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POR EM 02/02/2009 ÀS 09:34 PM

A Troca: a democracia como salvação

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Inegavelmente, Clint Eastwood tornou-se um homem sábio, com um ponto de vista muito claro sobre a ordem do mundo. E não tem pudores de usar a personagem como porta-voz de seus valores morais

A vitalidade de Clint Eastwood impressiona. Aos 78 anos, continua a realizar filmes, desempenhando funções diversas, e sempre com competência. Com a sua idade, mestres como Alfred Hitchcock, Billy Wilder e Howard Hawks já estavam aposentados, após darem sinal de perda de inspiração.

Por tudo que é visto e ouvido no filme “A Troca” (2008), não se pode ignorar a grandeza de Eastwood em seus múltiplos talentos. Desta vez, além de dirigir e participar da produção, ele compôs a música, que é das melhores coisas do filme: funcional, discreta e bonita.

O roteiro, escrito por J. Michael Straczynski, articula episódios que remetem a gêneros vários, sem prejuízo da unidade e do equilíbrio do conjunto. Por isso, e também por comparação ao que se vê no cinema atual, merece receber a nota máxima.

O filme acompanha o calvário de uma mãe, Christine Collins (Angelina Jolie), cujo filho de nove anos desaparece. A história se passa em 1928, em Los Angeles, quando a polícia local era corrupta e capaz dos atos mais condenáveis para aparecer bem na imprensa.

Além de manipular a imprensa e de contar com a omissão do poder municipal, a polícia tinha um aliado importante — o manicômio — para onde despachava as pessoas que, inconformadas com a sua ineficiência e má-fé, desafiavam a sua onipotência.

A polícia se sentia tão a cavaleiro com os próprios desmandos que entregou a Christine o primeiro garoto abandonado que encontrou e, descartando os argumentos dela com as explicações mais improváveis, deu o caso por encerrado. E, uma vez que ela não se conformou, trancafiou-a no manicômio, de cuja inflexibilidade e racionalizações absurdas ninguém escapava.

Diante de um quadro tão flagrante de subversão dos valores humanos, haveria salvação para a mãe injustiçada? O filme demonstra que sim, e a sua maior virtude está precisamente na exposição dos motivos dessa possibilidade.

A reação ao “status quo” tem início com a ação de um pastor, que se sensibiliza com a dor de Christine e assume a sua defesa nos sermões, denunciando ao mesmo tempo a corrupção policial. Coincide que ele tem um programa no rádio, que usa para ampliar a publicidade do caso. Em resposta à sua pregação, pessoas se juntam a ele para conseguir a libertação de Christine.

De outro lado, um detetive assume uma investigação aparentemente simples, leva seu trabalho a sério e acaba descobrindo um assassino serial de crianças. Estabelecida a conexão entre os dois casos, a população, mobilizada, sai às ruas para denunciar a corrupção policial e exigir uma solução para o caso do garoto desaparecido. Por fim, a questão chega ao tribunal, que cumpre sua função exemplarmente.

O arcabouço cartesiano do filme sugere que, mesmo num caso aparentemente irremediável, a justiça é possível graças à democracia. A liberdade de ação dos inconformados, a liberdade de informar dos meios de comunicação e a independência das instituições criam condições para que toda a iniquidade seja reparada e os culpados, punidos.

Mais uma vez Clint Eastwood exercita sua admirável técnica de contar histórias, na tradição dos grandes narradores de Hollywood. A sua segurança é tamanha que ele deixa o espectador saber do fim da história quando ainda resta muito filme para rolar. Em total empatia com Christine, o espectador permanece suspenso, enquanto ela prossegue na busca por uma notícia definitiva sobre o filho. E a reviravolta final é tão bem urdida que torna eletrizante uma parte da história que teria tudo para ser enfadonha, sem emoção.

No encontro com o assassino na prisão, Christine se desespera com sua atitude contraditória e lhe dá uns trancos, tentando arrancar-lhe alguma informação sobre o filho. Pode-se ver como implausível tal comportamento em uma mulher da década de 1920. Entretanto, considerando-se que o cinema sempre visita o passado com os olhos do presente, não seria justo negar a Angelina Jolie o direito de aproximar sua personagem de mulheres deste tempo.

Aqueles que renegam o inspetor Harry Callahan, policial durão que Eastwood encarnou em cinco filmes e que tratava os criminosos a tiros e pontapés, devem estar se perguntando se, ao mostrar uma polícia assim condenável, não estaria ele fazendo mea-culpa.

A questão pode ser vista também de outro ângulo. Mesmo condenando a polícia, o filme apresenta um detetive responsável, cuja atuação isenta leva à descoberta e prisão do assassino de crianças. Talvez Eastwood esteja propondo aos que interpretam Callahan de modo simplista uma reavaliação da sua mais famosa personagem.

Inegavelmente, Eastwood tornou-se um homem sábio, com um ponto de vista muito claro sobre a ordem do mundo. E não tem pudores de usar a personagem como porta-voz de seus valores morais. Isto fica evidente quando Christine dá ao filho o seguinte conselho: “Nunca comece uma briga, mas sempre termine-a”. Alguém tem dúvida de que esse lema viril pertence a ele?

Deus abençoe Clint Eastwood, para que permaneça lúcido e realizando filmes inspirados como esse, como “Cartas de Iwo Jima”, como “Menina de Ouro”.

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