revista bula
POR EM 09/10/2009 ÀS 02:15 PM

Don Juan desce ao inferno

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O diretor Steve Jacobs traduziu em imagens simples a escrita enxuta e forte de Coetzee. Os personagens continuam lacônicos e acumulam traumas – desde o racismo recalcado até a violência física individual 

 
John Malkovich aparece na tela com seus poucos cabelos tingidos de loiro e transforma em imagem de carne e osso o personagem David Lurie, do romance “Desonra” (1999), de J.M. Coetzee. Lurie carrega os traços dos boeres, os descendentes de holandeses que ocuparam a região da cidade do Cabo, na África do Sul, e fizeram o regime racista mais estruturado de todos os tempos. A história criada por Coetzee se passa no pós-apartheid sul-africano, na década de 1990. Começa ali a descida do professor Lurie ao inferno da existência.
 
O diretor Steve Jacobs traduziu em imagens simples a escrita enxuta e forte de Coetzee. Os personagens continuam lacônicos e acumulam traumas — desde o racismo recalcado até a violência física individual. A paisagem rural em torno da Cidade Cabo surge no filme em tons áridos e condizentes com a viagem pessoal do personagem. Lurie (uma variação do verbo "to lure", seduzir) leciona poesia romântica, e sua desgraça se materializa ao se envolver com a estudante Melanie, que é negra. Após alguns encontros amorosos, ele é denunciado por assédio.
 
A universidade abre um processo contra Lurie, que rejeita uma confissão pública de erro. O que aceita naturalmente é a culpa pelo ocorrido. Todos ficam surpresos com a autopunição do professor. A radicalização dele resulta num processo de expulsão que segue o estilo kafkiano, uma das influências desse falso realista que é Coetzee. Assim como no romance "A marca humana", de Philip Roth, o personagem será expiado e expelido do convívio do meio intelectual. E tal como nas tragédias gregas, a punição será o distanciamento, o isolamento.
 
Banido, Lurie vai ao encontro da filha Lucy, que mora numa fazenda, tendo com agregado o personagem Petrus. Este é um patriarca negro que tem uma forma diferente de pensar. No romance, Petrus é uma figura sinistra e sombria. Porém, o filme o coloca numa posição secundária, uma vez que o eixo é a destruição de Lurie. No encontro dos dois personagens, reaparece o conflito do colonizador (Lurie) e do colonizado (Petrus), porém as relações de poder são outras. O subalterno pode falar no mesmo tom de quem comandou, no caso da história da África do Sul, uma das experiências mais terríveis da humanidade que foi o apartheid.
 
 
O ponto mais chocante de “Desonra” é o assalto sofrido por pai e filha. Três garotos negros estupram Lucy e colocam fogo em David. O ato violento serve para que Lurie perceba a existência de uma outra forma de vida, representada por Petrus. Ali, os valores de justiça e tolerância não têm serventia — assim como não tinham durante o regime dos afrikaners do apartheid. Petrus esclarece no livro, como todas as letras, que existem outros valores no campo, mas o filme pouco explora a dimensão do colonizado subvertendo a ordem.
 
A versão para o cinema focaliza a nova "vida nua" de uma sociedade apostou tudo na aniquilação dos negros. A vida não vai vale mais nada, e o boer David é quem sente as dores dos novos tempos. Ele será o "mulçumano", o sujeito vazio se apagando, para lembrar a análise do Agamben sobre os regimes administrados, como foram os campos de concentração dos nazistas. A África do Sul mostrada no filme e no romance de Coetzee é uma sociedade que deixou de ser racista na lei, mas ainda está muito longe de ser mais igualitária e democrática.
 
A também sul-africana Nadime Gordimer escreveu "O Pessoal de July" (1981) e usou como epígrafe uma frase de Gramsci: "O que é velho está morrendo e o que é novo ainda não consegue nascer; e nesse meio tempo, surge uma enorme variedade de sintomas mórbidos". No livro de Gordimer, uma família branca está assustada com as transformações na África do Sul e decide fugir para o campo, assim como faz David. Coetzee é um mestre da metaficção que se esconde na escrita supostamente realista, e o romance de Gordimer é uma das fontes explícitas para “Desonra”. 
 
É nesse movimento da África do Sul, saindo do racismo institucionalizado, que aparecem os "sintomas mórbidos" mostrados em “Desonra”. Talvez seja também essa a situação das sociedades pós-coloniais em toda África e Ásia. Os colonizadores saíram, mas ainda não se sabe o que vai ficar no lugar. As narrativas tentam cobrir esse vazio, intervalo, interregno, que pode estar ainda no país de origem ou na metrópole que acolhe a diáspora africana, caribenha e indiana. Não se trata de defesa nacionalista, mas de uma exposição de realidade fraturada deixada pelo colonialismo.
 
O melhor da literatura contemporânea vem desses cantos do mundo e dos filhos da diáspora pós-colonial: Coetzee, Gordimer, Wole Soyinka, Salman Rushdie, Ahmadou Kourouma, Zadie Smith. A dúvida que ronda muitas cabeças é se devemos ler esses autores somente como retratistas de sociedades distantes ou alegoristas de questões nacionais. Eles têm muito mais dizer do que supõe a boa consciência letrada ocidental e lançam um olhar sobre as fraturas da cultura civilizada que inventou coisas como o apartheid e o nazismo. 
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