revista bula
POR EM 07/01/2010 ÀS 01:53 PM

A violência era tão fascinante

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Complexo Baader MeinhofAlain Badiou nota que o século XX teve a “paixão pelo Real”. Trata-se da busca pelas coisas autênticas, experiência verdadeira. Essa concepção leva em conta o tema da ideologia, o artifício pelo qual se encobre a realidade. Se o capitalismo carrega uma série de promessas de felicidade futura (nunca no presente) e fantasias, a “paixão pelo Real” é o motivo para desmascarar esses semblantes. E a tarefa do desmascaramento ocorreu na política por meio da violência e nas artes pelo “faça o novo” das vanguardas.

Nessa busca pelo Real, pelo autêntico, a política e as artes recorreram às armas da demolição. Só a depuração poderia levar ao que existe de mais verdadeiro — mesmo que esse verdadeiro fosse também uma ilusão. Não é por acaso que os anos 1960 assistem à formação de guerrilhas de esquerda contra governos conservadores (quando não ditatoriais) e de vanguardas que resultam nas instalações das artes plásticas. Foi o último momento de radicalidade em favor da mudança social e artística.

Livros, filmes recentes e séries de televisão têm se voltado para esse último período de experimentação. Mas é interessante ver um filme como o alemão “Complexo Baader Meinhof”, de Uli Edel. A intenção é recontar a experiência do grupo RFA, liderado por Andreas Baader, Ulrike Meinhof e Gudrun Ensslin e que sacudiu a Alemanha na virada dos anos 1960 para os 1970. Era guerrilha urbana para despir as máscaras do capitalismo (bombas em supermercados) e combater o expansionismo dos Estados Unidos.

Uma história dessas mereceria uma radicalidade de igual tamanho. Mas o que se vê filme é uma sucessão de dados, datas, informações, reconstituições de atentados à bomba. Parece matéria jornalística feita pelo History Channel — na verdade, o roteiro é baseado no livro de um jornalista, típico trabalho para se comprar em aeroportos. O filme de Edel parece editado por um jornalista da Fox News, que hoje é a maior referência da imprensa. Há um abandono da “paixão pelo Real”.

Atualmente, só conseguimos imaginar as artes descoladas de qualquer forma política e esta, por sua vez, afastada de qualquer “paixão pelo Real”. É como nota Slavoj Zizek a respeito do café descafeinado, refrigerantes zero, sexo virtual, guerra sem feridos: consumimos apenas coisas que trazem em si um dispositivo que as inibem. Rejeita-se a violência como método político, a menos que seja para bombardear povos distantes e chamados de fundamentalistas. E as artes devem ser apenas para o prazer.

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