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POR EM 05/03/2010 ÀS 07:06 PM

Invictus: uma jogada de mestre

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Nelson Mandela tinha consciência que um abismo social, cultural e linguístico ainda separavam brancos e negros, e que a África do Sul continuava sendo um país racista e economicamente dividido, em decorrência do apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, fez com que Mandela resolvesse usar o esporte para unir a população

Pôster oficial de InvictusA África do Sul, em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente, era um país dividido, com duas bandeiras e dois hinos nacionais. De um lado os africânderes, minoria branca responsável por décadas de regime segregacionista, o “apartheid”; de outro, a população negra despossuída e à qual se negavam direitos elementares de cidadania.

Mesmo tendo amargado 27 anos de cárcere, Mandela descartou o revanchismo em favor da reconciliação nacional. E arquitetou uma jogada de mestre: usar a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, cujo país-sede seria a própria África do Sul, para promover a pacificação entre negros e brancos e consolidar a multirracialidade no país.

O filme “Invictus”, de Clint Eastwood, dramatiza as etapas mais emocionantes dessa história, da posse de Mandela na presidência ao término da Copa, com ênfase no time de rúgbi mais importante do país, o Springbok, com apenas um jogador negro.

Num preâmbulo, quatro anos antes da eleição de Mandela, o filme apresenta a seguinte situação: isolados por uma sólida cerca de ferro, atletas brancos e robustos treinam o rúgbi com seu uniforme vistoso; do outro lado da rua, detrás de uma tela frágil, garotos negros descalços e mal nutridos correm atrás de uma bola de futebol. De repente passa entre os dois grupos o cortejo de carros que conduz Mandela para a liberdade. Os garotos correm para saudá-lo aos gritos, enquanto os atletas brancos remoem seus temores em silêncio.

O filme se abre, portanto, com uma interrogação acerca da ação vindoura de Mandela: contribuir para derrubar a cerca que separa os brancos dos negros, ou aumentar o afastamento entre eles? Os dois lados nada têm em comum, nem ao menos o interesse pelo mesmo esporte. Uma vez eleito, porém, Mandela olhará para o futuro a fim de virar a página do “apartheid”.

O primeiro embate racial ocorre quando ele compõe a sua guarda pessoal, misturando negros e brancos. Forçados a atuarem em conjunto, os dois grupos seguem como água e óleo, separados pela desconfiança recíproca. O que se vê nesse microcosmo repete-se no país inteiro.

Por ser o rúgbi um esporte dos africânderes, os negros não se interessam por ele e, por conseguinte, desconhecem suas regras. Mandela cria o programa “Um time, um país” para que os atletas ensinem os estudantes das favelas a praticá-lo. Os atletas reagem negativamente a princípio, mas acabam fazendo sua parte para atrair os jovens. E o rúgbi começa a promover a coesão social, a cimentar a nova nação idealizada por Mandela.

Na Copa, porém, o sucesso do time sul-africano é mais que duvidoso. Mandela, com seu histórico de perseverança e superação nos longos anos de prisão, inspirado por um ideal e um poema, recusa-se a dar a guerra por perdida antes da batalha e faz o que pode para que o Springbok seja o campeão.

Para motivar ainda mais o capitão do time, Mandela dá-lhe uma cópia do poema Invictus, que lhe serviu de inspiração nos tempos de cárcere. Escrito pelo inglês William Ernest Henley, o poema tem um fecho poderoso: “Sou o senhor do meu destino, o comandante da minha alma”.

Eastwood aproveita-se do clima de instabilidade política para criar dois momentos de grande suspense, com reversão de expectativa. No primeiro caso, quando Mandela faz sua caminhada matinal por ruas desertas, a alternância de planos que o mostram andando com os guarda-costas e de planos de um carro em movimento, sobre o qual não se tem a mínima informação, sugere a possibilidade de atentado terrorista.

No segundo caso, um homem branco surge do nada para estudar o estádio da partida final, ora examinando-o de dentro, ora espreitando-o a distância com binóculo. Na hora do jogo, um avião se aproxima perigosamente do estádio e o homem reaparece dentro dele como piloto. O assombro que domina o estádio, e agita os seguranças de Mandela, produz arrepios no espectador.

Há momentos no filme que são quase mágicos, como as cenas em que se dá a interação entre brancos e negros, tornando viável o plano de Mandela. Em tais momentos entra a música sul-africana, com sua alegria e ritmo contagiante — e a emoção dispara. Esse é, aliás, o filme mais emocionante de Clint Eastwood, que nunca apela para truques baratos ou melodramáticos. E tudo conduz para o grande clímax, quando os torcedores vibram na mesma intensidade, independente da cor da pele.

Aos mais vividos, é impossível ver “Invictus” sem se lembrar de algum filme de John Ford. Como “Audazes e Malditos”, por exemplo, no qual um sargento negro da cavalaria, acusado por crimes que não cometeu, tem suas qualidades morais destacadas em cenas revividas por testemunhos no tribunal. Ford, como poucos, sabia injetar emoção nos momentos certos e sem apelação.

Histórias edificantes, como a de “Invictus”, eram uma das especialidades de John Ford. Pode-se até imaginar Eastwood se perguntando, ao ler o roteiro: como Mr. Ford, se vivo estivesse, faria este filme? Embora discípulo confesso de Sergio Leone e Don Siegel, aos quais dedicou “Os Imperdoáveis”, a influência de Ford sobre ele é mais que natural, até porque o seu filme predileto é uma obra-prima do gigante irlandês, “Como Era Verde Meu Vale”.

Renovador da principal corrente do cinema norte-americano, Clint Eastwood conquistou admiração e respeito mundo afora. É preciso reconhecer: ele é quase tão bom quanto John Ford.

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