revista bula
POR EM 15/01/2010 ÀS 11:03 AM

A supremacia Holmes

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Personagem clássico de Arthur Conan Doyle chega revigorado ao século 21 

Poôster Sherlock Holmes Montagem ligeira, cenas de ação com inúmeros acontecimentos simultâneos, trilha sonora em consonância com momentos alternados de humor e tensão. Essas são as primeiras impressões transmitidas pelo cineasta Guy Ritchie em sua esperada versão para as telonas do famoso personagem Sherlock Holmes, criado por Arthur Conan Doyle em 1887. Interpretado por um desbocado Robert Downey Jr., Sherlock Holmes faz jus aos novos tempos e se aventura contra a paranoia coletiva desencadeada por uma seita de lunáticos. Sempre acompanhado do parceiro John Watson (o galã Jude Law em papel inusitado), o detetive combate vilões gananciosos com mania de dominação como se tivesse sido treinado na mesma agência de espionagem de Jason Bourne, apesar de caminhar pelas ruas da sombria e desajeitada Londres do século 19. A agilidade e as artimanhas do velho fazem inveja a qualquer Ethan Hunt e James Bond de nosso tempo. 

"Sherlock Holmes" é um filme construído em cima da importância dos detalhes e dos contrastes. A personalidade do herói principal é fascinante: ele vai do tipo mais beberrão para o investigador centrado e prestativo, de acordo com as exigências da ocasião. Atento aos mínimos detalhes (matéria-prima de seu trabalho, de acordo com o próprio), Sherlock é um preciso investigador de imagens — sem necessitar de ferramentas como zoom ou cenas congeladas. Nada escapa ao alcance de seus olhos. Exatamente por isso, Ritchie consegue obter bons resultados do uso de foco subjetivo, da câmera lenta e da repetição de imagens — recursos justificados pelo talento afinado de seu protagonista. 

Na trama, Sherlock Holmes e Watson se envolvem na investigação de uma série de crimes praticados por Lorde Blackwood (Mark Strong), todos com requintes sinistros de magia negra. Ao salvarem uma garota que seria sacrificada em oferta a forças malignas, os parceiros conseguem a condenação de Blackwood à morte. Mas nem o enforcamento faz o vilão desistir de seu desejo insano por controlar poderes sobrenaturais e espalhar a filosofia de uma seita secreta disposta a conquistar todos os cantos do planeta. Aparentemente ressuscitado, ele força Sherlock Holmes a retomar o caso. Pelo caminho, Holmes se depara com uma antiga rival, a golpista Irene Adler (Rachel McAdams), e outros tipos de intenções duvidosas. 

O olhar contraditório de Robert Downey Jr. (ao mesmo tempo alheio e focado) é a alma do novo Sherlock Holmes. Mas a grande graça do filme está mesmo na interação entre o personagem-título e John Watson. A relação amistosa dos dois, pontuada por piadinhas espirituosas e fortes demonstrações de companheirismo e lealdade, é sabiamente colocada em primeiro plano por Guy Ritchie. A atuação do elenco também é marcada pelos comportamentos distintos da dupla: Robert Downey Jr. capricha no deboche e na sagacidade, enquanto Jude Law entrega um Watson inteligente e compenetrado. É um ponto de equilíbrio ideal para uma história repleta de perigos iminentes. 

Contudo, o diretor sabe dosar bem os outros aspectos do longa: nos divertimos com o enfrentamento corajoso de Sherlock ao vilão, com o nervosismo sexual do detetive ao mínimo contato com Irene, e com as teorias conspiratórias envolvendo mitos e planos de dominação global, tão típicas desse gênero cinematográfico. Algumas soluções de gosto duvidoso — como um personagem misterioso enquadrado com o rosto coberto de sombras — não chegam a comprometer o ritmo do filme. Os “recuos narrativos” e a câmera lenta explicativa, boa sacada de Guy Ritchie, minimizam o efeito dos clichês que a trama apresenta. 

Magia ou tecnologia? No fim das contas, pouco importa. A vindoura franquia de Sherlock Holmes vem para suprir a carência de um público saudoso de aventuras que desafiam a realidade tediosa do mundo — ainda que utilizando de uma ciência inverossímil até para os fãs mais astutos de Indiana Jones. Sherlock Holmes blefa, apanha (muito), bate (muito) e entra de cabeça no trabalho. Vamos torcer para que a continuação saia logo. Afinal, Holmes se torna um perigo quando fica muito tempo parado.

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