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POR EM 23/04/2009 ÀS 03:48 PM

Darth Vader: A trajetória de um perdedor

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Curiosamente, a história de Darth Vader, apesar de todo seu poder e glória, é, na verdade, a trajetória de um perdedor. O filme “Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith”, último capítulo da saga de ficção científica, sedimenta sua vocação para a derrota


 

O maior vilão da história do cinema é Darth Vader. A estrondosa bilheteria acumulada de seus filmes, somada aos resultados de centenas de enquêtes na internet, confirmam essa afirmação. É mesmo irrecorrível, é difícil negar que a criação de George Lucas possui atributos mais do que suficientes para receber tal título honorífico. Os físicos saltam aos olhos: armadura negra, mais de dois metros de altura, voz metálica, respiração pesada, sabre de luz sangüíneo etc, etc e etc. O currículo de maldades é farto: traiu e ajudou a destruir a Ordem da qual fazia parte, decepou a mão do próprio filho em combate, cortou pela metade o corpo de seu já idoso ex-mestre, chacinou a sangue-frio uma tribo inteira de beduínos, por mero capricho assassinou subalternos incompetentes, não teve escrúpulos em testar o perigoso procedimento de congelar um ser humano vivo em carbonita, usou sua influência política para espalhar o terror pela galáxia etc, etc e etc. 
 
Curiosamente, a história de Darth Vader, apesar de todo seu poder e glória, é, na verdade, a trajetória de um perdedor. O filme “Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith”, último capítulo da saga de ficção científica, sedimenta sua vocação para a derrota. Em segundo lugar, deixa explícita a forma desordenada com que o personagem foi desenvolvido. O mito do vilão perfeito não resiste a uma análise mais apurada.
 
O personagem possui duas grandes fases. A primeira vai de 1977 até 1983, e compreende o período em que a primeira trilogia “Star Wars” foi lançada nos cinemas. Trata-se da chamada Sagrada Trilogia, tamanha sua importância para os rumos do cinema enquanto principal produto da cultura de massa no século XX. Com esses filmes George Lucas, praticamente, inventou o cinema moderno. Mas, como se sabe, a primeira trilogia conta a segunda parte da história. A primeira parte, que compreende a segunda fase do personagem, foi contada na segunda trilogia, lançada entre 1999 e 2005. Não chega a ser uma nova Sagrada Trilogia (esta honra cabe a série “O Senhor dos Anéis”), mas possui seus méritos e foi um imenso triunfo financeiro. No século XXI, “Star Wars” deixou de ser objeto de culto para se tornar um grande produto.
 
O filme de 1977, intitulado inicialmente “Star Wars” e depois rebatizado como “Episódio IV – Uma Nova Esperança” (A New Hope), é uma pequena pérola: divertidíssimo, ritmo quase perfeito, roteiro inteligente e sem furos, diálogos simples e eficientes. A direção de arte e os efeitos especiais eram revolucionários. A magnífica trilha sonora composta por John Williams, deliciosa de ser assobiada, possuía certa sofisticação semi-erudita. Sua qualidade inegável lhe garantiu um improvável lugar entre os finalistas para o Oscar de melhor filme. Em “Uma Nova Esperança” se estabeleceu alguns dos conceitos que viriam a ser desenvolvidos posteriormente: a Força, Guerras Clônicas, Velha República, Ordem dos Cavaleiros Jedi, dentre outros.   
 
Sua continuação, “Episódio V – O Império Contra-ataca” (The Empire Strikes Back), de 1980, não é nada menos do que uma obra-prima. Uma aventura épica como poucas: movimentada, trágica, centrada nos personagens. Contêm algumas das melhores cenas de batalhas já filmadas. Desta vez George Lucas concentrou-se na produção. Dividiu o roteiro com Lawrence Kasdan e cedeu a cadeira de diretor para o documentarista Irvin Kershner, depois de ver seu trabalho em “Os Olhos de Laura Mars”, de 1978. A visão intelectualizada de Kershner da ópera pop de ficção cientifica que era o primeiro “Star Wars” enriqueceu a saga, desenvolveu sua mitologia, deu-lhe ares de filme sério. Deixou para trás o estilo “matinê de sábado” de “Uma Nova Esperança”.
 
