeza que o mestre, se estivesse vivo, teria gostado. É um tremendo roteiro, contado no estilo sem frescuras de Woody Allen, numa trama recheada por boa dose de cinismo, e que não passa batida por nenhum dos grandes temas: amor, paixão, traição, assassinato, ambição e, sobretudo, o papel do acaso em nossas vidas.

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