revista bula
POR EM 11/01/2010 ÀS 04:17 PM

Seja lá o que for que funcionar

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Woody AllenEsse título seria a tradução mais próxima de “Whatever works”, último filme de Woody Allen. Há outras possibilidades, como “O que funcionar”, “Qualquer coisa que funcionar”, ou, simplesmente, “Qualquer coisa”. Se eu fosse o tradutor oficial de filmes no Brasil eu escolheria esse, que é curto e fiel ao espírito do filme. Mas não. Seria pedir demais um título decente para um filme de Woody aqui no Brasil. Com exceção de “Crimes e pecados”, melhor até do que o original “Crimes and misdemeanors”, o histórico é horrível. “Annie Hall” virou “Noivo neurótico, noiva nervosa” e “Love and death” virou “A última noite de Boris Gruschencko”, para citar dois dos exemplos mais desastrosos.

“Tudo pode dar certo”, o título escolhido por algum moron brasileiro, provavelmente fã de coisas do tipo “Avatar” (aliás, uma experiência interessante é assistir “Whatever works” seis vezes seguidas e logo depois “Avatar”, uma vez só, claro, e mesmo assim levantando pra ir ao banheiro várias vezes, sem prejuízo da compreensão da estorinha submental) não tem nada a ver com o espírito do filme. De fato, não consigo imaginar um título mais distante do espírito do filme. E, afinal, qual é o espírito do filme?

“Whatever works” trata de uma obsessão de Woody já identificada em suas piadas stand-up da década de 1960 e também em seus primeiros filmes, mas mais escancaradas a partir de “Annie Hall” e “Manhattan”, a saber, a absoluta falta de sentido de nossa existência, que, associada a absoluta indiferença de um universo sem Deus (Woody não é judeu, é ateu), só nos deixa duas saídas: o suicídio ou nos agarrarmos às pequenas coisas (como em “Manhattan”), enfim, a... whatever works.  “Manhattan”, por sinal, foi a primeira vez em que ele apresentou sua versão de casal improvável pela idade mas que acaba dando certo (Mariel Hemingway com 17 lindos aninhos e ele próprio, com 42). Depois, vira-e-mexe, aparecia algo do tipo, até que fez isso na própria vida pessoal, trocando Mia Farrow por Soon-Yi.

Boris Yellnikoff, o protagonista de mau com a vida e delicado como um elefante numa loja de cristais (clichê!), é interpretado por Larry David, protagonista e autor do seriado “Curb your enthusiasm” (no único episódio que assisti, ele faz xixi acidentalmente num retrato de Jesus Cristo e só não cai de um prédio porque segura na barriga avantajada de sua assistente – deliciosamente grotesco). Larry David era co-roteirista do último seriado americano que valeu a pena perder tempo assistindo, “Seinfeld” (o próprio Jerry Seinfeld era o outro co-roteirista). A escolha de Woody, portanto, não poderia ser mais acertada, pois ele precisava de um ator com perfil cínico. Certamente melhor do que se o próprio Woody, ainda que este tivesse uns vinte anos menos.

Melody Celestine, a patetinha sulista que acaba por amolecer o coração de Boris, é maravilhosamente interpretada por Evan Rachel Wood. Sua carinha inocente e cândida enquanto Boris despeja todo tipo de insulto sobre ela é sublime. A propósito, há uma entrevista sua disponível na Amazon.com, em que confessa que precisava se segurar para não morrer de rir toda vez em que contracenava com Larry e os insultos de Boris.

Boris é um físico desgraçadamente inteligente, que, assim como o físico de “September”, não se ilude: sabe perfeitamente que o universo é inacreditavelmente indiferente e não há nada no mundo que possa mudar esse fato. E assim também como o diretor de cinema de “Stardust memories”, sofre da depressão de Ozymandia, pela qual tem consciência que nada dura, nem Shakespeare, nem Beethoven. Por sinal, desta vez Woody mudou um pouquinho sua trilha. Há o jazz tipo tradicional de New Orleans, claro, mas, desta vez, no lugar de Bach, Mozart e Shubert, seus preferidos, entra Beethoven com suas duas sinfonias mais pop, a nona e a quinta.

Voltando. Boris é um ranzinza incorrigível, que manca por causa de uma fracassada tentativa de suicídio. O acaso (outra obsessão de Woody) faz seu caminho cruzar com Melody, recém fugida de casa. Melody é uma loirinha ganhadora de concursos de beleza do sul dos EUA, de QI fronteiriço (como os das pessoas que gostam de “Avatar”), mas um doce de menina. O improvável acontece e ela se apaixona por ele. Inicialmente, Boris, que já tinha abdicado até do sexo, rechaça com a veemência que lhe é peculiar. Mas acaba cedendo quando percebe a enorme influência que havia exercido na moça. Casam-se. Os pais dela, sulistas do pé rachado, acabam por encontrá-la, só que um de cada vez. Primeiro a mãe, que, apesar do horror que sente pelo genro, fica amiga de seus amigos e muda da água pro vinho (clichê!), tornando-se artista plástica e passando a morar com dois destes amigos, num assumido ménage a trois. Depois o pai, que acaba por encontrar seu verdadeiro eu em Nova York, a capital do mundo. Chega de detalhes da estória. Vão vocês assistir.

A verdade é que “Whatever works”, depois da sexta vez que o vi, me deixou um tanto melancólico. Mas não por seu conteúdo (uma comédia na superfície, um drama na verdade). O que farei quando Woody morrer? Seus filmes são uma das poucas coisas que ainda funcionam pra mim.

 

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