revista bula
POR EM 14/01/2010 ÀS 02:23 PM

Por que Avatar é idiota

publicado em

Pôster AvatarQuase apanhei de minha esposa e filhas, quando souberam que eu chamei as pessoas que gostaram de "Avatar" de submentais. O que não me deixou surpreso, já que são mulheres, portanto cabeças de vento por excelência. Cabeças de vento dão desconto pra tudo em nome do “gracinha” ou “que bonitinho”. O exemplo clássico é um poodle irritantemente latidor, merecedor de uma laringectomia sem anestesia. Se for “bonitinho”, “gracinha”, está perdoado.

Quem melhor expressou em palavras a imbecilidade de "Avatar" foi Luiz Felipe Pondé, o melhor colunista da Folha de São Paulo (alguém que vai além da mera sinceridade, suspeito é que tem prazer em ser desagradável mesmo). Ele o fez em duas colunas, “O romantismo idiota de Avatar” e “Viva o Brasil capitalista!”. Esta segunda não fala do filme, mas serve bem ao propósito.

A ideia central de “O romantismo idiota de Avatar” é a incoerência da natureza selvagem como “bonitinha”. Em “Viva o Brasil capitalista!” Pondé comenta um livro (“Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, Leandro Narloch, Ed. Leya) em que confronta a moda intelectual pseudoesquerdista do momento, pela qual os portugueses teriam sido “invasores”, quando na verdade foram “libertadores” de nossa condição primitiva (“nossa” como se fosse possível falar em “brasileiro” desconsiderando a mistura portuguesa). Quando duas culturas trombam de frente, vence a mais avançada. E “mais avançada” é bom, a despeito do que pensem primitivistas teóricos (primitivistas teóricos sabem tudo sobre culturas primitivas, de dentro de suas fartas bibliotecas com ar-condicionado e o Google, que ninguém é de ferro). Se há algo que brasileiros devemos lamentar é que os portugueses, e não os ingleses, nos tenham achado primeiro (e olha que sou descendente direto de portugueses, da cidade de Mira, pra ser específico). Nada, nada, falaríamos uma língua mais inteligente e universal.

Voltando ao filme. Resumo da ópera: os índios (falam como índios, vestem-se (ou não vestem-se) como índios, montam bichos como índios, vivem como índios) de Pandora são caçadores-coletores que rezam toda vez que enfiam uma faca no bucho de um bicho da floresta. Muito bonitinho. Mas seria o caso de se perguntar pro bicho com a faca enfiada no bucho se ele não preferiria a faca fora, no lugar da reza. Me fez lembrar de outro filme idiota com a mesma “mensagem”, também com índios como protagonistas. Tainá. Muito bonitinho ver a índiazinha preservar uma oncinha e comer um peixe. (Falo sobre isso em “O ponto de vista do peixe”, publicado aqui há bastante tempo). Mensagem: onças valem mais do que peixes. Seria o caso de se perguntar pra onça adulta se ela prefere uma suculenta carne humana no lugar de um magro peixinho. Se você for um índio de "Avatar" pode ser que não se importe, desde que a onça reze enquanto te mastiga.

Continuando. Pandora está bem em cima de uma jazida de sei lá que metal valioso por servir de fonte de energia. Os humanos malvados tentam se aproximar e negociar, chegar a um acordo. Os índios não querem conversa. Exceto a parte da violência que nunca (nunca, em nome de nada, nem daquilo que parece valer a pena) se justifica, torci pelos humanos. O que quase me valeu a expulsão do cinema, como quando tive um acesso incontrolável de riso na parte em que a índia reza logo depois de enfiar a faca num bicho. Pandora ganharia muito com o progresso. Nada, nada, pelo menos um senso de ridículo. Toda vez que alguém comesse um bife e começasse a rezar pela alma do mastigado levaria tanta vaia que cairia em si. Passariam a dormir em confortáveis quartos com confortáveis camas e janelas com telas, no lugar de redes que acabam com nossa coluna, ao ar livre, para serem comidos pelas muriçocas (fico pensando se as muriçocas rezam quando picam um índio de "Avatar", ou se o vírus da febre amarela faz o mesmo enquanto entra na corrente sanguínea, ajudado pela muriçoca).

A verdade é que a natureza é selvagem e tudo o que ela quer é te comer. Sem reza. O universo é absolutamente indiferente à sua sorte e um enorme cometa pode encerrar a discussão acerca do aquecimento global em poucas horas. E Deus é racionalmente impossível. (Soei como Woody Allen agora). Qualquer forma de se representar o mundo diversa disso não é romântica (agora discordo de Pondé), mas infantil mesmo. Cresça, meu filho! Agarre-se às pequenas coisas, tudo bem, mas seja mais seletivo. "Avatar" não!

Alguém perguntará: E os efeitos especiais? São bonitinhos, uma gracinha. Mas não dou desconto.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio