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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:34 PM

Entrevista José Alexandre Felizola

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"Na realidade Darwin não sabia muita coisa, inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original"


O professor José Alexandre Felizola Diniz-Filho, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Goiás, está entre os mais produtivos (em quantidade e qualidade) cientistas em Ecologia do Brasil. Pesquisador 1A do CNPq (o nível mais alto), Diniz é também um Fellow, isto é, um dos poucos brasileiros membros da prestigiosa Sociedade Linneana de Londres, grupo de naturalistas, que em 1º de julho de 1858, ouviu a leitura dos textos de autoria do britânico Charles Darwin, o homem que assombrou o mundo ao defender que todas as espécies derivam de um mesmo ancestral e que nem mesmo o homem escaparia do processo da evolução. O Professor José Alexandre, falou ao professor Ronaldo Angelini, da UEG de Anápolis, sobre darwinismo, evolução, e ciência. O lado humano e as curiosidades da vida e da obra do cientista inglês também poderão ser vistos na exposição Darwin: Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que Mudou o Mundo a partir de domingo, 17, no centro cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia.
 
Comecemos do princípio: afinal o que é Darwinismo? Uma hipótese científica, uma teoria ou uma área de investigação?
Darwinismo é na realidade uma tradição de pesquisa. Ernst Mayr, considerado um dos maiores biólogos do século XX, diz que o darwinismo tem cinco componentes principais: a confirmação da existência da evolução, a especiação, a ancestralidade comum entre as espécies, o gradualismo e a seleção natural como processo da evolução. É difícil caracterizar tudo isto como uma teoria na acepção da palavra, mas de qualquer forma o cerne do darwinismo é a seleção natural.
Tenho a impressão que dentro do ramo de pesquisa dito darwiniano, cabem teorias aparentemente antagônicas como, por exemplo, o gradualismo proposto por Darwin e o pontualismo do Stephen Jay Gould, ou ainda a radiação evolutiva e a deriva genética. Não é muita contradição dentro de um mesmo arcabouço teórico?
Vamos com calma. Gradualismo é a evolução dentro da população ou espécie ao longo do tempo e de modo contínuo, já a teoria do equilíbrio pontuado do Gould é alternativa à isto, pois propõe que as mudanças das espécies estariam concentradas em certos momentos de especiação, quando por alguma razão externa, haveria um isolamento de populações que evoluiriam diferenciadamente e dariam origens à outras espécies. Na verdade são modelos alternativos e complementares de evolução. Já a deriva genética é a fixação aleatória de características que não possuem valor adaptativo e é um fenômeno aceito dentro da teoria genética de populações neodarwiniana clássica, iniciada com Ronald Fisher no início do século XX. Perceba que ela é não-darwiniana, no sentido definido antes de seleção natural do mais ajustado, mas ela não é antidarwiniana. A questão é saber quais as características são fruto do processo adaptativo e quais não, isto é, que características evoluem de forma neutra.
Evolução neutra é um termo meio esquisito pra quem não é do ramo...Mas acho que podemos brincar com a frase de Einstein e dizer que no processo evolutivo, Deus joga dados viciados, isto é, tudo pode acontecer, mas alguns eventos acontecerão mais que outros, pois guiados pela seleção natural. É isto mesmo?
Sim, se você pensar que a maior parte da estrutura dos organismos não existe por acaso, isto é, ela foi ajustada a condições locais que se sucedem no tempo pela seleção natural. Isto implica duas coisas: primeiro, que os processos adaptativos atuais dependem da variabilidade mantida na espécie e segundo, que uma parte da variação atual pode ter tido função adaptativa no passado, mas não é útil hoje. Além disso, precisamos pensar que a variabilidade da espécie pode ser produto do acaso, do resultado do dado não-viciado naquele momento, e se esta variabilidade se fixa na população, dizemos que houve uma variação neutra. No nível molecular isto é muito freqüente.
Assim, nem toda modificação ocorrida numa espécie foi devida à seleção natural. O que aconteceu então?
Bom, pensando no lançamento de dados nós sabemos que pela organização que já existe nos organismos a maior parte das mutações aleatórias é maléfica, então não se mantém. Por outro lado, algumas delas são vantajosas e podem ser capitalizadas pela seleção natural. A parte da variabilidade que não tem função específica e, mesmo assim se fixa, constitui a evolução neutra. Como ela acontece com velocidade aproximadamente constante, a diferença entre as espécies para estas características é meramente função do tempo a partir do qual elas se isolaram. Assim, se conseguimos separar quais as características neutras, podemos medir as diferenças nestas características e reconstruir as relações de parentesco com mais facilidade. 
