revista bula
POR EM 22/10/2010 ÀS 02:58 PM

Algemas de cristal: ou a presença do pai ausente

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“Algemas de cristal” — Um filme dos primórdios — anos dourados? — do cinema, que passa uma mensagem válida para gerações antigas, atuais e futuras. Por que trata de um tema universal, e sempre atual: a sombra do despotismo controlador da mãe sobre os filhos. A mãe cujo marido se perdeu nas distâncias, ou buscou afastar-se cada vez mais das lembranças do lar onde a personalidade forte da companheira não lhe permitiu ter um lugar.

Assim, seu retrato na parede, e comentado às visitas como sendo a memória do homem que buscou a distância, indo sempre mais longe, não é referido como aquele que fugiu à mediocridade do conhecido, e passou o resto de seus dias a buscar os perigos do estranho e do longínquo. A mãe, figura dominadora, saudosa de uma riqueza e uma glória que só existiram em sua imaginação, vive em névoas de ilusões vazias, buscando afirmar-se no na façanha imaginária de ser originária da primeira família que desbravou aquelas bandas do Mississipi.

Ela tem dois filhos, um homem, bem dotado de físico e inteligência, e uma filha, Laura, que é manca, introspectiva, sofre de baixa auto-estima, resultante de seu problema físico, e do fato de ser esmagada pela personalidade dominadora e controladora da mãe, que regula todos os seus passos mancos, a esperar que um dia venha um grande partido, que se apaixone por sua filha, e lhe dê um futuro de riqueza e conforto, não a vidinha pobre e rasteira, acossada pelas necessidades.

Um dia, de tanto ouvir os apelos da mãe, no sentido de que trouxesse à casa pretendentes eventuais a namorar a filha, um dia leva um colega de trabalho — o rapaz, vivido por Kirk Douglas, só mais tarde percebe que caíra em uma espécie de armadilha: acreditava ter sido convidado para um jantar em família. Mesmo assim trata a moça com muita simpatia — e até mesmo compaixão. Com delicadeza e tato de psicólogo, faz que se sinta bonita e importante, e até a leva para dançar. Ao retornar, sem perder a ternura, diz que é comprometido, tem uma noiva, que ama, sendo correspondido em seu afeto.

O encontro foi suficiente para curar Laura de seu complexo de inferioridade, resgatando um fiapo de alegria, que iria iluminar o restante de seus dias. Serviu também para liberar seu irmão, cansado de ser controlado e tratado como eterno bebê — algo o chama para aventura, abraçar a jornada nos caminhos do desconhecido. E vai à busca da mesma igreja que buscou seu pai, em seu anseio por seguir sempre adiante, amante das distâncias, nem um pouco saudoso do controle esmagador da companheira, que jamais saiu da bolha em que viveu toda a vida, inebriada com as luzes do carrossel das ilusões.

O psicólogo James Hillman tem um livro, “O Código do Ser”, que é uma radiografia perfeita do que chamou de falácia parental. E do que o filme “Algemas de Cristal” se propõe discutir, No capítulo que recebeu este título ele diz: “Os pais estiveram muitos séculos longe de casa: em campanhas militares, no mar, onde passavam anos embarcados em navios; como guias de gado, viajantes, caçadores, garimpeiros, mensageiros, prisioneiros, traficantes, mascates, escravos, piratas, missionários e migrantes. (...) A imagem convencional de pai, de um homem no trabalho, voltando para casa, à noitinha, provendo e cuidando da família, com tempo para dedicar aos filhos, é outra fantasia da falácia parental.

Essa imagem está muito afastada da base estatística. Em 1993, muitas famílias nos Estados Unidos se encaixavam no padrão de um pai-marido que trabalha para ganhar o sustento de uma família que consiste em uma mãe-esposa que não trabalha fora e nos dois filhos do casal. O resto tem uma vida diferente. A influência estatística para um pai, portanto, é principalmente não condizer com essa imagem, assim como para a mulher é não condizer com a imagem da esposa que não trabalha fora. Se por “valores familiares” se entende pai e mãe juntos morando com os filhos na mesma casa, esses valores pouco têm a ver com o modo como o povo americano efetivamente vive”.

E James Hillman assinala: “Em vez de recriminar os pais por sua ausência e pela injustiça concomitante de sobrecarregar as mães, os mentores, as escolas, a polícia e os contribuintes, precisamos perguntar onde papai está quando “não está em casa”. Quando está ausente, onde mais ele pode estar presente? O que o chama para fora de casa? O poeta Rainer Maria Rilke tem a resposta:


“Às vezes um homem levanta-se no meio do jantar
e sai de casa, e vai andando
por causa de uma igreja que há lá no leste.
e seus filhos rezam por ele como se ele tivesse morrido.

E outro homem, que fica em sua própria casa,
mora ali, dentro dos pratos e dos copos,
e seus filhos têm de se embrenhar no mundo,
a caminho daquela mesma igreja, que ele esqueceu”.
 

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