revista bula
POR EM 12/03/2010 ÀS 11:01 AM

A destreza de se fazer um filme sobre o ordinário

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Pôster de A DerivaDeriva, segundo suas definições em dicionário, significa o desvio de um navio ou de um avião por efeito de corrente ou de vento; significa ser arrastado, estar a mercê de uma força maior. No terceiro longa de Heitor Dhalia, “À Deriva”, é essa a expressão que melhor define o estado das personagens. Mathias e Clarice (Vincent Cassel e Debora Bloch, um casal de classe média alta, vivem uma crise no casamento cujos motivos são um pouco nublados. A situação se agrava quando Filipa (a estreante das telas, Laura Neiva), a mais velha de suas três filhas, descobre que o pai tem uma amante, tendo de lidar com questões como confiança, maturidade e liberdade.

O foco da história se mantém na menina e em seus conflitos durante quase todo o filme, principalmente porque as conseqüências da instabilidade do relacionamento dos pais se refletem nas suas descobertas de adolescente: a desconfiança, uma certa malícia, um jeito esguio e um tanto movediço de agir vêm, todos, de um sentimento indefinido de proteção dissipada. Mas é importante perceber a minúcia com que Heitor Dhalia construiu o perfil psicológico das personagens, que é o que permite com que tenhamos a empatia necessária para sentir o filme, ou seja, para partilhar da evolução das personagens. A impressão que se tem é que o diretor quis desenhar um cenário no qual todos são um pouco culpados e um pouco inocentes; um pouco vítimas, um pouco vitimados. Por isso é que, para o espectador conseguir o distanciamento necessário, é preciso observar os trejeitos de cada uma das personagens, em cada um dos seus atos. O sarcasmo de Clarice, a negligência de Mathias, a fugacidade da jovem Filipa: cada defeito ou aspecto pequeno exerce influência infinita no andamento da história, como acontece de fato na vida de todo mundo, em que o limite entre causa e conseqüência quase nunca é claro.

A trama parece simples, e as guinadas são poucas — quase inexistentes — mas o mais atrativo do filme é justamente a cautela com que o diretor transforma coisas corriqueiras em algo extraordinário sem forçar o limite da naturalidade. O clímax só acontece se imergirmos na história para pensar sobre a nossa própria — o que, convenhamos, nem sempre acontece, porque empatia é um laço difícil de ser amarrado. Além da riqueza de detalhes e da trama concisa, a história vem ambientada num plano de fundo impecável. Filmado em Búzios, “À Deriva” tem sua fotografia acompanhada pela trama. Além das cores um tanto retro e das escolhas minuciosas de angulação, a fotografia é exata do início ao fim. As imagens são movediças, um tanto cambaleantes, e a sensação que se tem ao assistir o filme, é de estar o tempo todo balançando. O ritmo, quase insosso, não é de fácil assimilação, e essa trama um tanto arrastada periga ser confundida com monotonia. Não se sabe qual foi a intenção de Heitor, que, depois do quase surreal “O Cheiro do Ralo", resolveu buscar alguma sutileza ao aproximar suas lentes do que é mais ordinariamente humano. Por isso, não seria de toda estranheza imaginar que até mesmo o tédio, para o diretor, seja proposital.

O declínio do relacionamento do casal e a forma como isso se estende na vida dos filhos acontece de maneira natural, sem  passar grandes angústias para quem assiste, já que as dores da história vão se diluindo aos poucos, sem que muitas coisas precisem se transformar. A própria protagonista, Filipa aprende a lidar com as suas dúvidas, e passa a confiar no pai. O ineditismo do filme está no fato de que ele não se preocupa em culpar ninguém. A separação do casal se dá por tensões várias, mas o filme apenas exibe as possíveis causas, sem apontar tendenciosamente para nenhuma delas. O filme nos deixa em paz com a dúvida, o não-saber: na história, como na vida, nem sempre se conhece os porquês de as coisas acabarem ou continuarem. E na vida, como no filme, estamos, quase sempre, a deriva de um vento, de uma curva, de uma corrente.

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