Isto me parece paradoxal...
Mas é paradoxal. Pois é, exatamente a evolução neutra que nos permite construir a história evolutiva de um grupo de organismos, como os tentilhões das Galápagos, por exemplo. Como sabemos que eles são aparentados? Pelas características comuns entre eles, por exemplo, o tamanho. Já os diferentes bicos que estas espécies possuem e que são resultados dos processos adaptativos que ajustaram os organismos e originaram as diferentes espécies, “mascaram” ou mesmo “apagam” a história de ancestralidade.
A evolução é uma “história” biológica ou uma teoria científica?
As teorias evolutivas se referem à mecanismos ou processos, como a seleção natural e a deriva genética, que mostram como se desencadeia a variação de características biológicas no tempo e no espaço.  Mas acho que podemos pensar a evolução como parte da história de eventos biológicos. Na verdade, é difícil pensar darwinismo como teoria cientifica exatamente por causa da multiplicidade de possibilidades de cada espécie ou linhagem, cujas características evoluíram por diferentes razões.
Então se é história, não é ciência (risos...) e apenas explica fatos que aconteceram e que não se repetirão jamais. Não posso olhar pra um lobo-guará e dizer: “este bicho será assim no futuro”. Desta forma, do ponto de vista científico, pra que serve a evolução se ela não pode prever nada?
Esta é uma definição de ciência mais instrumentalista que precisa prever alguma coisa. Mas a ciência não é só isto. Compreender processos que atuaram ao longo da história também é ciência. Nós não sabemos se o lobo-guará vai evoluir e gerar duas espécies diferentes, mas sabemos que se houver uma mudança rápida no ambiente ele pode vir a ser extinto, pois o seu nicho ecológico não acompanhará sua mudança. De modo geral, o nicho das espécies demora a evoluir, o que nos permite entender os gradientes de diversidade do mundo (mais espécies nos trópicos que nos temperados).
Recentemente a Nature publicou um trabalho, no qual os autores mostram que não são poucos os exemplos de espécies que surgiram a partir do cruzamento de outras duas espécies, um tipo de “híbrido promissor”. Darwin desconhecia totalmente este fato pois os híbridos são, na grande maioria, inférteis. Dentro da ciência da evolução como este dado, recentemente comprovado, se encaixa?
Na realidade Darwin não sabia muita coisa (risos...), inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original, acho que isto é diferente dos sociólogos que lêem Marx ou Weber, por exemplo. Porém, o conhecimento biológico avançou muito. Em relação aos híbridos não existe nada na teoria que mostre que isto não possa acontecer, mas por uma questão que já falamos de organização, não é muito provável que dois organismos que se diferenciaram, ajustando-se ao ambiente, voltem a se cruzar e deixar descendentes férteis, mais ajustados que eles próprios, isto se chama reticulação, mais difícil de ocorrer que a diversificação.
Tem uma espécie de ave nas ilhas Galápagos que a fêmea coloca dois ovos, mas só criará um dos filhotes, pois o primogênito expulsará o menor do ninho e a mãe aceitará impassível este fato. Alexandre, como que um gasto energético inútil, da ordem de 50%, pode ser vantajoso do ponto de vista evolutivo? Isto é, como a seleção natural não atuou nesta espécie para escolher fêmeas que colocassem apenas um ovo, já que ela criará mesmo apenas um filhote?
Dentro do paradigma evolucionista clássico, eu responderia que é muito mais dispendioso esta fêmea por um ovo apenas e correr o risco dele não se desenvolver. Mas também há uma outra possibilidade que quase ninguém leva em consideração, pois temos o costume de achar que as espécies estão todas prontas e acabadas, quando na verdade a evolução é um processo contínuo: assim, se os ancestrais desta espécie colocavam três ovos e só criavam um filhote, então esta ave ainda está no meio do caminho...
Ela não atingiu o ótimo...
Pois é, e quem sabe dentro de uns milhares de anos, vai economizar um ovo, colocando apenas um. Mas o importante aqui é entender que assim como a história não chegou ao fim, apesar do Fukuyama (risos...) [Francis Fukuyama escreveu o “Fim da História” ] , a evolução também não chegou.
Nos últimos 30 anos, quais as principais colaborações da genética para o entendimento da evolução?
A colaboração principal foi instrumental, tanto na Genética, como na Biologia Molecular que trouxeram algumas ferramentas formidáveis, que nos fornecem dados precisos nos permitindo estudar as variações das populações, que antigamente só eram feitas morfologicamente (através de medidas do corpo) e comportamentalmente (através do estudo do comportamento).
A seleção natural diz que o indivíduo mais ajustado ao ambiente sobrevive e deixa descendentes. E quem é o mais ajustado? Aquele que sobreviveu e deixou descendentes. Como esta tautologia, citada por Karl Popper, pode ser resolvida?