O longa seguinte, “Episódio VI – O Retorno do Jedi” (Return of the Jedi, título traduzido erroneamente como “O Retorno de Jedi”), de 1983, ficou aquém das expectativas. Lucas não quis que Kershner voltasse. Talvez para garantir sua autoridade criativa sobre o produto. O primeiro diretor escolhido, Steven Spielberg, por motivos diversos, não pôde aceitar a proposta. O cargo ficou com o encrenqueiro Richard Marquand. O resultado foi um filme infantilóide, mal escrito e interpretado com preguiça (sobretudo por Harrison Ford). O entrecho dramático é de novela mexicana: mocinho pobre apaixonado pela mocinha rica, que é apaixonada por seu melhor amigo, descobre que ela é na verdade sua irmã-gêmea, de quem foi separado na infância, e vai confrontar o pai ausente a quem exige amor e compreensão. A missão dos heróis, o ataque à segunda Estrela da Morte, é praticamente uma refilmagem piorada do IV episódio. Apesar do festival de bizarrices foi um sucesso.
 
Assim, o apelo de “Star Wars” permaneceu. Criou-se uma série de subprodutos que desenvolveram a história em outras mídias, tais como filmes para televisão, desenhos animados, livros, gibis, internet e videogames. É o chamado Universo Expandido. O sucesso de um de seus elementos, o livro “Herdeiros do Império”, lançado em 1991 pelo escritor Timothy Zahn, levou George Lucas a considerar que havia chegado o momento de retomar a saga. O resultado foi à reinvenção e reintepretação, algumas vezes de forma equivocada, dos conceitos e entrechos dramáticos da Sagrada Trilogia.
 
Em 1999 foi lançado “Episódio I – A Ameaça Fantasma” (The Phantom Menace). Apesar do brilhantismo técnico o filme é decepcionante. Depois de mais de vinte anos George Lucas voltou a ocupar a cadeira de diretor. Ele, que se mostrou um cineasta competente em “Uma Nova Esperança” e na comédia dramática “American Graffitti”, estava totalmente fora de forma. Transformou um tiro certo em algo próximo do lastimável. Este é, sem dúvida, o pior filme da série. Seus diálogos são tolos, os personagens frouxos e o humor pueril. Chega a desmoralizar alguns dos mais célebres conceitos da saga, com explicações esdrúxulas. Vide a revelação de que a Força é produzida por umas “coisinhas” chamadas midichlorians. Desmoraliza personagens consagrados atribuindo-lhes origens esdrúxulas (C3PO, um sofisticado autômato de protocolo, criado para ajudar uma escrava em tarefas domésticas em um planeta desértico?!). Ignora o fato de que na Sagrada Trilogia os detentores da Força sentem a presença uns dos outros, mesmo a quilômetros de distância (como o “sábio” Conselho Jedi não foi capaz de descobrir a identidade da “ameaça fantasma” por este método?). Simplesmente se esquece de usar o efeito “túnel de estrelas” nas viagens interestelares em velocidade da luz, um dos grandes achados visuais da primeira trilogia. Descobrimos que o potencial de um jedi é medido por um Baralho Zener tecnológico. Por estas e outras, “A Ameaça Fantasma” consegue ser ainda mais infantilóide do que “O Retorno do Jedi”. E, não podemos descartar a hipótese, talvez por isto tenha tido mais sucesso do que ele. Afinal, quando Lucas criou o cinema moderno, criou juntamente o espectador idiotizado, comedor compulsivo de pipoca, que está pouco ligando para a substância do que vê na tela; desde que a imagem seja arrebatadora.
 
