revista bula
POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Quando os homens não são homens

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"Rio Congelado" se passa na fronteira gelada entre EUA e Canadá, aborda a situação indígena, a imigração ilegal e ainda é protagonizado por uma mulher abandonada pelo marido com duas crianças

O rio Saint Lawrence, que define parte da fronteira entre Canadá e Estados Unidos, evoca tempos heróicos. No século 18, ele serviu de caminho para colonizadores europeus e testemunhou conflitos envolvendo ingleses, franceses e índios. Era uma referência para homens de fibra, prontos para ações destemidas em defesa de seus territórios.

No filme “Rio Congelado” (2008), de Courtney Hunt, cuja ação se passa na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá, o rio do título é justamente o Saint Lawrence. Conquanto seu nome não seja mencionado, o próprio rio foi usado como cenário. Mas os tempos são outros e os homens já não são homens, a hombridade desvaneceu-se.

O assunto é a imigração ilegal facilitada pelo inverno, que congela o rio, eliminando assim a barreira natural. E já de início fica claro que quem está com a força é uma mulher. Sua entrada em cena não deixa dúvida. A partir de seus pés, a câmera inicia um movimento ascendente que só termina quando enquadra o seu rosto.

Não é propriamente a apresentação de uma heroína, porque a personagem não está em movimento. Apoiada no carro, ela fuma tirando fortes tragadas. Sua imobilidade, porém, não é sinônimo de passividade. A angústia estampada no rosto e a ansiedade no jeito de fumar denotam que por dentro ela está fervendo.

Logo serão apresentados os motivos da sua aflição. O marido duplamente viciado, na droga e no jogo, desapareceu levando a pequena poupança da família. Sem o dinheiro necessário para complementar o pagamento inicial da nova casa, ela pode perder o valor já dado como sinal. E a velha casa não tem o conforto desejável para quem se sujeita a invernos tão rigorosos.

O nome dela é Ray. Nome ambivalente que tanto serve para mulher como para homem. Ela tem um revólver e sabe usá-lo. Nas suas andanças em busca do marido, ela conhece Lila, índia mohawk que vive na reserva da tribo. É outra vítima de marido, o qual lhe tirou o filho pequeno e a mantém sob vigilância. Lila, que sabe tudo da atividade dos coiotes, agentes que transportam imigrantes ilegais para os Estados Unidos, está a fim de entrar no rendoso negócio.

De início coagida por Lila, mas depois por ver na traficância uma saída para seus problemas financeiros, Ray toma gosto pela atividade ilegal, dividindo com a amiga a grana dos delitos. Mesmo na noite de Natal Ray decide fazer uma viagem. Desta vez os imigrantes são um casal de paquistaneses, o que a leva a suspeitar de que possa estar levando terroristas no porta-malas do carro. Logo cisma que a sacola deles, no banco traseiro, possa conter material para a prática de terrorismo.

Nesse ponto, alguma coisa começa a dar errado. Não apenas na atividade criminosa de Ray, mas também no roteiro do filme.

No meio da travessia, já anoitecendo, ela pega a sacola e atira-a no gelo onde inexiste ponto de referência. No fim da viagem, a paquistanesa se desespera ao dar pela falta da sacola, na qual estava nada mais nada menos que o seu bebê. É noite de Natal, em casa os filhos de Ray aguardam os presentinhos, mas não há saída senão ir atrás da sacola.

Engana-se quem pensa que a busca resultará inútil, seja porque a bolsa foi deixada no meio do nada e na escuridão, seja porque, em razão do tempo decorrido e das severas condições meteorológicas, o bebê já devia estar morto. Bebê esse que nunca choramingou, nem antes nem quando a bolsa foi jogada fora. Pois acredite quem quiser: não só a bolsa é encontrada prontamente como o bebê sobreviveu à brutal intempérie.

O frio é tanto que a água da torneira congela-se. O filho adolescente de Ray, na sua ausência, usa um maçarico para esquentar o cano e queima parte da casa, tornando-a ainda mais vulnerável. Ray terá de fazer mais uma viagem para completar o dinheiro da nova casa, com a polícia já de olho na movimentação dela.

A fonte de imigrantes, porém, também se congelou. Ray precisa recorrer a um abominável explorador de mulheres, que quer despachar duas mulheres, mas só paga a metade do preço. Uma vez que ela se recusa, o tipo maltrata as mulheres fisicamente, como forma de chantagem para que ela aceite o logro. Aí entra em cena a heroína: Ray empunha o revólver para defender seu interesse e o das outras duas vítimas.

Em tempo de mulheres assim façanhudas, não surpreende que os maridos se tenham tornado fracotes e fujões. O surpreendente é um filme roteirizado e dirigido por uma mulher demonstrar que, ao fim e ao cabo, o crime compensa.

Ray persiste no crime confiada que sua punição, no caso de ser flagrada pela polícia, será irrelevante se ela confessar o delito. Agindo calculadamente, portanto, ela consegue dinheiro suficiente para arrumar-se como pretendia. De quebra, resolve também os problemas da amiga mohawk, que recupera o filho e assume a casa e os filhos de Ray enquanto esta estiver na cadeia.

A moral da história, evidente, é que o crime compensa. Vence o cinismo: os fins justificam os meios. Tudo é válido, se o objetivo for conseguir uma bolada para melhorar de vida. Condizente com o estado de coisas reinante em 2007, quando o filme foi produzido – antes de estourar a crise financeira que assola o mundo atualmente.

A crise resultou da ação de administradores de grandes instituições financeiras que produziram lucros irreais, sem a correspondente criação de riquezas. Mas esses falsos milagreiros não descumpriram nenhuma lei, e possivelmente têm argumentos tão ou mais “sólidos” que os de Ray, mesmo atuando de forma igualmente censurável.
 

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