revista bula
POR EM 19/08/2012 ÀS 05:29 PM

The Lady — Além da Liberdade, de Luc Besson

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Birmânia era uma Shan­gri-lá cheia de belezas e riquezas onde o povo vivia feliz, mas aí vieram os malvados e a destruíram. O fato de o país ter virado colônia britânica no século 19 nem  vem ao caso. A malvadeza é toda atribuída à raça malaia, mulata, ditadora e truculenta, que tiraniza seus próprios iguais e persegue a sofredora dona de casa birmanesa filha de general líder da independência que tinha sido assassinado. Por sua linhagem, serve de imã para o mo­vimento democrático que se arrastou por décadas sem impedir que os generais da atual Mianmar dominassem o tempo todo.

A Orquídea de Aço, Aung San Suu Kyi, abandonou família para abraçar esse sonho que lhe caiu no colo depois de uma vida pacata no exílio. Guindada ao primeiro plano diante das massas, envolveu-se na luta e nunca mais saiu dela. Ficou afastada dos filhos e do marido, que conseguiu colocá-la como candidata vencedora do Nobel da Paz em 1991. A comunidade internacional nunca pressionou de fato a ditadura da Birmânia, tanto é que ela se eternizou. Mas posa de politicamente correta no filme “The Lady — Além da Li­berdade” (2011), do mentiroso Luc Besson, um cineasta de ação/ficção que omitiu o principal na sua hagiografia, como bem definiu a crítica: a de que a origem do mal da Bir­mânia veio do Oci­dente, que não pode posar portanto de vestal do processo.

Enquanto a tirania é parda, a civilização do Nobel e da música é branca. A Lady faz parte da elite birmanesa e casou com professor de Oxford (que morre de câncer depois de anos de sofrimento com a prisão domiciliar da esposa que virou líder).  O eurocentrismo bizarro que pontua o filme é um escândalo ideológico. Separa o mundo entre os bons, de pele branca e seus coadjuvantes nativos orientais, e os maus, a pele es­cura ou de marfim cercando o­lhos puxados frios.

Não escapa de seu painel de horrores cenas de tortura apelativas para reforçar essa divisão clássica e bem fornida do mundo em convulsão, mas sob a liderança das potências bem intencionadas. Dentro da rigidez do enfoque, o general presidente é um místico (avesso à razão, portanto) e os traficantes uns monstros assassinos (e não soldados, como acontece no ocidente). 

Se existe um povo criminoso é o formado pelas nações europeias. Saquearam o mundo, transformando-o na joça que está. Mas como a brutalidade é muito explícita, então eles dançam o minueto da alegoria bem comportada, quando sabemos que podem destruir o mundo tantas vezes quanto lhes der na gana. É como se tivéssemos de admirar o carcereiro só para nos manter vivos.

O que mais irrita neste filme indecente é o abuso de jargões cinematográficos. Dez mil vezes a família se abraça. Uma cena de greve de fome repete sempre a comida intocada e o gesto desolado de quem vai servir. A boa atriz Michelle Yeoh (no papel da Lady Aung San Suu Kyi), de “O Tigre e O Dragão”, se desmancha em ca­ras e bocas em cenas de histrionismo agudo. O ator David Thew­lis, que faz o papel do esposo Mi­chael Aris então é um assombro de gestos repetidos metidos a significativos, de acenos com a cabeça.  A embaixada britânica (logo quem) é um nicho de resistência e civilização. Tenham paciência. E a toda hora alguém está lendo um livro sobre Ghandi. São de uma obviedade sem fim essas soluções cinematográficas, típica de cineasta sem recursos de criatividade.

Mas você não é a favor da luta do povo da Birmânia pela In­dependência e nega o papel de Suu?  Viva e democracia, abaixo a tirania e viva a luta dos povos contra a opressão. Não pode é achar que os britânicos são bonzinhos a ponto de lavar a culpa do passado comportando-se com tanta decência no episódio Suu, que no fim viu sua família ser destruída, o marido morto e a democracia adiada até o osso. Houve enfim abertura política e ela se elegeu deputada. Quando foi eleita primeira ministra no século 20, deixou-se apanhar. Deveria emigrar para Londres e de lá pressionar a ditadura. Apesar dos esforços do filme para tratá-la como impecável, ela aparece como a ingênua que caiu numa armadilha.

Aung San Suu Kyi. Mulher de valor e coragem, mas que não mereceu um filme à altura da sua sofrida biografia. Criado por um mito narrado pelo pai, o da civilização perfeita perdida, que tenta em vão resgatar. Uma fábula trabalhada para emocionar a adesão absoluta ao eurocentrismo.

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