Lucas esteve melhor em “Episódio II – O Ataque dos Clones” (Attack of the Clones), de 2002. Se este longa não é um primor, não chega a comprometer. Apesar de o título escolhido ter sido ridicularizado pelo extremo mau-gosto, o filme em si foi um pouco melhor roteirizado (Lucas dividiu o roteiro com Jonathan Hales) e o apuro técnico continuou irrepreensível. Contêm algumas boas cenas de ação. Destaque para o surreal duelo entre Yoda, o personagem mais carismático da série, e o Conde Dookan, interpretado pelo sisudo Christopher Lee. Um combate entre cômico e empolgante. Infelizmente, “O Ataque dos Clones” não desenvolve a história tanto quanto poderia, obrigando o episódio posterior a se desenrolar às pressas para conseguir cobrir todo o enredo. O resultado é que o público fica privado de acompanhar as célebres Guerras Clônicas no cinema. Assistem apenas seu início e seu termino (as séries animadas “Clone Wars” não suprem este problema).  
 
Em 2005 foi lançada a última parte, “Episódio III – A Vingança dos Sith” (Revenge of the Sith), com Lucas novamente na direção. Desta vez entregou um bom filme, o terceiro melhor dentre os seis. Inferior apenas ao insuperável “O Império Contra-ataca” e ao ótimo “Uma Nova Esperança”. É bem verdade que o roteiro e os diálogos não são muito equilibrados, apresentando várias pontas soltas e tempos mortos, mas cumprem seu papel a contento. A ação é espetacular e acaba por diminuir o efeito dos equívocos narrativos. A platéia é seduzida pelo espetáculo. Infelizmente, em se tratando de “Star Wars”, uma história sagrada para duas gerações de nerds, um erro mínimo é um grande erro. Os espectadores mais exigentes não podem deixar de notar a evidente pouca habilidade de Lucas em lidar com o Universo que ele mesmo criou três décadas antes. Uma sensação sacrílega, mas incomodamente real. Lucas é um fomentador de inovações técnicas sem igual, mas há tempos está com o talento de escritor enferrujado. Algumas de suas decisões se mostraram absurdamente equivocadas. Por exemplo: como justificar que o poderoso Yoda não conseguiu derrotar um já combalido Imperador, enfraquecido pelo duelo com Mace Windu? Como explicar a morte da heroína no parto porque “perdeu a vontade de viver”? Qual o sentido de dar uma aparição tão pífia e gratuita a Chewbacca (Peter Mayhew)? Se era para ser tão pouco, não seria mais interessante fazer o wookie figurar já nos episódios I ou II, talvez ocupando o espaço preenchido pelo insuportável Jar Jar Binks? Em termos de direção de cena, o que pode ser menos inspirada do que a “estréia” ao estilo Criatura de Frankenstein de Darth Vader? Seja como for, está feito. Agora sabemos de tudo.
 
Nos filmes da Sagrada Trilogia, o espectador têm a impressão que o personagem principal é o Luke Skywalker de Mark Hamill. Assistindo ao conjunto de seis longas percebemos que o verdadeiro protagonista é seu pai, Anakin Skywalker, o homem que um dia se transformaria em Darth Vader. A saga “Star Wars” conta a sua história: seu nascimento miraculoso, infância sofrida, anos de formação, ascensão, queda, carreira maléfica, martírio, redenção e vitória sobre a morte. 
 
No mínimo sete atores interpretaram o personagem. Os dois principais foram David Prowse e James Earl Jones. O primeiro, ex-fisiculturista, contribuiu com seu porte aristocrático e físico avantajado. Uma curiosidade: Prowse, que possui raras aparições cinematográficas no currículo, pode ser visto sem máscara no papel do grandalhão de shortinho vermelho que carrega no colo o protagonista de “Laranja Mecânica”. O consagrado ator negro James Earl Jones contribuiu dublando Prowse. Emprestou sua voz grave e possante a Darth Vader. Sem ela o personagem não seria o mesmo. Não seria um clássico da imitação vocal, tão popular quanto o Pato Donald ou Vito Corleone. 
 
Também contribuíram o esgrimista Bob Anderson, e os atores Sebastian Shaw e C. Andrew Nelson. Anderson, especializado em treinar atores na arte do manuseio da espada, encarnou Vader em muitas de suas cenas de duelo (Prowse era lento e pesado demais para realizá-las). Mas quando a máscara negra foi retirada no final de “O Retorno do Jedi”, debaixo de pesada maquiagem, o rosto carcomido pelo mal que apareceu foi o de Shaw. Nelson vestiu a armadura negra em algumas cenas extras especialmente filmadas para a edição especial de “O Império Contra-ataca”.
 
