revista bula
POR EM 11/01/2010 ÀS 11:15 AM

Lembranças do Brasil

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Lula, o Filho do BrasilGuimarães Rosa disse, na célebre entrevista a Günter Lorenz, que o personagem Riobaldo “é apenas o Brasil”. O jagunço seria, nos termos atuais, uma alegoria nacional, fragmento em que se pode alcançar o todo da nação. Agora, em fast foward, surge a tentativa alegórica do filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto. Mais uma vez o grão que tenta condensar o universo de um ser chamado "brasileiro". É a busca constante da cultura brasileira, às voltas com a identidade, que, para Riobaldo, nunca chegava ao fim, pois o homem não está pronto jamais. “As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando”, diz Rosa.

O filme de Fábio Barreto pretende reconstituir os “anos de aprendizagem” de um tipo social, do nascimento ao primeiro grande salto. Um todo acabado, o homem completo, ao contrário de Riobaldo. O fim é obviamente a posse como Presidente da República em 2003, com o alerta de que o personagem só chegou lá, no topo do poder nacional, porque teimou muito. Ele nunca desistiu, insiste o filme, assim como brandiam as campanhas publicitárias do início do governo Lula e da recente batalha contra a crise internacional. O clã Barreto soube criar mais um produto do brasileiro que é, antes de tudo, um persistente. Mas a nação desse filme não existe mais, ficou na lembrança nostálgica de um tempo que se procura recuperar.

“Lula, o filho do Brasil” evoca os anos do nacional-desenvolvimentismo. Os nordestinos migravam para São Paulo atrás de prosperidade, de um trabalho nas fábricas. O tema da migração é recorrente no cinema brasileiro, bastando lembrar os filmes “Vidas secas” e “O homem que virou suco”. Era o tempo em que a nação se via como atrasada e, por meio da montagem de automóveis, poderia alcançar um novo patamar. É o sonho que se revive na tela de hoje. O personagem Luis Inácio da Silva se muda com a mãe-coragem Dona Lindu e os inúmeros irmãos para Santos, entra para o curso profissionalizante e depois consegue emprego numa fábrica como metalúrgico.

A “estrutura de sentimento” do filme de Fabio Barreto é a retomada daquele desenvolvimentismo. Os anos Lula (2003-2010) buscam resgatar justamente o imaginário do final dos anos 1950, um retorno ao nacional-popular e às idéias de Celso Furtado. Não é à toa que a Rede Globo embarcou nessa onda em 2006, ao fazer a minissérie “JK”. Este é o horizonte máximo que a vista liberal de hoje alcança, e ainda chama a isso de socialismo. “Lula, o filho do Brasil” é mais um produto dessa linhagem televisiva, tanto que as citações audiovisuais do filme são Mazzaropi e a telenovela “Selva de Pedra”. Apaga-se, ou melhor, salta-se sobre todo o período do Cinema Novo.

O apagamento de “Lula, o filho do Brasil” atinge também o Partido dos Trabalhadores, totalmente esquecido no filme. O personagem principal seria o resultado da perseverança da mãe Lindu e do acaso. Em inúmeros trechos, Lula aparece na posição de afortunado, uma espécie de Forrest Gump, que está sempre no lugar certo e sempre o destino o ajuda. Toda a trama indica para a realização de um indivíduo único e não de um grupo de pessoas que começaram a ser organizar durante a ditadura militar nos anos 1970. Monta-se o retrato personalista, com. a figura do redentor já tantas vezes mostrada pelas telenovelas. O cinema também se apaga, junto com o sujeito político. Mataram Glauber, de novo.

A nação de “Lula, o filho do Brasil” só existe nos imaginários construídos por partidos políticos — sem contar a representação já gasta da televisão brasileira. A região do ABC paulista sofreu nas últimas décadas um processo violento de desindustrialização e de esvaziamento. Com a falta de empregos, o berço do maior movimento sindical viu o nascimento de um neonazismo contra os imigrantes nordestinos, como aparece brilhantemente no filme “Garotas do ABC” (2003), de Carlos Reichenbach. Trata-se da história (fim de linha) de um namoro entre uma tecelã (profissão extinta, assim como a de torneiro-mecânico, que era a de Lula) e um dos líderes racistas.

O sindicalismo foi apagado do mapa com a entrada do Brasil no mundo da globalização — na qual segue mergulhado, à deriva de investimentos estrangeiros e com um discurso oficial de autonomia da nação. Os escombros do trabalho no ABC paulista aparecem no documentário “Peões” (2005), de Eduardo Coutinho, que tenta juntar os fios da memória dos antigos companheiros de Lula. A maioria deles perdeu o rumo na vida ao ser demitida após a greve dos metalúrgicos de 1979 e 1980, que encerra de maneira apoteótica “Lula, o filho do Brasil”. Ao espectador, fica a imagem de “felizes para sempre”, que só existe na lembrança do que não existe mais e na desfaçatez de quem fez esse filme.

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