revista bula
POR EM 18/01/2010 ÀS 08:59 PM

Les Chansons D'amour

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Canções de Amor é uma alternativa vigorosa aos musicais convencionais e pouco inventivos de Hollywood 

Les chansons d'amourO sucesso de “Moulin Rouge!” (2001) retomou o interesse do público para os musicais. Durante toda a década passada, Hollywood desfilou incursões ao gênero, como os bem-sucedidos “Chicago” (2002), “Dreamgirls” (2006) e “Hairspray” (2007). Mas foi o francês Christophe Honoré quem conseguiu enxergar novas possibilidades estéticas e narrativas utilizando-se desse estilo, consagrado desde a época de ouro do cinema hollywoodiano. Autor — substantivo utilizado aqui com propriedades de adjetivo — de “Canções de Amor” (Les chansons d'amour, 2007), o cineasta construiu um exercício fílmico que passa longe dos muros quase sempre convencionais da grande indústria americana. 

A diferença mais notável é a utilização da música como recurso absolutamente inserido na mise-en-scène proposta desde a sequência de abertura, alternando o registro quase documental de cenários parisienses com a postura exagerada e pungente dos personagens. A parte musical não é um corpo estranho ao filme — é um instrumento narrativo com a mesma importância conferida às outras ferramentas dramáticas. Honoré consegue utilizar a música tanto para as discussõezinhas rotineiras quanto para questionamentos mais profundos acerca do amor e da vida. 

Ele quer prosseguir com seus ensaios sobre a sinfonia urbana que permeia o cotidiano ordinário, destacando a delicada harmonia que sustenta a ordem e a tranquilidade na vida de seus personagens. Ismaël (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier) formam um casal marcado pelos desencontros do cotidiano. Os dois se esforçam para afastar o medo da solidão, tão globalizada nos tempos de hoje, e partem para um inusitado relacionamento a três, com Alice (Clotilde Hesme) completando um triângulo cujos vértices têm funções pouco definidas. 

O diretor trata a solução encontrada pelos personagens com um olhar despojado, filmando uma irresistível cena de “ménage à trois literário”. Uma panorâmica percorre o leito dos três, cada um concentrado em torno de um livro, num testemunho bastante sarcástico das modalidades sexuais que surgem em consonância com o ideal de liberdade comportamental plena. A câmera do cineasta, atenta aos mínimos detalhes, não julga, mas não se isenta de pontuar sobre as dúvidas e receios dos personagens diante desse novo contexto. 

Dividido em três partes, o filme é costurado pelo conflito da perda, gerado a partir da morte repentina de Julie. Ismaël, até então retratado como um sujeito desbocado e brincalhão, tem suas fragilidades escancaradas. Ele desaba diante da dor de perder sua namorada, e utiliza da nova situação para buscar entender sua condição de carência e incompletude. A morte retira o (frágil) equilíbrio musical que, até então, desviava os efeitos da intensidade das relações humanas. Honoré é especialmente vigoroso na montagem repleta de contrastes da morte de Julie, em que intercala a felicidade fugaz de Alice aos procedimentos desesperados dos paramédicos para salvar a garota e o congelamento em preto e branco de algumas imagens. 

A importância da capital francesa, contemplada da janela por olhares perdidos no horizonte, é demonstrada pela interação dos personagens com os cenários urbanos. Se antes da morte de Julie, o espectador presenciava três jovens enérgicos correndo e cantando pelas ruas noturnas de Paris, numa releitura divertida de “Jules e Jim”, agora a cidade clama o descompasso de vidas marcadas pela destruição precoce de um novo e vanguardista ideário romântico. 

Contudo, as avenidas e prédios ainda disseminam ideias. O filme legitima sua estrutura fragmentada em capítulos ao desenvolver os obstáculos e as descobertas que levarão à superação por parte de Ismaël. Apoiado em sua relação conturbada com a cidade e com as lembranças presentes naquele lugar, o personagem de Louis Garrel (expoente máximo da nova geração de atores franceses) consegue afastar o abalo da morte de Julie ao se dedicar a uma tentativa notadamente introspectiva de restabelecer o equilíbrio de sua vida. 

O desfecho de “Canções de Amor” é surpreendentemente original, preservando o filme do risco de insistir em um final melodramático e forçosamente feliz. O envolvimento de Ismaël com o jovem Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet) é estabelecido com sutileza e cuidado extremo. Não é nada gratuito tampouco apressado. Ao reforçar sua tentativa de subverter os padrões, rejeitando todos os rótulos, Honoré dirige aquela que, provavelmente, é uma das encenações de sexo mais delicadas e singelas do cinema. Os dois personagens duelam a canção “Ma mémoire sale” e concluem: é preciso reinventar todas as formas de sentir. É essa a melhor maneira de preencher vazios circunstanciais. De preferência, em Paris.

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