Em sua segunda fase, a fase cara-limpa, seus interpretes foram Jake Lloyd e Hayden Christensen. O primeiro fez Anakin Skywalker ainda criança, em seu planeta natal, o desértico Tatooine. Uma escolha infeliz. O jovem Lloyd é um dos piores atores infantis já visto nas telas. Muito limitado, não convence em momento algum fazendo um tipo tão profundo e complexo. Parece extra de um daqueles filmes de animais fofinhos produzidos pela Disney. O amigo do amigo do amigo do herói. Christensen saiu-se melhor, interpretando-o no final da adolescência e na vida adulta. Ator esforçado, chegou a ganhar cerca de quinze quilos de massa muscular para poder vestir a armadura negra no final de “A Vingança dos Sith”, quando finalmente Anakin Skywalker se torna o maior vilão da história do cinema.
 
Um grande vilão para quem nada dá muito certo. A rigor sua primeira aparição foi em “Uma Nova Esperança”. Aqui Vader está sempre em segundo plano. É um coadjuvante de luxo. Aparece bem menos do que a fama adquirida posteriormente nos faz imaginar. Tampouco é muito prestigiado. Da forma com que é apresentado temos a impressão de que não é muito mais do que um burocrata paramilitar (a estrutura do Império Galáctico remete diretamente ao nazismo alemão). Seu superior imediato nem mesmo é o Imperador, e sim o comandante da estação espacial Estrela da Morte, Moff Tarkin, interpretado por Peter Cushing. A prisioneira princesa Leia Organa (Carrie Fisher), encontrando os dois juntos, chega a resmungar desaforada: “Governor Tarkin, i should have expected to find you holding Vader´s leash” (sim, nesta galáxia muito, muito distante o principal idioma é o basic, muito, muito parecido com o inglês da Terra), ou algo como “Governador Tarkin, já esperava encontrá-lo com Vader na coleira”. Na verdade, Vader não parece ter aqui uma posição muito bem definida na hierarquia do Império. Diversos outros oficiais tratam-no como igual ou mesmo o inferiorizam. É visto como uma anacrônica relíquia de um passado perdido. Um feiticeiro supersticioso, ao qual não precisam necessariamente temer ou tratar com respeito.
 
Seu duelo com o Obi-wan Kenobi de sir Alec Guinness, seu antigo mestre, parece a final de um campeonato de esgrima da terceira idade. Lento, lentíssimo. Mas está correto. Afinal, a luta é travada entre um senhor idoso e um deficiente físico. A rigor é isto que Vader é: um homem muito doente. Sua armadura negra, para além de um símbolo opressor, tem uma função pragmática: mantê-lo vivo. Trata-se de um complexo sistema de manutenção de vida, uma espécie de UTI móvel particular. Sua respiração pesada não é um mero capricho sonoro, é dificuldade mesmo (o que talvez tenha sido estabelecido a posteriori, uma vez que inicialmente a máscara foi concebida para ajudá-lo a respirar no vácuo, tendo Lucas depois mudado de idéia e ela de função). 
 
Kenobi foi o responsável por deixá-lo assim. Para Vader este combate significava sua chance de vingança. Na primeira vez que lutaram, Kenobi foi o vencedor. Na revanche o resultado é diferente, mas não muito. A vitória de Vader é ilusória. Kenobi deixou-se derrotar para poder se unir a Força e guiar os passos de Luke Skywalker. Em certo sentido derrotou seu pupilo uma segunda vez.
 
O dia não é mesmo dos melhores. Pouco depois, quando Darth Vader, que se considera o melhor piloto da galáxia, está perseguindo com seu ultra-sofisticado caça, modelo TIE-Figher Advanced, a nave de Luke Skywalker, um X-Wing padrão, estando prestes a destruí-lo, é atingido pelo ferro-velho mais veloz do universo, o Millenniun Falcon, pilotado pelo mercenário fanfarrão Han Solo (Harrison Ford). Não pode reclamar muito, sobrevive por sorte. Dupla sorte, pois também escapa da explosão da Estrela da Morte. Resta-lhe uma indigna retirada estratégica.
 
