revista bula
POR EM 06/11/2009 ÀS 09:03 PM

A roupa nova do rei

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Bastardos Inglórios

Fui ver “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, com Brad Pitt, Christoph Waltz e Mélanie Laurent, e fiquei dividido. Por um lado, o filme entusiasma. Tem cenas fortes, atuações elogiáveis, referências cinematográficas, clima de tensão e explosões características de violência. Diversos personagens movem-se em planos diversos. É como se o diretor estivesse cada vez melhor no domínio de sua linguagem.

Mas, ele falsifica a história da Segunda Guerra Mundial, para dar um fim diferente a Hitler. E, no caminho desta falsificação, capricha em algumas tomadas repugnantes. Embrulha o estômago do espectador com papel de presente. O que nem sempre é agradável. Apesar de registrar a caçada de judeus pelos nazistas, felizmente nos poupa de visitas indesejáveis ao martírio dos campos de concentração. Também inverte os papéis e coloca um bando de judeus americanos, os Bastardos Inglórios, para escalpelar nazistas nas imediações de uma Paris ocupada pelos alemães.

Os requintes de crueldade são mostrados de lado a lado. Ingleses e americanos, naturalmente, são perdoados, pela vantagem de enfrentar vilões tatuados com a suástica na testa. A personagem francesa que encara militares germânicos sedutores é dona de um cinema, que servirá para Tarantino vender metáforas e prestar homenagens a artistas que incendiaram as telas, na época da película. Isto em plena fase do cinema digital. O que alimenta discussões metalinguísticas, intermináveis, em mesas de boteco e pizzaria, com chopp e tira-gosto.

Tarantino, agora, expande o poder do diálogo, antes de fazer com que as armas cuspam seus argumentos definitivos. Utiliza o poder do silêncio, como prólogo do cataclisma ruidoso. Neste prólogo, valoriza o desempenho dos atores, gerando atrito e eletricidade. No cataclisma, torna-se ensurdecedor e organiza o caos, na sala de montagem, de maneira frenética.

O que me revoltou: eu ri, em passagens truculentas, para disfarçar o incômodo causado pelo exagero. Mais tarde, Hitler rirá, no cinema, de prazer, ao ver o filme de um alemão, que, do alto de uma torre, dizima uma cidade inteira. Pensei: Tarantino refletiu, na caricatura de Hitler, os críticos e os consumidores de sua violência estilizada. Ao matar o rato, talvez ele tenha feito, de Bastardos Inglórios, uma verdadeira ratoeira. Ainda não decidi se eu caí como um patinho.
 

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