Esta tautologia é uma questão de semântica que não esta na concepção da seleção natural. Ela só existe dentro do programa plangossiano: a visão que todas as características estão associadas a seleção natural e isto, como já discutimos, não é verdade. Acredito também que esta tautologia só seria válida se eu pensasse a seleção natural como um processo teleológico, isto é, que você regula a distancia, com uma meta clara e isto você não tem na seleção natural.
Parece certo que Darwin foi influenciado pela “escada aristotélica”, idéia na qual Aristóteles diz que há uma hierarquia linear de complexidade com o Homem no topo. Isto colaborou para a interpretação também linear do processo de evolução proposto pelo inglês, como na famosa figura da evolução humana. Você não acha que este é maior e grave problema da compreensão da evolução como um todo?
Darwin foi o primeiro a dizer que não existe um organismo mais evoluído que o outro. Ele também foi o primeiro a usar a analogia da árvore evolutiva e nunca gostou da palavra evolução que se confundia, e se confunde ainda hoje, com progresso, preferindo usar “descendência com modificações”. Lamarck, sim, usou a escada aristotélica e Spencer era lamarckiano ferrenho. A árvore evolutiva foi posteriormente chamada por Mayr de evolução horizontal. Assim, nós não evoluímos do macaco, como na figura que você se refere. Na verdade, nós somos uns macacos (risos...), claro, diferentes dos outros como eles mesmos são diferentes entre si.
No livro Os ovários de Madame Bovary”, os autores tentam explicar os atos de personagens da literatura universal, baseados em hipóteses evolucionistas. Desta forma, madame Bovary trai o marido por que assim, ela tem mais chance de arrumar um “macho melhor, mais ajustado...” O que acha deste tipo de interpretação?
Esta é mais uma das distorções da sociobiologia proposta pelo Edward Wilson nos anos 70, que nada mais dizia que os comportamentos das espécies evoluíram como qualquer outra característica. Obviamente nosso comportamento evoluiu sobre pressões, mas não podemos esquecer que qualquer característica é sempre regulada pelo componente genético (intrínseco) e ambiental extrínseco. O que Wilson tentou mostrar, corretamente, é que aspectos culturais das sociedades humanas seriam subprodutos de vantagens adaptativas, mas isto não significa que comportamentos individuais têm base de determinantes genéticos. Claro que existem diferenças nos padrões sexuais de homens e mulheres que podem ser compreendidos pelo fato do homem ser um mamífero como outro qualquer, e estas estratégias ótimas para reprodução do mamífero macho sob o ponto de vista darwiniano seria acasalar com o maior número de fêmeas possível, enquanto que a da fêmea seria acasalar com poucos e com machos que lhe dêem maior condições de cuidar da prole, isto por que o investimento de uma fêmea é muitíssimo maior que o do macho. Isto gera conflito de interesses que é “resolvido” de diferentes maneiras pelas espécies e que é determinado por condições ambientais. Poderíamos entender que a freqüência de adultérios seria maior entre homens do que mulheres, mas isto é um fenômeno populacional e não poderíamos usar esta teoria, como desculpa, para que alguém, traia ou não o marido e vice-versa.
Uma teoria científica completa tem que mostrar porque as objeções à ela levantadas estão erradas. Você não acha que os Evolucionista-darwinistas formaram uma grande unanimidade burra, com Dawkins na vanguarda, que quase nunca aceita uma crítica, por mínima que seja?
Talvez sim, se você assumir que o Dawkins é uma adaptacionista extremo, ou seja, pra ele até o lóbulo da nossa orelha é adaptativo. Não sei se é bem o caso, mas particularmente vejo a necessidade de adotar uma visão mais pluralista dos processos evolutivos e considero que isto não vai contra a linha darwinista. O problema é que as criticas ao darwinismo são muitas vezes metafísicas de cunho religioso, a evolução teria um objetivo, e com isto é difícil discutir. Como em qualquer campo da ciência, o estudo dos processos evolutivos é difícil e, às vezes circunstancial com evidências indiretas e históricas, e aquilo que não sabemos é por causa da nossa ignorância, e não dá pra apelar para as respostas metafísicas.
Já mais de uma vez li, que o evolucionismo social, isto é, aquele que leva a ferro e fogo a tal da “sobrevivência do mais forte” e então sustenta cínica e cientificamente aberrações como o nazismo, por exemplo,  é uma forma degenerada e ideológica da teoria da seleção natural. Porém quem começou com esta conversa mole foi Hebert Spencer, antes de Darwin lançar seu “Origem das Espécies”. Não seria então ao contrário? Isto é, o darwinismo ser apoiado numa teoria francamente racista? E isto não teria implicações políticas claras quando retro-alimentada por ele?
Ronaldo, Darwin pode ter lido Spencer, eram contemporâneos e Spencer era amigo de Huxley, um dos mais ferrenhos defensores de Darwin, mas certamente não usou nenhuma de suas idéias. 

 
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