Voltamos a encontrá-lo em “O Império Contra-ataca”, que se passa cronologicamente cerca de três anos depois dos eventos do capítulo anterior. Neste filme, Darth Vader é realmente grande. Um vilão cruel, ambicioso e sofisticado. O excelente roteiro burila inclusive uma sagaz aproximação do personagem com o mito de Cronos, o titã grego que devorou os próprios filhos. Amparado por estas referências eruditas, Vader vive seus melhores momentos. O que significa os piores momentos para os outros personagens. Agora, nem mesmo o mais alto oficial do Império deixa de tremer em sua presença. Acabaram-se as ironias. É, finalmente, o segundo em comando. Abaixo apenas do Imperador. E o melhor: planeja um golpe de Estado. 
 
Em “O Império Contra-ataca” vemos Darth Vader travar com Luke Skywalker o melhor duelo de sabres de luz de toda a saga, nos porões de Bespin, a Cidade das Nuvens. Vader, depois de derrotá-lo, decepar sua mão e encurralá-lo em uma ponte, revela para Luke que é seu pai. Deseja tê-lo a seu lado para completar seu treinamento. Juntos poderiam derrotar o Imperador, destroná-lo. Governariam a galáxia como pai e filho, mestre e discípulo. Seu discurso sobre o poder do Lado Negro da Força é fantástico. Mas, Luke, claro, não aceita a sedução e foge saltando no vazio, sendo resgatado por Leia Organa. O close da mascara negra, impassível, consegue transferir para o espectador toda a decepção e rancor de Vader. Na seqüência seguinte ele aparece caminhando solitário e poderoso na ponte de comando de seu cruzador. Não desistirá de seus planos.
 
Mas desistiu. Em “O Retorno do Jedi”, depois de algumas boas seqüências iniciais, Darth Vader mostra o quanto é volúvel. Quando finalmente tem seu filho a sua mercê, desarmado, levá-o para o Imperador. Abortou o plano de destroná-lo. Obedece subserviente as ordens de seu mestre. Voltou a ser dócil como um cachorrinho treinado. Na coleira. Estranhamente esta docilidade representa um passo consciente para o suicídio.
 
Darth Vader é um lorde sith, um jedi dominado pelo Lado Negro da Força. Pela tradição dos sith, eles jamais podem exceder o número de dois. Um mestre e um discípulo. A observância desta lei é vital para o equilíbrio de poder. Se forem três, fatalmente dois se uniriam contra o terceiro e depois acabariam lutando entre si.   
 
O objetivo do Imperador era alimentar o ódio de Luke Skywalker até levá-lo para o Lado Negro da Força. Com o poder do Lado Negro poderia destruir Darth Vader e substituí-lo como seu aprendiz. Vader foi uma decepção para o Imperador. Jamais pôde desenvolver todo seu potencial. É, portanto, substituível por um jedi mais jovem e poderoso.
 
Depois de muito hesitar Luke Skywalker acaba duelando uma segunda vez com seu pai. Inicialmente apenas se defende. Depois, quando Vader ameaça converter não mais ele e sim sua recém-descoberta irmã-gêmea, Leia Organa, Luke se enfurece e ataca com toda a força. Derrota o pai desnaturado com facilidade. Decepa sua mão direita, uma mão biônica. Contudo, apesar do ódio liberado o jovem jedi não abraça o Lado Negro da Força. Frustrado, o Imperador decide matá-lo. Ataca-o com raios que saem de suas mãos (em uma seqüência de efeitos especiais de extremo mal-gosto). Neste momento ocorre a redenção do maior vilão da história do cinema. Penalizado com o sofrimento do filho, Vader, de volta ao lado bom da Força, daí o título do filme, agarra o Imperador e o lança no poço do gerador de energia da Segunda Estrela da Morte. A explosão resultante deixa-o a beira da morte.
 
O que vem a seguir é piegas até o último fotograma. Pedido de perdão, morte feliz, cremação do corpo, aparição do espírito ao lado dos antigos amigos Obi-wan Kenobi e Yoda (em 1983 aparecia Sebastian Shaw, na edição especial de 2004 o fantasma é Hayden Christensen). Desfecho patético para o maior vilão de todos os tempos. Um final feliz com sabor amargo.
 
Se o final da história é fraco, não se pode considerar que o início foi diferente. Voltando décadas no tempo, durante os eventos narrados em “A Ameaça Fantasma”, reencontramos Vader na infância, ainda como Anakin Skywalker. É um escravo de dez anos de idade. Segundo sua mãe sua concepção foi virginal e segundo seu descobridor, o mestre jedi Qui-Gon Jinn (Lian Neeson), ele é uma espécie de messias que trará equilíbrio a Força. Duas pouco convincentes referências bíblicas. Depois de ganhar uma corrida de bigas turbinadas, numa citação explicita de “Ben-Hur”, e de miraculosamente destruir uma nave espacial inimiga, torna-se um padawan, um aprendiz jedi. Impressiona o então senador Palpatine (Ian McDiarmid), futuro Imperador, que promete acompanhar de perto sua trajetória. Com toda razão, pois é um jovem promissor. Ninguém jamais teve tantos midichlorians quanto ele no sangue (eca!!!!).
 
Quando o encontramos dez anos depois, em “O Ataque dos Clones”, Anakin já é um jedi quase formado. Sua personalidade sombria transparece pelas roupas que veste, sempre mais escuras do que as de seus confrades. Apesar de reconhecidamente talentoso não inspira confiança aos líderes da Ordem, Yoda e Mace Windu (Samuel L. Jackson). Sua instabilidade emocional pode conduzi-lo ao Lado Negro da Força a qualquer momento. Basta fraquejar.
 
E fraqueja. Primeiro por ceder ao amor. Apaixona-se pela ex-rainha, agora senadora, Padmé Amídala (Natalie Portman). Envolvimentos sentimentais são proibidos aos jedis. São como monges das antigas Ordens Militares medievais terrestres: guerreiros e clérigos ao mesmo tempo. Fraqueja por deixar-se dominar pelo ódio. Quando sua mãe morre em seus braços, massacra uma aldeia inteira de nômades do Povo de Areia, de Tatooine, que a seqüestraram e torturaram. Os jedis devem usar suas habilidades apenas para se defender ou para cumprir alguma missão, jamais em vinganças pessoais. Fraqueja por ser orgulhoso e alto-confiante em demasia. Considerando-se o melhor espadachim da galáxia, ataca sozinho o sith Conde Dookan. Leva a pior. Tem metade do braço direito decepado. É salvo da morte pelo pequeno mestre Yoda.
 
Ao final do filme casa-se em segredo com Padmé. No lugar do braço ostenta uma prótese biônica. Há mesma que décadas depois será cortada por seu filho (que em minha opinião, não na de Lucas, é o verdadeiro messias da Força).
 
Reencontramos Anakin Skywalker três anos depois, em “A Vingança dos Sith”, como um veterano da Guerra dos Clones. Uma cicatriz no rosto dá testemunha do quanto já lutou. É um herói de guerra. Seu último grande feito foi o resgate do senador Palpatine, agora Supremo Chanceler da galáxia. Para isto precisou enfrentar novamente o Conde Dookan. Desta vez foi o vitorioso. Pressionado por Palpatine, degola a sangue-frio seu já rendido adversário. Um grande passo para a perdição.
 
Além de hábil político Palpatine é também Darth Sidious, um mestre sith. Pouco a pouco seduz o instável Anakin Skywalker, disposto a transformá-lo em seu aprendiz. Começa convencendo-o que os líderes da Ordem Jedi o desdenham e desrespeitam. Não reconhecem seus serviços como deveriam. Pior, são inimigos da República. Planejam um golpe de Estado. O passo seguinte é lhe prometer o segredo para vencer a morte usando o poder do Lado Negro da Força. Tal promessa, a esta altura, equivale a vender a Torre Eiffel a um turista que alimenta pombos em Paris. Mas Anakin cai. Fácil deduzir o motivo. Obi-wan Kenobi, em uma cena de “Uma Nova Esperança”, ensinou em basic que: “The Force can have a strong influence on the weak-minded”, ou algo como: “A Força pode ter firme influência sobre mentes fracas”. Anakin, a despeito de seu imenso poder, quando jovem, nunca foi conhecido por sua inteligência e percepção. Melhorou com a idade.
 
Certamente não foi a mesma estratégia que converteu, digamos, o Conde Dookan. As razões pessoais também contam. Com Anakin não foi diferente. Na Sagrada Trilogia somos levados a imaginar que tudo se deu em função de sua sede de poder. Nada mais errado. Pura maledicência. Em “A Vingança dos Sith” descobrimos que a queda aconteceu (suspirem!) por ele amar demais. Anakin, em seus pesadelos, previu a morte da esposa. Padmé está grávida. O mesmo aconteceu às vésperas da morte de sua mãe. Não deixará a desgraça se repetir. Quer salvar sua família a todo custo, mudar o destino. Acredita que de posse do segredo prometido por Palpatine pode fazer isto. Cheio de boas intenções abraça o Lado Negro da Força. É rebatizado como Darth Vader (o sentido e a origem do nome não são explicados). Os olhos vermelhos sublinham a mudança.
 
Começa um banho de sangue. Primeiro Vader ajuda Palpatine a assassinar Mace Windu. Em seguida parte para o Templo Jedi, onde massacra alguns ex-confrades e dezenas de crianças, aprendizes padawans. Pouco depois parte para Mustafar, um planeta vulcânico, com a missão de eliminar os líderes separatistas que, mancomunados com Darth Sidious, fizeram eclodir a Guerra dos Clones. A traição garante ao Supremo Chancelar o estado de emergência que o eleva a condição de Imperador. A República foi derrubada. Os jedis são declarados inimigos do novo regime e eliminados. Alguns poucos conseguem fugir e se esconder. Vader foi um peão neste jogo.
 
 Resta um confronto final. Entre Darth Vader e Obi-wan Kenobi, desta vez interpretado pelo hábil espadachim Ewan McGregor. Nada de lentidão desta vez. São dois guerreiros no auge do poder. O combate é violentíssimo, as raias do exagero, repleto de golpes improváveis e saltos impossíveis. O cenário são os rios de lava de Mustafar. Em princípio é um confronto desigual, o discípulo é muito mais poderoso do que seu ex-mentor. Mas Kenobi é experiente: já derrotou o temido caçador de recompensas Jango Fett, o líder separatista general Grievous e até mesmo um lord sith, Darth Maul, antigo aprendiz de Darth Sidious. O duelo se prolonga. Esta parece ser a estratégia de Kenobi. Dá certo. Novamente o excesso de confiança de Darth Vader é sua perdição. Um ataque mal planejado lhe custa as duas pernas e o braço esquerdo, decepados pelo sabre de luz do adversário.
 
Incapaz de dar o golpe de misericórdia, o mestre abandona às portas da morte o discípulo rebelde. Sem poder se mexer, o corpo de Vader é queimado pelo calor abrasador da lava. O salva a chegada de Palpatine. Esta quase irreconhecível. O novo Imperador recolhe o moribundo e, em um doloroso tratamento médico, o reanima, encerrando-o em sua armadura mantenedora de vida. Para garantir seu desligamento de seus antigos laços afetivos, o Imperador lhe diz que sua esposa e seus filhos estão mortos. Trata-se de uma meia verdade. Padmé faleceu no parto, mas os recém-nascidos Luke e Leia resistiram e foram escondidos por Kenobi (o que significa que Leia é dotada de uma memória extraordinária, uma vez que afirmou ter lembranças da mãe). Vader acredita no pior. Fracassou com sua mãe, fracassou com sua esposa e fracassou com seus filhos.
 
Para além das cicatrizes psicológicas, as físicas jamais se fecharam. Darth Vader nunca se recuperou dos ferimentos deste combate. Ficou incapacitado de evoluir, desenvolver seus poderes, tornar-se o sith super-poderoso que potencialmente poderia ser. Reduziu-se a uma sombra de si mesmo. Uma sombra amargurada, que jamais recuperaria seu orgulho. Quem bate esquece, quem apanha lembra. A derrota para Kenobi nunca foi esquecida ou superada. Este assunto não é tratado nos filmes, mas podemos deduzir que sua condição delicada de saúde o fez perder inclusive sua posição como segundo na hierarquia do Império, para Moff Tarkin. O que equivale dizer que Darth Vader foi rebaixado.
 
A rigor, como procurei demonstrar, a fama do personagem, e seu alcance enquanto ícone do mal, foi cimentada por um único filme: “O Império Contra-ataca”. Um dentre seis. Nos outros, na maior parte das vezes, Darth Vader é mero fantoche nas mãos de poderosos ou do redemoinho do destino.
 
Segundo as especulações de bastidores (também chamadas de fofocas) esta instabilidade do perfil do personagem deu-se em grande parte devido às diferenças criativas entre George Lucas e seu produtor Gary Kurtz, o maior responsável pela logística de “O Império Contra-ataca”. Disposto a fazer um conto de fadas espacial, com final feliz obrigatório, o todo poderoso Lucas afastou Kurtz de “O Retorno do Jedi”. Graças a esta questionável decisão corporativa a carreira de Vader como vilão de primeira grandeza foi abortada. O Imperador é promovido a principal representante do mal em “Star Wars”. Dos males o menor, o que certamente representou uma opção artística equivocada não se converteu em perda financeira. Em Hollywood, na maior parte das vezes, é isto que define um sucesso.
 
Mas, sejamos justos, o problema não foi o projeto, foi sua execução. Não é despropositado considerar que o rumo escolhido pretendia acrescentar densidade psicológica a Darth Vader. Apresentar suas motivações, aproximando-o do mito do Fausto. Não o Fausto de Marlowe, e sim o Fausto de Goethe. Um herói trágico que cai, mas se redime. Maldade gratuita raramente se sustenta (a rara exceção talvez seja o Iago de “Otelo”, de Shakespeare), é preciso substância, humanizar o personagem. Certamente as intenções foram boas. Porém, como diz o sábio ditado jedi, o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções. O saldo final decepciona porque sabemos que sequer poderemos encontrar o dito maior vilão de todos os tempos queimando nos quintos deste mesmo inferno. Como respeitar um escroque que termina a história com asinhas de anjo?
 
O que, aliás, nos coloca diante de uma série de graves questões: bastou o arrependimento? Até que ponto sua redenção é aceitável? No circulo familiar, sim, mas também na esfera pública? Darth Vader, um reconhecido psicopata sádico e amoral, viu-se subitamente limpo de toda sua vida de crimes unicamente porque retornou ao lado bom da Força? E as criaturas que matou? E os planetas que explodiu? Serão esquecidos? E quanto à justiça? Ele não deveria ser julgado em um tribunal interestelar, acusado de praticar terrorismo de Estado, como na Terra aconteceu com Saddam Hussein e Slobodan Milosevic? Escolheu a morte, como forma de escapar da pena e do achincalhe público, como na Terra fez Hitler? Os conceitos de Lado Bom e Lado Negro da Força, tendo origem religiosa, seriam aceitos em juízo? Sua memória será honrada pela nova ordem governamental estabelecida por seus filhos, Luke e Leia? Darth Vader / Anakin Skywalker será elevado à condição de herói, somente porque matou o Imperador? Mas não foi um ato passional? Ou melhor, não foi um crime de lesa majestade? Existe justiça nesta galáxia muito, muito distante???!!!
 
Em um julgamento isento a única estratégia possível de defesa seria uma alegação de insanidade. Insanidade temporária. Durou quase três décadas. Não há mais nada a fazer. O fato é que Anakin Skywalker falhou em quase tudo, inclusive em ser Darth Vader. Não basta ser bom para ser mal.
 

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